O enigma Bolsonaro

Ainda que o Ipsos tenha identificado o crescimento da rejeição ao deputado, há diversos fatores que podem mitigar isto. E um deles, a moderação da imagem, pode dar um resultado eficaz

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC)
Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) (Foto: Leopoldo Vieira)

No embalo das pesquisas CNT/MDA e Poder 360, analistas questionaram a viabilidade de Jair Bolsonaro para 2018. Para Jairo Pimentel, da USP, por exemplo, o deputado populista radical de direita deve 'derreter' por falta de tempo de TV e recursos, sendo seu desempenho atual apenas resultante de um recall. Projeta uma reedição de vermelhos (PT, mesmo com Lula fora do páreo) e azuis (PSDB).

O déficit desta análise é desconsiderar que Bolsonaro mantém a segunda colocação desde abril deste ano, muito provavelmente motivada pelo crescimento da lembrança espontânea e do voto exclusivo. Ademais, o fenômeno do candidato extremista decorre da radicalização do voto tradicional de direita após o alvejamento de líderes tradicionais do PSDB e do PMDB pela Lava Jato.

Para melhor visualização, digamos que a partir de 2005, gradualmente, as forças de direita se organizaram sob dois vetores:

a) O rechaço à "corrupção do PT", na sociedade;
b) A perspectiva de aprovação de reformas liberais e (re) repartição do orçamento entre as faixas de renda, favorecendo o topo do losango social, no mercado.

Com o fogo 'amigo' da operação, esta parcela da sociedade se deslocou para uma perspectiva que combinasse 'limpeza hospitalar' com capacidade de derrotar o PT/Lula (de fato, o lulismo).

Adiante, Bolsonaro tem o apoio potencial dos evangélicos, sua força reside mais nas redes do que nos meios convencionais de mídia, e tem buscado reunir-se com investidores, intelectuais liberais e moderar o discurso.

Ainda que o Ipsos tenha identificado o crescimento da rejeição ao deputado, há diversos fatores que podem mitigar isto. E um deles, a moderação da imagem, pode dar um resultado eficaz.

Um caso emblemático foi sua reação às declarações do general Mourão. O deputado disse que todos tem o direito de reagir à corrupção. Mensagem exata para o público dele, só que em tons racionais. Poderia ter dito, fossem tempos imediatamente de outrora, que apoiava a intervenção dos militares.

Bolsonaro também pode vir a se comportar como um biombo do populismo radical de direita, estabelecendo-se como um transferidor de empatia (na verdade, de antipatia a parcelas e valores da sociedade).

Outra declaração recente dele, de que a vitória em 2018 acabaria com sua vida, num estranho amolecimento de seu ímpeto, pode sinalizar uma estratégia bem mais sofisticada do que a sua própria investidura eleitoral, abrindo passagem para uma efetiva candidatura militar, quiçá do próprio Mourão, como já se ventila.

O 'golpe' militar assim seria, de fato, por via eleitoral, com um nome ainda mais original por encarnar a confiança elevada que a sociedade deposita nas Forças Armadas (em contraste com o Congresso Nacional e a Presidência da República). Bolsonaro passaria à condição de cabo eleitoral dos mais relevantes pela sua posição nas pesquisas.

E sobre este arranjo não se pode duvidar da força. Somente a maçonaria arregimentaria milhares de empresários anônimos. Para não falar nos políticos sob anonimato desta instituição, que, neste espaço, tem liberdade plena para conjecturar.

Não à toa, Michel Temer não descuidou de piscar para o voto extremista ao ser recebido por Donald Trump por ocasião da Assembléia Geral da ONU. Disse ter havido grande sintonia entre as percepções de ambos, deixando nas entrelinhas a hipótese de suporte a ideia do presidente dos EUA de intervenção militar na Venezuela.

Sem dúvida, uma dupla irresponsabilidade para quem vende, diariamente, confiança ao mercado financeiro. Contudo, Temer parece já saber que a conjuntura do ano que vem vai polarizar sistema político x Lava Jato lato sensu e se prepara para dinamitar possíveis candidaturas que sejam outsider sem establishment

Exatamente por isso, agências de risco político de investimento - como a Eurasia Group - incansavelmente buscam encontrar o atalho tático para evitar tal situação, flertando com a antipolítica (a despeito de seus enormes riscos).

A maior consultoria política do mundo divulgou boletim de análise "prevendo" que Jair Bolsonaro não será o Donald Trump brasileiro, pois haveriam outros candidatos, como Doria Jr, para ocupar este espaço.

Temor para não deixar que investidores comecem a tratar Bolsonaro como ele é: demasiadamente competitivo.

O Financial Times foi mais realista e sincero: já o coloca como possível presidente do Brasil.

Na Alemanha, neste domingo, o equivalente ao partido nazista voltou ao parlamento, coisa inédita desde 1945. Porquanto que a democracia cristã e a social democracia obtiveram seus piores resultados desde os anos 40.

Subestimar, ao invés de enfrentar as tendências efetivas do mundo, é como ciceronear a sociedade para o abismo.

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