O ideal militar é um Brasil sem brasileiros

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Os militares não nos salvaram. Se acreditamos nisso, então é o resultado de que eles, ao contrário, nos perderam de vez. Vivemos um governo militar. As destruições econômica, moral, sanitária, educacional e ambiental são obras militares. As brigas dentro das famílias, entre vizinhos e nos grupos do whatsapp são, em certa medida, prova do sucesso do pensamento militar. Outros podem fazer melhor o trabalho de rastrear como conseguiram espalhar seu ódio por toda a sociedade. Por ora, tentemos compreender melhor sua perspectiva e o que os move.

Militares criam governos autoritários. Essa obviedade, contudo, esconde algo. Por que a ditadura militar (não a chamarei civil-militar, acho que é um despropósito, como chamá-la de norteamericana-civil-cristã-midiática-jurídica-militar - não cabe em sua nomenclatura sua base de apoio, e sim quem, com braço forte e mão amiga, a tornou possível pelo poder das armas); por que a ditadura militar fez um governo que, ao mesmo tempo, modernizou parte da economia e criou o “homem-gabiru”, o adulto de 1,40m de altura (resultado da subnutrição), ampliou favelas e fez explodir a desigualdade social?

Deixar o bolo crescer para depois dividir, diria Delfim Neto. Mas a explicação é, ao mesmo tempo, mais simples e mais profunda.

A contradição dos militares é resultado de sua visão de mundo distorcida e confusa. O anticomunismo das casernas é uma patologia mental transformada em instituição de Estado. A explicação é, como disse, simples. O pensamento militar é racista. Por isso - e, claro, também por sua proximidade do fuzil - nossos homens armados são autoritários.

O racismo militar não é ainda o racismo da falsa homogeneidade brasileira - índios, negros e brancos todos juntos - com alguns mais indolentes e preguiçosos que os outros. O racismo militar é anterior a isso. Foi chamado a intervir no cerne do racismo brasileiro, a escravidão, e sua forma é indissociável do preconceito racial e de classe: mesmo antes, Duque de Caxias, o Pacificador, mandava tropas negras se matarem, mesmo com a guerra finda, tendo antes combinado com o líder farroupilha, no que ficou conhecido como o Massacre de Porongos.

O racismo militar é, portanto, caudatário do racismo que deforma e compõe a sociedade brasileira. Ao apreendê-lo, no entanto, ampliou-o em uma clivagem corporativa com consequências políticas profundas. O racismo militar funda-se no fato de que os homens de armas se sentem superiores ao povo que juram defender (deixemos de fora aqueles que, nos quartéis, se veem como aliados do povo, ainda que separados dele). São supremacistas verdes, por assim dizer. Odeiam os civis. Nos veem como inferiores moralmente, corruptos, preguiçosos, incapazes de sacrifício, pobres coitados e ineptos. Desse racismo - como não poderia deixar de ser - se desdobra uma miríade de contradições.

Podemos dizer que o racismo é o idealismo pervertido, o ideal oco, sem substância, mercadorizado. O idealismo como commodity, a culminância fascista do capitalismo que se recusa a morrer. Resta do ideal apenas o sentimento embriagante de superioridade daquele que o expressa e sente. O ideal é eviscerado, até restar apenas seu córtex seco - a busca pela verdade dá lugar ao exclusivismo, uma verdade vazia que só pode se manifestar negativamente, de modo fático, ao apontar o dedo para o inimigo. A supremacia é a forma mais espalhafatosa do vazio.

Os militares sentem-se superiores; são rápidos em apontar inimigos; amam idealmente um país que querem vazio, sem civis, e por isso foram capazes de avançar a economia nominalmente e torturar seu povo com choque elétrico e fome.

Sua supremacia é-lhes evidente. Assim, conseguem a maior contradição de todas: são nacionalistas e patriotas e odeiam o povo que constitui essa nação. Amam a ideia de Brasil, odeiam o Brasil real. Do preconceito racial escalaram e se arvoraram em um preconceito absoluto, exclusivista. Foram portanto capazes de criar o milagre econômico concomitante à miséria - uma ideia de país em conflito com sua gente. E nós, como paisanos, fomos tão historicamente surrados por nossas forças policiais e militares que acabamos internalizando seu desprezo: o tal complexo de vira-latas. Por tais razões, os militares conseguem a proeza de serem ao mesmo tempo - e sem contradições para si mesmos - nacionalistas e americanófilos, desde a Escola Superior de Guerra e o golpe do Marechal Dutra.

De seu sentimento de supremacia, de seu racismo fundante, desce a violência do alto hierárquico do país como rizomas, como lentos relâmpagos que brilham nos morros, no escuro, atiçando os trovões mecânicos dos gatilhos. A violência desce o morro do generalato, escorre das Agulhas Negras ao restante do país - seja em GLOs, Garantias da Lei e da Ordem, com um músico fuzilado e crianças caindo como pedras dos colos de seus pais, seja na guerra às drogas, seja na violência do seu vizinho, que com a guerra civil brilhando no fundo dos olhos diz que o Brasil está corrompido, que tem que “mudar tudo isso que está aí”.

