O Enem não foi anti-"coxinha", mas do tamanho do Brasil

Muito mais do que falar em "castigo" a "machistas" e "coxinhas", mais do que uma "vitória" de "petralhas", o tema da redação do Enem demarcou este campo de força civilizatório: homens e mulheres devem saber qual o projeto constituinte de 88 e com ele se comprometerem a consolidar e avançar

Muito mais do que falar em "castigo" a "machistas" e "coxinhas", mais do que uma "vitória" de "petralhas", o tema da redação do Enem demarcou este campo de força civilizatório: homens e mulheres devem saber qual o projeto constituinte de 88 e com ele se comprometerem a consolidar e avançar
Muito mais do que falar em "castigo" a "machistas" e "coxinhas", mais do que uma "vitória" de "petralhas", o tema da redação do Enem demarcou este campo de força civilizatório: homens e mulheres devem saber qual o projeto constituinte de 88 e com ele se comprometerem a consolidar e avançar (Foto: Leopoldo Vieira)
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"A persistência da violência contra a mulher" como tema do Enem revela uma escolha acertada do MEC, sobretudo em relação à fidelidade à Constituição do País, que assegura e prevê expansão de direitos e garantias com vistas a uma sociedade de democracia, liberdade, igualdade, equidade, bem-estar e laicicismo.

Num momento em que grupos políticos tentam praticar uma "constituição paralela" de conteúdo distinto e, pior ainda, coerção à infração da "lei" também alternativa; ao mesmo tempo em que se arvoram a alterar a Carta Magna de modo a torná-la apenas referente às suas ideologias culturais e econômicas, a prova do Enem fez bem ao Brasil. Aqui, há uma legalidade vigente e a ela qualquer vontade deve estar subordinada, pois fora inspirada em dolorosos pactos sociais. Não foi apenas na Europa, EUA, Japão cuja história, se espremer, jorra sangue não só da repressão das elites contra o povo, mas do confronto amplo, geral e irrestrito por ampla cidadania.

Muito mais do que falar em "castigo" a "machistas" e "coxinhas", mais do que uma "vitória" de "petralhas", o tema da redação do Enem demarcou este campo de força civilizatório: homens e mulheres do País devem saber qual o projeto constituinte de 88 e com ele se comprometerem a consolidar e avançar. Machismo, racismo, homofobia, ageísmo, eugenia, estado confessional, economia desregulada, tecnocracia, ditadura política, belicismo etc não compõem os valores de nossa Pátria.

Não vejo o tema com paixão, mas, parafraseando Caetano, "ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio". O ideal é que avancemos em sentidos como o dos próprio Estados Unidos, Rússia ou Argentina, que possuem narrativas gerais universalmente reconhecidas por suas cidadania, tal como símbolos e ícones nacionais.

Ziraldo, Carlos Drummond de Andrade, Chico e Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Freire são exemplos disso e, na verdade, nossas novas gerações precisam é de mais Vila-Lobos, Tropicalismo, Bossa Nova, Samba de Raiz na grade curricular. Celso Furtado, Raymundo Faoro, Gilberto Freyre, Abdias Nascimento, Caio Prado Junior, Getúlio Vargas com citações explicitas nos livros escolares. Narrativas que unam a Lei Áurea ao advento da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e da década de mobilidade social de Luiz Inácio; o ideário republicano do final do século XIX e início do XX com parte das reformas do Governo Provisório e do Estado Novo emersas da Revolução de 30, o modelo federalista de 88 com as revoltas e revoluções populares provinciais do Período Regencial, entre outras coisas.

Nossa garotada precisa entender (e estudar muito) que Simone de Beauvoir e Karl Marx desta prova se unem a Friedrich Nietzsche e Kant como literatura política e filosófica mundial e patrimônio de toda a humanidade em sua saga para compreender sua significação, ao invés de uma suposta "doutrinação", idiossincrasia de medíocres que querem moldar o Brasil a sua baixeza intelectual e humana.

Para além, compreender as nuances, causas e efeitos da crise imobiliária dos Estados Unidos de 2007 ou o panafricanismo são essenciais para que brasileirinhos e brasileirinhas consigam, por si próprios, não só se situarem diante do que ocorre hoje no País e no mundo, crise econômica e política nacional incluída, como propor soluções como protagonistas de suas vidas e dos rumos da nação, razão pela qual somos uma democracia.

O Enem cresceu a ponto de revelar para a mocidade a vastidão cultural e intelectual do Brasil e que haja, portanto, cada vez mais um efeito em cadeia, "súmula vinculante", "repercussão geral" para as escalas abaixo do sistema educacional. Agora, porém, todavia, mais do que corte para o acesso à Universidade, tais valores têm que ser a prática do poder púbico em todos os níveis, inclusive na hora de reprimir anti-valores da Constituição e os que querem nos reduzir a um "Estado Islâmico" tropical.

A propósito: Há um ano, comemorava com companheiros/as argentinos/as a vitória da presidenta Dilma. Ontem, Daniel Scioli não conseguiu vencer no primeiro turno as eleições argentinas. Lá, como aqui, a opção pela soberania nacional e pelo esforço estatal para proteger os pobres, trabalhadores e classe média da crise e especulação financeira tem um preço. Os jornais de oposição já começaram a apontar o dedo a Axel Kicilof, ministro da economia, que deve ter sido eleito deputado nacional.

Mas, com exceção de Buenos Aires, o mapa provincial foi como o esperado, o peronismo conquistou a maioria absoluta no senado e será a maior força da câmara. Máximo Kirchner foi eleito deputado nacional.

Lá, vamos pagar o preço das nossas escolhas, assim como pagamos aqui, com a linda vitória de Dilma. Assim como, provavelmente, lá eles terão que enfrentar terceiros turnos. Mas, como dizia o hino do MST, da luta do povo não nos cansamos. E lutaremos para inscrever esta época como luminosa - embora com erros e acertos - nos livros de História. Nesta época, "doutrinação" será querer enfiar goela abaixo dos futuros jovens que este lado buscava "ditadura gayzista, comunista..." e blá blá blá.

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