O estratégico show do Palmeiras e o chororô rubro-negro
Tomara que Ancelotti não precise utilizar Alex Sandro e Léo Pereira na Copa do Mundo, alerta Ricardo Nêggo Tom
Os primeiros vinte minutos de jogo foram promissores. A torcida rubro-negra assistia a um massacre do time comandado por Leonardo Jardim sobre um acovardado Palmeiras treinado pelo estrategista Abel Ferreira. E foi justamente a estratégia (do grego, strategia) — que se refere à arte de um general em comandar o seu exército durante uma guerra — que definiu o maior clássico do futebol brasileiro na atualidade. Desde o começo da partida, estava claro que o Palmeiras jogaria por uma bola e que o Flamengo tentava se impor como o dono da casa e como o time que precisava da vitória no confronto direto para diminuir a vantagem do rival na tabela do campeonato.
O esquema 3-4-3 de Abel, que, a depender do adversário, pode virar um 4-3-3 — com o uruguaio Emiliano Martinez atuando na sua posição original como volante — ou ainda um 4-4-2 — com o colombiano Jhon Arias flutuando como um quarto homem de meio-campo e abrindo o corredor para a subida do jovem Arthur — não foi muito bem lido por Leonardo Jardim. Sobretudo após a expulsão infantil e irresponsável do colombiano Carrascal, que já acumula mais expulsões do que gols na temporada. Foi a terceira vez que o meia do Flamengo é expulso e compromete o desempenho do time. E todo o “chororô” de parte da torcida rubro-negra em torno de um possível exagero do árbitro no cartão vermelho aplicado ao jogador não tem a menor razão de ser. Expulsão justa de um jogador que está sempre flertando com a irresponsabilidade e a desatenção dentro de campo.
Mesmo com um jogador a mais, e contrariando o comentarista Eric Faria, do SporTV — que entendia que ele deveria abrir mão de um volante e colocar um jogador mais ofensivo para aproveitar a vantagem numérica em campo —, Abel Ferreira não abriu mão da estratégia adotada para o jogo e manteve o time jogando por uma bola. O que poderia parecer um respeito exagerado ao adversário ou, até mesmo, uma covardia do técnico palmeirense era apenas convicção tática. Algo que Jardim não vem tendo no Flamengo nos últimos jogos, principalmente quando o time está em desvantagem no marcador e o técnico costuma desmantelar as suas convicções com substituições muito mais desesperadas do que estratégicas.
E aquela tão esperada e planejada bola surgiu para o Palmeiras aos 38 minutos do segundo tempo, numa jogada que surge na intermediária rubro-negra, mais para o lado esquerdo de ataque do Palmeiras — lado direito da defesa do Flamengo —, onde justamente Carrascal deveria estar auxiliando na marcação, quando o volante Marlon Freitas encontra o atacante Allan no meio dos dois zagueiros rubro-negros, e ele, de calcanhar, serve ao argentino Flaco López, que marca o primeiro gol do jogo. Destaque para o mau posicionamento da defesa rubro-negra, principalmente do zagueiro Léo Pereira, que estará servindo à seleção brasileira na Copa. Visivelmente mal fisicamente, o defensor protagonizou outros lances que justificam a sua questionada convocação para a Copa do Mundo.
Aliás, independentemente do jogador a menos, a atuação do zagueiro, e também de seu companheiro Alex Sandro, outro a quem Ancelotti garantiu a convocação, deveriam ser dignas de muita preocupação para a comissão técnica da seleção e para a torcida brasileira. Além de torcer para Neymar conseguir parar em pé dentro de campo, precisamos torcer para que Ancelotti não precise utilizar os dois jogadores do Flamengo juntos durante a competição. Do contrário, teremos fortes emoções pelo lado esquerdo da defesa brasileira. Leonardo Jardim não conseguiu identificar o problema e não percebeu que precisava mexer naquele setor do campo. Pagou pela falta de leitura de jogo e pela ousadia quase irresponsável na substituição que fez na volta do intervalo, quando tirou o volante Ewerton Araújo e colocou o veterano atacante Bruno Henrique.
