O incômodo grito de Greta

Greta Thunberg, a menina sueca de 16 anos, ativista da emergência climática, virou o principal alvo de ataque da direita. Nada estranho para um planeta reto. Tudo dentro da normalidade

Greta Thunberg, a menina sueca de 16 anos, ativista da emergência climática, virou o principal alvo de ataque da direita. Nada estranho para um planeta reto. Tudo dentro da normalidade.

Atitude previsível de quem não tem qualificação cognitiva e humana de entender o “lute como uma garota”, e ainda autista, e ainda de 16 anos, e ainda por uma causa de sobrevivência da humanidade e não de sua boneca de pano com olhos de botão.

Atitude previsível de quem tem mais concentração de neurônios e poder na massa muscular do que na massa encefálica.

Atitude previsível porque Greta não é, aos 16 anos, um menino de ouro prodígio do futebol mundial. Não. Greta não é um menino fenômeno. Greta não é normal.

Atitude previsível porque Greta, aos 16 anos não é o grito sob as luzes do palco de qualquer The Voice Americano pasteurizado. Não. Greta não é um canto agudo frente às cortinas que se abrem pra impressionar teatros e platéias fechadas. Greta é a voz grave e aberta de 16 anos que impressiona o planeta em nome da atmosfera e da sobrevivência. Assim, Greta não é normal.

Atitude previsível de quem empacota, padroniza, plastifica e engessa valores do que se espera para uma idade.

Atitude previsível de quem enxerga seus filhos adolescentes como pequenos e medidos à régua, de até 30 cm.

Atitude previsível de quem não acredita que jovens podem ser protagonistas de uma explosão de movimentos de massa transformadora em nome do colapso do mundo e de seu ecossistema.
Mais fácil, compará-la a personagem de Linda Blair em O Exorcista.

Mais fácil chamá-la de histérica, mal amada, doente e associá-la a personagens de fantoches e marionetes, facilmente manobrados por pais e acondicionados num mundo sem razões, com gosto de molho pomarola e embrulhado a vácuo.

Greta vai na contramão do grito da direita pequena que a rechaça, que habita num reduto de si mesma e que respira num vilarejo do aqui e agora e do curto prazo.

Greta não é normal.

Normal são adolescentes educados pra defenderem seus direitos de irem à Disneylândia e não seus direitos ambientais.

Normal são crianças supridas prontamente com as internets mais rápidas do mundo e seus salvadores e invencíveis jogos de combate, ação, extermínio e banalização do contato com a pele do mundo.

Normal são crianças se enxergarem Barbies e Kens.

Não, Greta não é normal.

Muita consciência aos 16 anos incomoda, principalmente a àqueles que limitam o crescimento humano e existencial de seus filhos com fita métrica e os enquadram no sistema capitalista de existirem e serem felizes no mundo, a qualquer preço.

Que Greta possa jogar fora as réguas de 30 cm que se limitam a medir o potencial transformador das novas gerações.

Não precisamos de apenas uma luta perfeita e consciente de uma garota de tranças. Precisamos de lutas imperfeitas de todos, dentro de casa, agora, pra ontem!

Nos faça lutar como uma garota Greta!

Grita Greta, grita! Porque você não é normal!

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