O fim do sonho português?

"A luta da esquerda deve ser hoje a de aprofundar as virtudes e neutralizar os vícios. Chamamos a isso radicalizar a democracia", escreve o sociólogo Boaventura Sousa Santos

Em Lisboa, mesário prepara equipamentos da seção eleitoral minutos antes da abertura da votação em Portugal.
Em Lisboa, mesário prepara equipamentos da seção eleitoral minutos antes da abertura da votação em Portugal. (Foto: REUTERS/Pedro Nunes)
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Para alguma imprensa estrangeira os resultados das últimas eleições significaram o “fim do sonho português”. O sonho português era o fato de Portugal ser o único país da Europa sem significativa força de extrema direita. A verdade é que, ao longo dos últimos cem anos, a extrema direita esteve quase cinquenta anos no poder. No restante do período, de 1974 até hoje, continuou a existir como uma pequena minoria ressentida e nostálgica, circulando entre a ilegalidade, a legalidade e, sobretudo, a legalidade, com manifestações por vezes violentas, outras vezes apenas sordidamente insultuosas e sempre inconformadamente órfãs do pai que lhes devolvesse o ouro que imaginam alguma vez ter tido. Se algum sonho terminou, foi o da clandestinidade e contenção da extrema-direita. Para que o sonho não seja seguido de pesadelo, é necessário analisar o que ocorreu nas eleições. 

Dadas as circunstâncias, as eleições presidenciais foram um prodígio organizativo e demonstraram um espírito cívico que pode ter espantado mesmo os mais avisados. Apesar de alta, a abstenção foi muito mais baixa do que se previa. Os dois grandes vencedores das eleições foram Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. O primeiro, pelo modo como esteve presente; o segundo, pelo modo como esteve ausente. Em tempo de pandemia, esta vitória maciça é um bom augúrio da estabilidade política por que os portugueses ambicionam neste tormentoso período de existencial insegurança. Seguiram-se dois semivencedores, Ana Gomes (AG) e André Ventura (AV). AG mostrou que é possível a dignidade política, mesmo nas condições mais adversas. A sua vitória principal foi a de ter afirmado a força e a valentia da esquerda do PS. Quem não se lembra das afirmações infelizes de Carlos César, presidente do PS, quando AG lançou a sua candidatura e o mal disfarçado asco que mostrou pela sua camarada de partido? A vitória da AG foi condicionada pelo fato de não ter conseguido construir uma aliança com as outras famílias de esquerda, ter dado menos atenção aos jovens e não ter sido hábil no uso das redes sociais. 

AV foi um falso semivencedor. A sua vitória só foi condicionada pelos objetivos que astuciosamente se propôs. Desta perspectiva, foi um vencedor. Propôs-se objetivos arriscados apenas para ampliar artificialmente o fôlego da sua proposta. O objetivo real foi cumprido. São cinco os pilares principais da força da extrema-direita. Primeiro, o crescimento da extrema direita, um fenômeno mundial que, com diferentes matizes (a que se junta por vezes o conservadorismo religioso), tem vindo a abalar o mundo na última década. Chega a Portugal com algum atraso, e isso pode ser uma vantagem, dado que começam a ser notórios os desastres sociais e políticos a que a extrema-direita conduz os povos quando governa. Basta ver o caso dos EUA, do Brasil e da Índia. A nova geração de fascistas chega ao poder democraticamente, mas, uma vez no poder, não o exerce democraticamente, nem o abandona democraticamente, se perder as eleições. Segundo, o aprofundamento repugnante das desigualdades sociais, a erosão das expectativas de vida digna da grande maioria da população, o medo abissal da pobreza abrupta, o abandono das populações do interior, a falta de acesso aos serviços públicos, nomeadamente de saúde. Terceiro, um pilar específico do caso português: o não se ter feito um julgamento das atrocidades e violências do fascismo e do colonialismo nem se ter educado as novas gerações sobre esse período obscuro da nossa história, um período muito mais longo que a democracia em que temos vivido desde 1974. Quando não se aprende o que foi o passado, o presente parece traiçoeiramente eterno. Quarto, o papel da mídia e das redes sociais. A relação da extrema direita com as mídias convencionais tem seguido o mesmo padrão em todo o mundo: um período inicial de deslumbramento seguido de hostilização e recurso predominante às redes sociais. Este processo eleitoral ocorreu todo quase até o final na lógica do deslumbramento. Muitos terão ficado chocados com a nova geração de entrevistadores-inquisidores que tudo fizeram para centrar os “debates” na afirmação/negação da presença de AV, e não no conteúdo propositivo dessa presença. O deslumbramento só começou a vacilar quando os jornalistas passaram a ser insultados como inimigos e houve limpa-brisas partidos. Quinto, na ausência de alternativas ao neoliberalismo, à injustiça, ao racismo e ao sexismo, as populações vulnerabilizadas tendem a pensar que os seus agressores são os que estão ainda mais vitimizados que eles, sejam eles ciganos ou imigrantes ou populações negras. Gera-se assim a lógica de vítima contra vítima de que se alimenta a política do ressentimento, o recurso privilegiado da extrema direita. Os democratas deste país, a imensa maioria dos portugueses, têm de saber lidar com estes cinco pilares para que o fim do sonho não seja seguido de um pesadelo ainda mais longo.

