O fundo do poço dos tucanos

A cobertura da imprensa tem revelado informações espantosas sobre o descaso dos governos tucanos com os recursos hídricos do Estado de São Paulo

Nas duas últimas semanas, os governos do PSDB foram duramente criticados, em editoriais, pelos mais importantes jornais do Estado: Folha de S. Paulo, por duas vezes, e O Estado de S. Paulo, uma vez, em razão da dramática situação vivida pelo povo de São Paulo com a falta de abastecimento d'água.

A cobertura da imprensa tem revelado informações espantosas sobre o descaso dos governos tucanos com os recursos hídricos do Estado; com o Sistema Cantareira e com a distribuição de água na região, a cargo da SABESP, empresa responsável pelo atendimento das 8,8 milhões de pessoas que podem ficar sem água.

O desperdício do Sistema Cantareira, com dutos deteriorados, entre outros fatores, chega a 40%. Estudos encomendados pelo governo apontam a necessidade de construir represas equivalentes a outro Sistema Cantareira até 2035, com investimentos estimados em cerca de R$ 10 bilhões. Os governos tucanos foram indiferentes aos estudos e aos alertas produzidos por instituições universitárias e empresariais ao longo das duas últimas décadas. Praticamente nenhuma ampliação significativa ocorreu no sistema de abastecimento.

Hoje a falta d'água ameaça não apenas o cidadão, com os transtornos causados nas residências, mas também o setor produtivo. Empresários de São Paulo começam a manifestar apreensão com a evolução da crise no abastecimento. E eles estão cobertos de razão, já que as regiões metropolitana de São Paulo e Alto Tietê respondem por 25% do PIB nacional.

Mesmo com o Sistema Cantareira registrando o perigoso índice de 15%, o governador Geraldo Alckmin resiste em implementar uma política oficial de racionamento. Ele tenta poupar sua imagem do desgaste porque é candidato à reeleição, mas não poupa o povo de São Paulo do risco de um colapso. Na prática, o corte diário ou semanal de água já ocorre. Falta ser oficialmente anunciado. A falta de abastecimento tem afetado a Grande São Paulo e municípios a oeste da capital, como Barueri, Cotia, Embu das Artes, Santana de Parnaíba e Itapevi da Serra.

A "reserva" do Cantareira tem condição de abastecer São Paulo por apenas mais quatro meses. O governo Alckmin, em desespero, apela para a utilização do chamado "volume morto" – água barrenta, armazenada nas profundezas da represa – e para isso utilizará 17 bombas a fim de garantir o abastecimento até o mês de novembro, logo após a realização das eleições. A instalação das bombas custará R$ 80 milhões para captar água, literalmente, do fundo do poço.

A opção pelo Sistema Cantareira ocorreu em 1960, quando já se sabia que a alternativa ideal seria investir em reservatórios no Vale do Ribeira. Os especialistas apontam, entre outras falhas, a demora do governo em fazer novos investimentos. A falta de saneamento dos rios Pinheiros e Tietê, apesar de a Sabesp ter divulgado que fez investimentos de US$ 3,9 bilhões em obras do Projeto Tietê, seria outra alternativa para minimizar a dependência do Sistema Cantareira. Há duas décadas no comando de São Paulo, os tucanos não fizeram nem uma coisa, nem outra.

O pedido de socorro que o governador fez à presidenta Dilma Rousseff para que São Paulo seja beneficiado com o excedente da bacia do Rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de 15 milhões de pessoas em 184 municípios cariocas, também foi outra decisão equivocada. O que já provocou reações do governo Sérgio Cabral e de parlamentares daquele Estado, que pedem uma análise técnica apurada da Agência Nacional de Águas (ANA) antes que qualquer decisão seja tomada.

Se já não bastasse o desmonte da educação, a impotência em relação ao crime organizado, a ineficiência do transporte de massa, a inoperância na área de saúde, os tucanos, com duas décadas à frente do governo paulista, colapsaram o abastecimento de água. O ciclo do PSDB no Estado de São Paulo chegou de fato ao fundo do poço.

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