O isolamento não social do presidente

É Bolsonaro que se isola, progressivamente, pois movimenta só com viés ideológico e em atendimento aos interesses do mercado

(Foto: Isac Nobrega - PR)

*Publicado originalmente no Pensar Piauí

Na linha da reação dos governadores de São Paulo e Goiás, João Dória e Ronaldo Caiado, respectivamente, 27 governantes estaduais se reuniram e 25 deles decidiram que não irão seguir o discurso tresloucado do presidente Jair Bolsonaro, em cadeia nacional de rádio e TV. Eles preferiram manter as providências tomadas em consonância com o direcionamento científico da Organização Mundial da Saúde (OMS), respaldada nas conclusões de especialistas médicos internacionais, portanto, da ciência.

Boa parte desses governadores são aliados ou ex-aliados de Bolsonaro, e mesmo assim foram unânimes em desconsiderar as palavras vazias e irresponsáveis do presidente da República, no sentido de instalar o chamado estado de isolamento social vertical e não horizontal. É preciso lembrar que o isolamento vertical, determinado pelo presidente, significa retomar as aulas nas escolas, públicas e privadas, e instituições de ensino superior, e encerrar a “quarentena”, fazendo com que os trabalhadores voltem ao trabalho, normalmente.

Segundo Bolsonaro, uma “gripezinha” ou “resfriadozinho”, em referência à COVID-19, pandemia que já matou mais de duas dezenas de milhares de pessoas, em todo o planeta, não é motivo para a quarentena horizontal, que prevê o fechamento das aulas e do comércio, com exceção dos serviços essenciais. Emblemática foi, portanto, a atitude de humilhar João Dória, em resposta ao protesto do governador paulista, contra seu pronunciamento em cadeia nacional, sinalizando se colocar contra todos os governadores, neste episódio.

Conflito e ódio

Desde que assumiu seu cargo, o presidente tem buscado o conflito e ódio como instrumento político e de exercício do poder, insuflando sua militância, através das redes sociais, turbinada com dinheiro público e a máquina administrativa, representada pelo tal “gabinete do ódio”, instalado no 3º andar do Palácio do Planalto. Comprou briga com todos, não só da oposição. Dentro de seu próprio governo, aqueles que discordaram desse método, foram demitidos, caluniados e massacrados por seus filhos ensimesmados e ciumentos.

Colocou-se contra o Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF), convocando manifestações em nome do fechamento dos demais poderes, consequentemente, da implantação de um golpe – ou autogolpe – para implantar uma pretensa ditadura bolsonarista. E agora, diante do caos instalado pelo coronavírus, fustigou os governadores, que nada mais fizeram do que tomar medidas responsáveis e necessárias, para evitar o contágio e o maior número possível de mortos e doentes em estado grave nos hospitais.

Preferiu desconsiderar que os gestores estaduais agem sob recomendação do ministro da Saúde, que se destacou no início da crise, mas agora está desmoralizado, com discurso dúbio, entre o que fez e declarou, sintonizado com as trágicas evidências da pandemia em todo o mundo. Enfraquecido, Luiz Henrique Mandetta ora corrobora com as palavras de seu chefe, ora mantém a orientação de isolamento social. Mas é Bolsonaro que se isola, progressivamente, pois movimenta só com viés ideológico e em atendimento aos interesses do mercado.

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