O grande derrotado das eleições foi o PSD. O erro político que o seu secretário-geral cometeu ao admitir, em geral, e ao concretizar nos Açores, alianças com o partido/candidato de extrema direita, ao arrepio dos principais partidos europeus da mesma família política, mostrou que, sendo um bom gestor, não tem cultura nem visão política à altura das extraordinárias circunstâncias em que vivemos na Europa e no mundo. Devia saber que, quer na Europa quer no mundo, da Hungria e da Polónia aos EUA e ao Brasil e à Índia, a extrema direita não tem soluções para proteger a vida ou melhorar a economia. É eficaz a destruir, mas nada pode construir em democracia. Pela simples razão de que a sua solução é a destruição da democracia. Por outras palavras, sabe partir louça, mas não sabe fazer louça, e muito menos encher os pratos de comida. 

A esquerda foi de igual modo derrotada, sobretudo porque não se soube unir. Ninguém se apercebeu das diferenças políticas substantivas entre Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias. Chegaram a desaprender o que tinham aprendido em eleições anteriores. Os cálculos políticos derrotaram a política. À esquerda do PS, a derrota foi estrondosa, muito particularmente o Bloco de Esquerda. Espero que a atual direção aprenda as duas lições principais deste desastre. Primeiro, a um bom candidato não basta para corrigir um erro político grosseiro, como foi o de não se abster na votação do Orçamento de 2021. Em tempos de excesso de medo e de enorme déficit de esperança devido à pandemia, era crucial ser parte da solução de governação, uma solução que, não sendo perfeita, não o é mais ou menos que as decididas nos outros países que nos servem de referência na UE. A deserção do BE animou a direita que, a partir de então, assumiu a estratégia de isolar o governo e pôs o BE na posição de quase pedir desculpa por ter votado contra. Segundo, na atual conjuntura internacional, o antissistema foi capturado pela extrema direita. Pela simples razão de que o antissistema agora não é o socialismo ou o comunismo, mas a ditadura e o fascismo, por mais disfarçado de “democracia iliberal”. O sistema é a democracia com todos os defeitos (cada vez maiores) e virtudes (cada vez menos imprescindíveis para largas minorias). 

A luta da esquerda deve ser hoje a de aprofundar as virtudes e neutralizar os vícios. Chamamos a isso radicalizar a democracia. Como não há extrema-esquerda, o BE é parte do sistema, e é nessa qualidade que deve concordar e discordar. Isto significa que em caso algum pode dar argumentos ou espaço aos antidemocratas. Os dois extremos já não se tocam, pela simples razão de que só há um extremo, a extrema direita. Se estas lições não forem aprendidas, o BE pode desaparecer, uma perda irreparável para as esquerdas e um empobrecimento perigoso da democracia.

 

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