Mobilizar as forças do ideal para mover o braço do cassetete - essa a fórmula. O racismo contra todos os brasileiros, particularmente mais visceral contra pretos, pobres e indígenas. O que une Vilas-Bôas, Heleno, Olavo de Carvalho, Ernesto Araujo, a família Bolsonaro, senão esse idealismo do ódio, esse anseio por uma perfeição postiça que justifica a violência hoje? Alguém pode se espantar: desprezam negros, russos, índios, mulheres, petistas, gays, japoneses, comunistas, pobres, chineses, lavajatistas - a lista parece não ter fim. Como são capazes? Sim, é uma pergunta assombrosa: como conseguem, como são capazes de tal amplidão de ódio em mentes que, sabemos, são limitadas em escopo como que por viseiras?

Seu ideal é um só; seu ódio, múltiplo. Seu ideal é um ideal negativo: o que quero não existe, é quase inarticulável. Tudo o que existe, portanto, está apto a receber minha violência. O ideal castrense é o ódio concreto ao brasileiro e a adoração abstrata pelo Brasil.

Quando ouvi de uma senhora, à porta de um posto de saúde do SUS, gritar com um motoqueiro por haver estacionado atrás de seu veículo, e dizer “Tinha que ser brasileiro, mesmo”, ali compreendi que ela já havia se aliciado, se alistado ao exército imaginário, que desce do Ministério da Defesa até a AMAN, desliza pelos quartéis e pelo Cidade Alerta, se ramifica no Jornal Nacional e no culto religioso, até a casa das pessoas, em uma tempestade de racismo e violência.

Ame-o ou deixe-o como expressão máxima do racismo fundante: a política no Brasil resumida à escravidão por outros meios, com sua separação entre gente e não-gente se tornando absoluta. Aquela senhora já não era brasileira. Era, portanto, um membro “laico” do nosso exército. O exército - e não Bolsonaro - conseguiu aliciar um terço de nossa população. A única forma de provarem ao generalato que são de fato fiéis, que não são apenas o povo, os civis, o desprezível, o brasileiro, é se sacrificando. Como nos movimentos nazistas e fascistas europeus, o corolário, a resolução das contradições do racismo se encontra, por fim, no gesto de suicídio. Há um momento, infelizmente tardio, em que o racista convicto compreende que seu único gesto consequente é um tiro na própria cabeça. Matam todos a seu redor, antes de perceberem que seu ódio, na verdade, era mais econômico, mais simples.

Assim estamos. Um país destruído pelas forças militares, a meio caminho do suicídio coletivo. E os generais - seja o “ponderado” vice-presidente ou o Ferreira Goulart invertido e sem talento - dançam em suas cadeiras, planejando a preservação da Amazônia pelo fogo, a segurança democrática pelo golpe, o desaparelhamento do Estado pela multidão de oficiais loteada em cargos públicos, a pujança econômica pelo garimpo ilegal, a paz pela tortura,  a guerra às drogas pela cocaína no avião presidencial, a segurança pela importação de metralhadoras, nas paróquias dos clubes-de-tiro, a série interminável de suas contradições emanando da contradição inicial, de seu ódio amplo, nacional e irrestrito. Quem dirige a nação e espalha pelos civis seu modus operandi, hoje, são figuras de pesadelo.

Os militares estão destruindo o Brasil. Como, aliás, já fizeram antes. Seu ódio ao outro está se tornando a espinha dorsal do país. Pelo bem de todos e da instituição Forças Armadas, essa guerra operada por generais precisa ser interrompida. São terroristas geopolíticos. O Brasil, cuja representação social no mundo todo é a de um país alegre e carnavalesco, já se tornou uma nação furiosa. O jogo de guerra da alta cúpula do exército conseguiu projetar ao mundo aquilo que eles veem como seu próprio povo: uma nação doente, insana, incapaz, servil e inconsequente. Uma nação, em suma, marginal.

O propósito dessa geração de generais que se confunde hoje com a instituição (graças a seu poder de capilaridade ao mesmo tempo em que se mantém monolítica pela hierarquia), o propósito é um Brasil sem brasileiros. Sem civis. O homem e a mulher comuns devem ter discursos bélicos, devem assemelhar-se aos militares, devem invadir hospitais com câmeras, gritar com atendentes de fast food e xingar o comunismo nas redes sociais. As crianças devem policiar seus professores. Só então realizarão seu sonho, empoderados por cargos bem remunerados: o de um país puro, ideal, sem o povo que corrompe seu país de papel.

O exército - mais do que o restante das FFAA - na figura de seu alto comando, está transformando o país em uma caricatura de seu ódio, já em si caricatural. O segredo, daqui em diante, é como fazê-los parar sem conseguir aquilo que eles próprios parecem desejar: uma guerra civil, o ódio de todos contra todos, o pretexto para o golpe. Estamos em guerra. E, como estamos no Brasil, trata-se de uma guerra por e contra o racismo, uma luta por e contra o ódio praticado em grupo. Entender o que ocorre, por todos os meios disponíveis, é um primeiro passo. Nosso desafio é imenso, e toca no nervo em que se cruzam futuro, presente e história.

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