O fim do marketing político tradicional

Não exagero em afirmar que, hoje, nenhuma instituição – pública ou privada – é reconhecida como indispensável ao dia a dia da sociedade. Nem o Judiciário, e muito menos a imprensa

Se eu tivesse de escolher um partido para disputar uma vaga nas eleições municipais deste ano, não titubearia em apostar no PT. E posso até arriscar que a legenda chegará mais forte que qualquer outra em 2018, podendo até eleger o novo presidente. Faço essa reflexão não como simpatizante da legenda, mas como profissional calejado em campanhas políticas. Que outro partido passou por tão doloroso processo de depuração e higienização moral dos seus quadros? Sob essa perspectiva, o juiz Sérgio Moro e seus procuradores estão fazendo um grande favor ao PT, quando deixam para o fim da fila os corruptos tucanos e a turma de sempre do PMDB. Isso se a fila andar.

O processo de escolha de um candidato a cargo eletivo não é diferente daquele que leva o consumidor a comprar determinado produto. Discursos e promessas são rótulos atrativos para despertar o interesse do eleitor, e funcionou com eficiência até o pleito de 2014. Nessas eleições, porém, prevalecerá o voto no candidato que apresentar algo de relevante e transformador para a sociedade.

Não é um desafio fácil, sobretudo em se tratando de um país abandonado, onde lideranças políticas se confundem com saqueadores, e aventureiros incendiários se lançam na disputa pelo poder propagando a divisão pelo ódio. A população brasileira não enxerga relevância alguma nas medidas anunciadas pelo grupo comandado por Michel Temer. O Movimento Brasil Livre não é relevante como organização de massas, principalmente depois de rasgada a bandeira fraudulenta do combate à corrupção, revelando que o grupo só queria mesmo era derrubar uma presidente eleita. Não exagero em afirmar que, hoje, nenhuma instituição – pública ou privada – é reconhecida como indispensável ao dia a dia da sociedade. Nem o Judiciário, e muito menos a imprensa.

Dentro de pouco tempo o Brasil renovará a representação municipal, elegendo prefeitos e vereadores nas 5.570 cidades do país. Quantos desses candidatos sabem o que é relevante para o seu eleitor? Pode parecer uma pergunta cretina, se as respostas também forem cretinas, do tipo: trabalho, segurança, saúde, educação, habitação, etc. O que quero saber é: qual a representação simbólica que existe em cada um desses temas, capaz de disparar no eleitor o gatilho emocional para escolher seu candidato?

No caso do trabalho, por exemplo, o desempregado está se lixando para propostas do tipo "vamos atrair empresas para nossa cidade" ou "vou transformar a cidade num canteiro de obras". Se o candidato tiver credibilidade e sinceridade nas palavras para dizer: "vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que você possa ter um trabalho que lhe dê condições de sustentar sua família", ganhará o voto de milhares de pessoas que vivem esse tipo de angústia.

Nenhuma estratégia de marketing é eficaz para tornar um imbecil em um ser relevante para a sociedade. Sem credibilidade e compromisso não se vai a lugar algum. Por isso acredito que essas eleições serão marcadas pela vitória de políticos da velha guarda, que estão retornando à vida pública. Essa é a aposta do PDT em Campinas e região, por exemplo. São ex-prefeitos que ficaram marcados na História de suas cidades, que se conseguirem resgatar na memória afetiva dos eleitores o quanto eles eram felizes tempos atrás, se consagrarão nas urnas. Não vejo um cenário promissor para renovação de quadros políticos no momento, ainda mais sabendo que grande parte dos jovens que ingressam na política são filhos de políticos. O eleitor sabe que o Brasil é um avião enfrentando tempestades. Não vai confiar o manche a quem acabou de tirar o brevê.

O eleitor não quer promessa de um futuro melhor. Ele quer de volta algo bom que se perdeu. Nunca ocorreu uma movimentação tão significativa na base da pirâmide social, como a que aconteceu no governo Lula/Dilma. Trabalho com aumento da renda, oportunidade de ter a casa própria, financiamento a juros baixos para bens de consumo, centenas de projetos espalhados pelo país, integrados ao Programa de Aceleração do Crescimento. Todos os governadores e prefeitos, independente de estarem no governo ou na oposição, se beneficiaram das ações comandadas pelo Planalto. Essa memória está vivíssima na mente do povo.

Por isso retorno ao parágrafo que deu origem a estas considerações. O Partido dos Trabalhadores está mais vivo do que nunca. E só não incluo o PDT no mesmo patamar, porque a legenda de Leonel Brizola ainda tem a vantagem de passar incólume no meio de toda a roubalheira que alcançou não apenas o PT, mas também o PMDB, o PSDB, entre outros.

A ferramenta mais poderosa de marketing vem da experimentação. Se há cinco anos o brasileiro era mais feliz, nenhuma campanha golpista é capaz de apagar isso da memória coletiva. Em Campinas, o prefeito Dr. Hélio, cassado também por um golpe parlamentar, derrotaria o atual prefeito ainda no primeiro turno. Tudo por conta dos códigos emocionais que semeou na sociedade, sobretudo entre os mais pobres. Cada realização administrativa é percebida pelo indivíduo como um esforço para a transformação de sua vida. Já o atual prefeito da cidade, Jonas Donizette, investiu dinheiro na maquiagem da região central, escondendo fios e recapeando avenidas. Os mendigos que se juntam aos usuários de craque, e que dormem sob as marquises, adoraram.

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