Logo aos 2 minutos do segundo tempo, Jardim viu Léo Pereira sair na cobertura do cansado Alex Sandro e tomar um drible bobo de Flaco López, que, na sequência, deu um passe açucarado para Arias, que chutou para fora. Era o prenúncio de que a estratégia de Abel sairia vencedora do confronto. Com menos um em campo e menos um homem de marcação no meio-campo, o Flamengo se impôs indo ao ataque e, mais uma vez, ofereceu a bola que o Palmeiras tanto planejou receber na partida. Na verdade, foram outras duas bolas. Na segunda bola, um minuto após a cabeçada de Samuel Lino obrigar Carlos Miguel a fazer uma grande defesa, mais uma vez Flaco López vence o duelo com Léo Pereira e toca para Allan. O atacante avança com liberdade pelo meio e encontra Arias na área rubro-negra. O colombiano chuta, a bola desvia em Varela, sobe e sobra para o próprio Allan, que, de ombro — aproveitando uma falha absurda do goleiro Rossi —, faz o segundo do Palmeiras aos 11 do segundo tempo.
E dá-lhe mais substituições desastrosas de Leonardo Jardim, que seguiu ignorando o seu frágil sistema defensivo e optou por tirar o melhor jogador do Flamengo em campo, Samuel Lino, e colocou o equatoriano Gonzalo Plata. Abel Ferreira agradeceu, mas não abriu mão da sua estratégia de jogo nas substituições que fez: Maurício no lugar de Andreas Pereira e Felipe Anderson no lugar de Arias. Enquanto o exército do general Abel seguia vencendo a guerra e mantendo o “inimigo” sob controle, Jardim desarvorou-se ao colocar De La Cruz no lugar de Paquetá, e Saul no lugar de Jorginho. Dois jogadores totalmente sem ritmo de jogo que ofereceram ainda mais território para o Palmeiras. Pedro — que não viu mais a cor da bola após a expulsão de Carrascal — sairia aos 42 minutos do segundo tempo para a entrada do inoperante e destemperado Wallace Yan, que protagonizou uma discussão com Saul após o espanhol perder uma bola no meio-campo e não correr para recuperá-la.
Parecia que o jovem atacante rubro-negro estava a adivinhar que a terceira bola viria de um erro de Saul, que, após um passe displicente, armou um contra-ataque para o Palmeiras. O lateral esquerdo Jefté — que havia entrado no lugar de Arthur — achou Paulinho dentro da área do Flamengo. Léo Pereira (olha ele aí de novo!) não conseguiu acompanhar o atacante do Verdão, e ele chutou de perna esquerda para mais um frango absurdo do goleiro Rossi. Era o terceiro gol do Palmeiras, para tristeza da torcida rubro-negra e castigo de Leonardo Jardim, que deixou o seu time ainda mais exposto após ficar com dez jogadores em campo. Ewerton Araújo — embora seja fraco tecnicamente — é um volante jovem e de boa marcação. E todo time com menos um em campo, jogando contra o seu principal rival, não deveria abrir mão de um marcador. No máximo, trocá-lo por outro mais descansado.
Leonardo Jardim também precisa explicar o porquê de ter permanecido com o veterano Alex Sandro se arrastando em campo e não ter reforçado o sistema defensivo diante da inferioridade numérica e tática durante a maior parte do jogo. O desempenho do time nos últimos jogos vem deixando a desejar, e a pressão sobre o técnico é inevitável. Há muito tempo o Flamengo não perdia por 3 a 0, e isso já aconteceu por duas oportunidades na atual temporada. Primeiro, contra o mediano Bragantino, e agora contra o Palmeiras. Não é o caso de sentir saudades de Filipe Luís, que já vinha cambaleando à frente da equipe. Mas é bom alertá-lo de que Jorge Jesus está livre no mercado e sempre foi o grande sonho do atual presidente do clube. Presidente este que demitiu Filipe Luís após uma vitória de 8 a 0 sobre o Madureira.
Alguns jogadores também precisam dar explicações à torcida. Além do irresponsável Carrascal, Paquetá — que também estará na Copa — mais uma vez teve duas chances claras de gol e desperdiçou ambas. Um jogador que custou 42 milhões de euros não pode se dar a esse luxo. O goleiro Rossi é outro que precisa ser cobrado pela comissão técnica e pela diretoria. Dos três gols que tomou, dois foram frangos absurdos, e outro era uma bola defensável. No duelo entre os técnicos portugueses, Abel Ferreira levou a melhor e mostrou por que é o melhor técnico do futebol brasileiro, do ponto de vista tático. Seu jogo pode não ser vistoso, mas é eficiente, competitivo e vencedor. Eu não gosto do estilo de jogo do Palmeiras, mas devo admitir que é o mais estratégico dos últimos anos no nosso futebol. Estratégia, do português de Abel Ferreira: vitória.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


