O enigma Marina

A declaração de Neca Setubal sugere que a ex-seringueira governará ao sabor das convicções de outras pessoas, sem um rumo definido

A ex-seringueira Marina Silva parece repetir o fenômeno Fernando Collor que, em 1989, saiu de Alagoas, como "caçador de marajás", e chegou ao Palácio do Planalto com 42% dos votos válidos. Era um ilustre desconhecido que em curtíssimo tempo conquistou as simpatias do eleitorado e, como um furacão nordestino, venceu todos os concorrentes, inclusive Lula. Com a mesma velocidade com que chegou ao Planalto, porém, voltou para as Alagoas: em apenas dois anos de governo foi defenestrado por um impeachment votado pelo Congresso Nacional, coroando um movimento popular que tomou conta das ruas de todo o país. O mesmo povo que, entusiasmado com a sua mensagem, o colocou no Planalto, arrependeu-se em pouco tempo e o tirou de lá.

Teme-se, agora, que o mesmo possa acontecer com Marina que, saindo do Acre com um mandato de senadora pelo PT e depois ocupando o Ministério do Meio Ambiente do governo Lula, projetou-se nacionalmente quando disputou pela primeira vez à Presidência da República pelo PV, em 2010, obtendo cerca de 20 milhões de votos. Agora concorrendo pelo PSB, substituindo Eduardo Campos, de repente deu um salto nas preferências do eleitorado, ultrapassando o candidato tucano Aécio Neves e empatando com a presidenta Dilma Rousseff, até então liderando a corrida sucessória. E além de levar o pleito para o segundo turno já surge como provável vencedora, segundo as simulações dos institutos de pesquisas.

É essa possibilidade, impensável há menos de um mês, que está preocupando não apenas seus adversários, mas também cientistas políticos, economistas, empresários e religiosos, assustados com o seu programa de governo e, sobretudo, com a sua instabilidade, evidenciada quando o pastor Silas Malafaia obrigou-a a recuar nas questões referentes ao casamento homossexual e ao direito das mulheres em relação ao aborto. A maior preocupação, no entanto, está relacionada com a disposição de Marina de desacelerar a Petrobrás, reduzindo os investimentos no pré-sal, que deixa de ser prioridade, prejudicando a Educação, para onde deveria ser aplicada grande parte dos seus recursos. Há temores ainda sobre suas ações no setor industrial, com repercussões negativas para o emprego.

Para completar as desconfianças sobre os rumos de um eventual governo de Marina, a coordenadora do seu Programa de Governo, Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, disse que, se for eleita, ela "não governará com suas convicções pessoais". Pergunta-se: ela governará com as convicções de quem? Da própria Neca? Do pastor Malafaia? A declaração sugere que a ex-seringueira governará ao sabor das convicções de outras pessoas, sem um rumo definido, incorporando até mesmo – como revelou o candidato tucano Aécio Neves – programas do governo de Fernando Henrique Cardoso. O fato é que, diante da possibilidade de Marina vencer as eleições, começa a se criar no país um clima de incertezas, porque ninguém conseguiu ainda decifrar os seus discursos. Há um indisfarçável temor de retrocesso, o que, no entanto, não se mostrou ainda capaz de interromper a escalada da ex-seringueira em direção ao Palácio do Planalto.

O ritmo de crescimento de Marina, segundo atestam as pesquisas, apesar do bombardeio de que vem sendo alvo, ainda não sofreu qualquer abalo, o que levou o coordenador da campanha do tucano Aécio Neves, senador Agripino Maia, do DEM, a jogar a toalha. Ele já admite publicamente e com todas as letras a derrota do seu candidato e, por isso, prega uma aliança com a candidata do PSB, pois entende que a esta altura dos acontecimentos mais importante do que prosseguir remando contra a maré, com a candidatura do PSDB perdendo terreno, é derrotar o PT, "o mal maior". Surgiram rumores, inclusive, sobre a possibilidade de uma renúncia do tucano para facilitar a vitória de Marina já no primeiro turno, o que foi desmentido pelos líderes partidários.

O fato é que, como diz o vulgo, Aécio já era, encolhendo a cada nova pesquisa de intenção de votos, uma decepção para os que o consideravam virtualmente eleito. E a disputa ficou polarizada entre duas mulheres: Dilma Rousseff e Marina Silva. Como, porém, ainda falta um mês para as eleições, marcadas para 5 de outubro próximo, não está descartada a possibilidade de Marina sofrer um recuo nas próximas pesquisas, por conta de um arrefecimento do entusiasmo inicial dos eleitores, hoje mais atentos e conscientes do que em 1989, quando a perspectiva de eleger o primeiro presidente da República pelo voto direto, após 30 anos, provocou a onda que levou Collor ao poder. O cenário hoje, no entanto, é diferente. E muita gente que antes optara por Marina, motivada por vários fatores, inclusive a emoção pela morte de Eduardo Campos, já começa a refletir com mais maturidade sobre as confusas promessas dela, para que não se arrependam depois. Afinal, o Brasil, que obteve extraordinário crescimento e ganhou importância internacional nos governos Lula e Dilma, não comporta mais aventuras.

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