O jogo do PSDB

"Alckmin vai consolidando sua segunda candidatura à presidência e emergindo como a única opção responsável de direita. Com amplo apoio partidário dos piores partidos e elementos da política brasileira, o 'Santo' vai com uma estratégia bem definida para a campanha: posar de candidato de centro, equilibrado e conservador", diz o colunista Gustavo Castañon; "Vai jogar o debate para o campo comportamental, onde se apresentará como defensor da família brasileira contra a 'ideologia de gênero' e sinalizar para o fim das reformas ultraliberais"

Alckmin durante reunião de governadores no Palácio do Planalto 22/11/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino
Alckmin durante reunião de governadores no Palácio do Planalto 22/11/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino (Foto: Gustavo Castañon)
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Depois do colapso do golpe e da ruína de seus principais nomes – todos envolvidos na Lava Jato e no governo federal mais impopular, corrupto e desastroso da história do país – parecia que a polarização PSDB X PT na política brasileira estava enterrada e que as próximas eleições estariam destinadas a uma grande mudança no cenário político.

Surpreendentemente, os últimos movimentos parecem configurar um eterno retorno do mesmo no Brasil.

Se houver eleições presidenciais.

O PSDB, laboriosamente, está conseguindo executar a mesma estratégia dos últimos vinte anos que, diga-se de passagem, foi derrotada nas últimas quatro eleições.

Eles estão inviabilizando as candidaturas alternativas de direita uma a uma e forçando a reedição da polarização PSDB X PT. À essa altura uma candidatura do PMDB parece enterrada, assim como a de Meirelles, Caiado, Huck e Joaquim Barbosa.

Sérgio Moro já nem apareceu no último Datafolha. Uma pesquisa de segundo turno entre ele e Lula mostraria a derrota da narrativa da lava-jato no país. Com o padrinho e sócio da esposa denunciado por Tacla Duran com evidências documentais, o novo ex-herói da direita deve sumir do cenário. Acabou a ilusão de um candidato do judiciário saído da cartola.

Alckmin então vai consolidando sua segunda candidatura à presidência e emergindo como a única opção responsável de direita. Com amplo apoio partidário dos piores partidos e elementos da política brasileira, o “Santo” vai com uma estratégia bem definida para a campanha: posar de candidato de centro, equilibrado e conservador.

Vai jogar o debate para o campo comportamental, onde se apresentará como defensor da família brasileira contra a “ideologia de gênero” e sinalizar para o fim das reformas ultraliberais.

Os identitários ajudarão a direita na estratégia, como sempre.

Bolsonaro já começa a ser desconstruído, como indica a manchete do Globo de hoje. O processo será homeopático pois o oferecerão a saída de uma candidatura ao governo do Rio de Janeiro. Caso isso não seja possível, os marketeiros de Alckmin estudam agora a forma de massacrá-lo garantindo a herança da maior fatia de suas intenções de voto.

Com a perda do PSB para dar essa aparência de centro (perda que ainda não está consumada), a última jogada de arrumação para a largada de Alckmin pode ser fagocitar Álvaro Dias o oferecendo a vice-presidência.

Já Marina parece que vem por aí pela terceira vez. Ela novamente se posiciona sem posição e sem propostas para tentar disputar o voto de Lula se ele for impedido ou ser o plano B da direita caso Alckmin não decole. 

Cada vez mais queimada com essa postura, Marina se restringe à parte do público evangélico e aos "isentões", que não tem nada a ver com o centro, mas com a direita escondida no politicamente correto.

Deve continuar desidratando numa campanha que promete ser a mais sanguinolenta da história.

Do outro lado da polarização está novamente Lula, figura central das eleições brasileiras desde a primeira eleição da redemocratização. Ao liderar com cerca de 35% as intenções de voto ele deseja a repetição da polarização PT X PSDB.

É tudo o que o PSDB quer, garantindo Alckmin como o anti-Lula enquanto espera o judiciário brasileiro impedi-lo de se candidatar em cima das eleições.

É aí que entraria o que acredito ser o novo plano golpista do tucanato: oferecer um acordo judicial a Lula em troca de ele lançar e colocar no segundo turno um candidato do PT que seria por eles facilmente derrotado.

O plano é bom, dado o estado atual de desespero deles.

Mas faltou combinar com os russos.

Lula pode até cair, mas a esquerda não vai cair nessa.

O PT tentou repetir sua máquina hegemônica trituradora de partidos e candidaturas de esquerda nessa eleição e não conseguiu, mesmo com os 35% de Lula. O PSB não quer mais embarcar na canoa golpista e lançou Aldo. O PCdoB lançou Manuela e o PSOL se arruma para lançar Boulos.

A candidatura de Ciro começa a crescer.

A polarização se rompeu.

Se conseguirem destruir Bolsonaro, é dessa centro-esquerda liberta que virá o candidato que representará o desejo de oposição ao golpe, à agenda escravagista e ao rompimento da polarização que domina há mais de vinte anos a política nacional.

E tem aquele outro detalhe, o povo brasileiro. 

Ele derrotou o PSDB nas últimas quatro eleições, quando, diga-se de passagem, esses últimos estavam bem melhor.

Para o povo brasileiro, segundo pesquisa do próprio PSDB divulgada na Folha, agora eles não vão a lugar algum. 75% dos eleitores acham que eles não têm chance de eleger o próximo presidente e 98% das menções ao partido nas redes sociais são negativas.

Reconhecidos como golpistas, corruptos acima da Lei, aliados de Temer, incompetentes economicamente e inimigos do povo e do trabalhador, os tucanos rumam para seu último voo: um voo de galinha.

 

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