O Ignorante Feliz

O Bolsonaro e o Moro não fazem merda porque sejam más pessoas, eles fazem acreditando que estão agradando e com a convicção de que agem de boa fé no interesse do povo. Não se trata de um complô maquiavélico premeditado, se trata da união entre a ignorância e a soberba do poder

Jair Bolsonaro e Sergio Moro
Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Como muitas coisas na vida, existem alguns tipos de ignorantes. Um deles é o que reconhece a sua ignorância e busca se informar, ou cercar-se de quem pode suprir o conhecimento que necessita. O outro tipo, o que mais me assusta, é aquele que não obstante a sua ignorância, ele acha que nada lhe faz falta.

Ninguém é ignorante em tudo. O ser humano tem suas limitações normais sobre o conhecimento, até porque temos assuntos que nos interessam mais, outros menos, e até alguns que nada nos interessa saber. 

Ao longo da vida vamos nos defrontando com ignorantes. No trabalho, por exemplo, as vezes temos um chefe que sabe menos do que nós e somos obrigados a aturar isso. Na saúde, uma boa razão para se procurar uma segunda opinião, é porque até mesmo médicos eventualmente fazem diagnósticos equivocados, não raro, por ignorância. Ninguém vai passar pela Terra sem se defrontar com ignorantes.

Tomara todo ignorante ficasse no seu lugar e não tivesse em mãos poderes que são incapazes de lidar. Imaginem um médico recém-formado realizando uma cirurgia de alto risco sem nenhum acompanhamento. Um recém-formado engenheiro construindo uma Usina Atômica. Sim, sempre podem existir exceções, mas deu para entender o que eu quero dizer.

O que está acontecendo com o nosso presidente e o seu ministério de notáveis ignorantes em geral, e o seu ministro da justiça, em especial, é o pior dos cenários. Todos ali acham que não precisam de nenhuma assessoria porque sabem tudo sobre tudo. São de dar vergonha a uma enciclopédia.

O Bolsonaro e o Moro não fazem merda porque sejam más pessoas, eles fazem acreditando que estão agradando e com a convicção de que agem de boa fé no interesse do povo. Não se trata de um complô maquiavélico premeditado, se trata da união entre a ignorância e a soberba do poder.

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, sabe que não devemos ser mal-educados e que as piadinhas maldosas devem ser contadas em fóruns íntimos ou desprezadas de vez. Ninguém deve fazer bullying com outra pessoa, uma regra básica da boa convivência. Temos um presidente que por pura ignorância, ignora todas estas regras. Não vê mal algum em chamar os nordestinos de “paraíbas”. De visitar um museu judaico em memória dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas e dizer na saída que devemos perdoá-los.

Quando Moro diz que não existe nada nos seus comentários com os procuradores que seja comprometedor, ele não está sendo cínico, ele está dizendo o que realmente sente. Do alto da sua ignorância ele é incapaz de reconhecer que tenha agido de má fé. Ter ajudado a acusação no processo que julgou não tem nada de mais. Adentrar em uma investigação que corre em segredo de justiça, avisar as pessoas que supostamente tiveram sido importunadas e dizer a elas que não se preocupem, todas as provas serão destruídas, é perfeitamente normal.

Bolsonaro, Moro e o resto dos ministros deste governo são o expoente do pior pesadelo que o Brasil já teve na sua história republicana. Parecem aquele cara que só terminou o primário, conseguiu entrar na academia de polícia, vestiu o uniforme e na rua vai peitando todo mundo que encontra pela frente. O cara é polícia e sempre tem razão. Quando não tem, ele vai plantar uma prova que parecer que tinha. E na boa, ele acha que está agindo corretamente.

Eu quero confessar que de informática me encontro entre aqueles que têm algum conhecimento um pouco acima do básico. Leio bastante, tenho interesse, mas não domino linguagem de computador. Por isso, para falar do Hacker de Araraquara, só posso argumentar até onde a razão me permite.

Em Israel existe uma empresa chamada NCO que ficou conhecida mundialmente, no ano passado, depois que o seu programa de clonagem de celulares, chamado Pegasus, foi utilizado pela Arábia Saudita para atrair o jornalista Jamal Khashoggi para sua embaixada na Turquia, onde foi morto e feito em pedacinhos, literalmente. 

O custo deste programa chega a centenas de milhares de dólares. Normalmente é vendido somente para órgãos de segurança governamentais e, segundo dizem, vale cada dólar investido. Agora temos de aceitar que a empresa vai quebrar, já que um Hacker brasileiro consegue a mesma proeza com a maior facilidade.

Para um órgão governamental obter o número do celular de alguém, não é uma tarefa muito difícil, legal ou ilegalmente. Mas para um indivíduo como nós, a história é outra. A não ser que o celular do Moro fosse de domínio público e pudesse ser encontrado em qualquer site ou mídia social, a pergunta inicial é como o Hacker de Araraquara conseguiu o seu número?

Para acessar o celular, estão informando de que se pode obter nas lojas do Google e da Apple um aplicativo que assume qualquer número de celular que desejarmos. Assim, foi possível “colocar” o mesmo número do celular do Moro no aparelho do Hacker. Fácil assim, se for procedente.

Agora bastaria baixar o Telegram no aparelho que o aplicativo puxaria o número indicado pelo outro aplicativo, neste caso o do Moro e enviaria uma senha para o celular original. Como não se trata de um clone, a senha chega no celular dele e é preciso obtê-la. Para isso, pede-se ao Telegram que também envie a senha por voz. Usa-se um outro aparelho para fazer a ligação e torcer para que seja atendida pela caixa-postal, se existir uma. A ligação do Telegram também vai cair na caixa postal. A seguir, uma ligação através do aparelho que está com o número do Moro faz a ligação para o celular original dele. Por se tratar do mesmo número, ele consegue entrar na caixa postal, e escutar a senha enviada. Com ela ele completa a instalação. Finalmente ele tem acesso ao Telegram do Moro. 

Vamos admitir que tenha conseguido, mas o Telegram já estava desativado desde 2017, e segundo o que é informado pelo aplicativo, todo o seu conteúdo é perdido para sempre e não pode ser recuperado. Informam também que se o usuário não utilizar o programa por seis meses, a mesma coisa acontece.

Talvez eu esteja duvidando dos méritos e da capacidade tecnológica do Hacker de Araraquara. Talvez eu esteja sendo muito cético com relação a dificuldade de se obter o número dele. Posso estar exagerando com relação a existência de um aplicativo nas lojas que permite o celular se passar por outro número escolhido por mim. Admito que acredito nas informações dadas pelo Telegram de que ele não guarda o passado de quem o desinstala. Estou de fato tendo muitas dúvidas com relação a forma banal com que ele obteve todo o material.

Na minha humilde ignorância sobre esta incrível proeza tupiniquim, se confirmada como verdadeira, só posso dizer que preciso aprender muito para chegar aos pés do tal Vermelho do DEM, o Hacker de Araraquara que me fez rever meus conceitos sobre o ET de Varginha. 

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