O governo Bolsonaro poderá se desagregar?

Se Bolsonaro perder o apoio do Centrão e das Forças Armadas, o povo precisará sair às ruas "para terminar de constituir o cenário para o impeachment. Para desfechar o golpe fatal nesse governo miserável", defende o sociólogo Emir Sader

Esplanada dos Ministérios
Esplanada dos Ministérios (Foto: Ana Volpe/Relações Públicas)
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Se perguntam lá fora e nos perguntamos também aqui dentro: qual o limite para que um governo como este possa sobreviver? Um governo que comete, diariamente, crimes de responsabilidade, da forma mais impune possível. Um governo que degrada a função de presidente da República. Um governo que não protege os brasileiros diante da pandemia. Um governo que projeta a imagem de um país sem leis nem autoridades públicas pelo mundo afora. 

Sabemos quem ainda apoia este governo: os grandes empresários, porque lucram com ele, com sua política econômica, que retira toda forma de regulamentação do mercado pelo Estado. Porque faturam com as privatizações. A mídia econômica, pelas mesmas razões e porque ideologicamente aderiu ao neoliberalismo e não se pergunta como esse modelo é antinacional, antidemocrático, injusto e promotor da desigualdade. 

Grupos de evangélicos, por seu fanatismo religioso, que projetam para o PT a imagem do diabo, do inferno, de todos os males que colocariam em risco a religião, a família e seus valores. Os militares, que viram no vazio de pessoal de governo uma possibilidade para ocuparem grande quantidade de cargos, tanto no Palácio do Planalto como em todos os ministérios, com cifras espantosas de milhares deles em cargos que não têm nada a ver com sua formação.

Mas isso basta para que se mantenha um governo se esse governo tem um apoio cada vez menor da população? Se esse governo mente desbragadamente todos os dias de forma impune? Se esse governo se choca com as necessidades mínimas da população de se defender do vírus da pandemia? Se esse governo entrega o país aos interesses dos Estados Unidos e o presidente chega a beijar a bandeira norte-americana?

Um governo costuma cair quando é derrotado em eleições ou quando é derrubado. Pode ser derrubado por um impeachment ou por uma rebelião popular ou até por um golpe. Em condições normais, teremos eleições daqui a mais de 20 meses, um tempo descomunal pela catástrofe humanitária que vivemos. O impeachment necessitaria de grandes mobilizações populares expressando a rejeição generalizada do governo, impossibilitadas pela situação aguda da pandemia. Ou um impeachment, de que o governo trata de se defender comprando o apoio do Centrão e de parlamentares individualmente. Uma rebelião popular parece descartada, seja pela falta de mobilização popular necessária, seja pela falta de uma proposta estratégica nessa direção, seja pela relação de forças militares absolutamente desfavoráveis ao campo popular.

Mas, ainda assim, este governo pode se desagregar, pelo abandono dos que o apoiam, por distintas razões? 

O primeiro dos eixos de apoio que pode chegar a abandonar o governo, mesmo com as distintas vantagens concretas que recebe, é o Centrão e outros setores de apoio no Congresso. Eles se dão conta que, sobrevivendo do apoio eleitoral, ter os nomes dos seus mandatos vinculados a um governo cada vez mais impopular e que não defende as necessidades da grande maioria da população pode não lhes convir mais, porque coloca em risco seus mandatos. Bastou uma primeira ofensiva do  Lula para eles se darem conta de que há vida política depois do governo Bolsonaro, para perceberem que pode valer a pena se distanciar deste governo.

Os militares podem, diante de uma situação de debandada generalizada do apoio político do governo, se darem conta do desgaste que significa para as FFAA manterem a sustentação de um governo tão degradado e cada vez mais isolado, pode ser gravíssimo para o futuro da instituição e se colocarem a possibilidade de abandonar seus cargos – sobretudo os cargos palacianos.

Se for configurando uma situação como essa, de debandada geral do governo, temos, com todas as precauções, que sair às ruas, para terminar de constituir o cenário para o impeachment. Para desfechar o golpe fatal nesse governo miserável que ainda sobrevive no Brasil.

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