O lobo e o cordeiro

Após analisar os argumentos dos apoiadores de Bolsonaro nesta eleição, notei que há uma estrutura comum do discurso que pode ser ilustrado com a parábola do lobo e do cordeiro

O lobo e o cordeiro
O lobo e o cordeiro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Após analisar os argumentos dos apoiadores de Bolsonaro nesta eleição, notei que há uma estrutura comum do discurso que pode ser ilustrado com a parábola do lobo e do cordeiro.

Quando questionados sobre Fernando Haddad, o padrão do discurso é que nas eleições ele é o lobo na pele do cordeiro. Isso porque estaria mudando o discurso apenas para vencer o pleito a, mas na verdade seu partido desejaria implementar uma ditadura comunista no País, ou transformar o Brasil numa Venezuela. E isso a despeito dos quase 16 anos de governos do PT em que isto nunca ocorreu.  Nesta linha, qualquer movimento de autocrítica que o PT faça, como Haddad já vem fazendo mesmo bem antes de ser candidato, quanto aos erros do governo Dilma, é visto apenas um movimento eleitoreiro. Após a eleição, o lobo que se esconde sob a pele do cordeiro vai se revelar.  

Por outro lado, confrontados com os discursos de Bolsonaro, a postura muda completamente. Ao lembrar-lhes que o candidato que apoiam defendeu a vida toda e segue defendendo, mesmo durante o pleito, a ditadura e a repressão que se iniciou em 1964 no Brasil; que defende a tortura e sua figura mais conhecida e nefasta, o coronel Ustra, a quem inclusive Bolsonaro homenageou no seu discurso na votação do processo de impeachment –  aquele sujeito execrável, responsável pela tortura e morte de centenas de pessoas, que dava choques elétricos e introduzia ratos na vagina de mulheres e  as estuprava, e ainda trazia seus filhos pequenos para presenciar os pais em condições desumanas; que defende assassinar os que pensam de forma diferente, ao dizer que o erro do regime militar foi ter matado pouco (citou inclusive que o ex-presidente FHC deveria ter sido morto pela ditadura); ao citar os seus discursos de ódio contra minorias, nos quais diz que vai acabar com todo tipo de ativismo social; que mulheres devem ganhar menos que homens por engravidarem; que gays deveriam “levar porrada” para se tornarem heterossexuais; que filho dele não se casaria com mulher negra porque foi “bem educado”...  enfim, ao lembrar-lhes da lista interminável de afrontas aos direitos  humanos e declarações preconceituosas e de ódio a minorias que ele disse a vida toda e segue repetindo na campanha, em atos públicos e entrevistas a diversos meios de comunicação, sem demonstrar nenhum pudor ou esboçar qualquer autocrítica, como reage o seu eleitor?

Diante de tudo isso, o eleitor de Bolsonaro diz que, no caso dele, são apenas “brincadeiras”. Ele não vai transformar seus discursos contra minorias em políticas públicas e perseguição, não vai cortar direitos, não vai implantar um governo autoritário. Ele seria apenas “brincalhão”, ou então a constituição vai freá-lo, ele vai governar para todos. Ou seja, o eleitor bolsonarista, que acha que Haddad é o lobo na pele do cordeiro, no caso do seu candidato diz que ele é o cordeiro na pele do lobo. Lobo durante a campanha eleitoral, mas cordeiro quando estiver com a faixa presidencial.

Em primeiro lugar, se o candidato da extrema direita não pretende mesmo materializar estes discursos em políticas ou repressão do Estado, ele deveria avisar seus apoiadores. Porque estes discursos irresponsáveis têm gerado uma onda de violência contra as minorias que ele ataca em seus discursos por todo o País, tendo inclusive resultado na morte do capoeirista Moa do Katendê. E os relatos das vítimas e testemunhas quase invariavelmente contém ameaças por parte dos agressores de que, se Bolsonaro for eleito, eles serão perseguidos. O candidato deveria então se retratar publicamente de todas estas declarações, que têm sido a base para o discurso e as ações de ódio a minorias.

Em segundo lugar – e já considerando aqui a possibilidade, que considero a mais plausível, de que ele não está apenas brincando e daí jamais se retratará – o que traz freios numa democracia, especialmente num arranjo como o nosso, de presidencialismo de coalizão, dada a cena partidária fragmentada, é exatamente a necessidade de compor, fazer alianças, de maneira que existe a tendência de os partidos hegemônicos caminharem para o centro. Os partidos recuam de certos pontos programáticos para atender aos demais partidos da coalizão. Em geral, numa eleição em dois turnos, estas alianças e, portanto, os recuos programáticos, já se dão no segundo turno, quando as candidaturas derrotadas no primeiro começam a unir forças em torno dos dois vencedores.

No caso de Bolsonaro, que contará com ampla maioria parlamentar, especialmente na Câmara dos Deputados, numa eleição em que o centro se esvaziou, a esquerda encolheu, e a direita cresceu surpreendentemente, não parece que haverá freios neste sentido. Ele não precisou fazer qualquer aliança significativa para o segundo turno, segue liderando sem sequer ter necessitado de alianças e de recuos em seu discurso extremista. Sem qualquer necessidade de alianças ou recuos, apresentou um crescimento vertiginoso nas últimas duas semanas que antecederam o primeiro turno (antes disso ele perdia para quase todos os candidatos, ou ficava em empate técnico), crescimento este que agora se sabe ter ocorrido graças a um esquema fraudulento de manipulação em massa de eleitores com uso de “fake news” nas redes sociais e especialmente no whatsapp, pago com caixa 2, recursos financeiros de empresários simpáticos à sua candidatura, que se configura crime eleitoral e que inclusive pode resultar na impugnação da sua chapa pelo TSE.  

Além disso, seu candidato a vice é um militar com tendências claramente autoritárias, que revelou ser favorável ao fim do 13o salário e defendeu fazer uma nova constituição com “notáveis” não eleitos pelo voto popular. Bolsonaro o desautorizou publicamente, gerando um mal-estar na sua campanha, pois ao que parece a hierarquia na chapa eleitoral não tem sido suficiente para manter a hierarquia militar (afinal o vice general parece não ter gostado de ser repreendido publicamente por um mero capitão). Muitos argumentam que ele é apenas um vice, mas não custa lembrar que o vice assumiu o comando em 3 ocasiões desde Tancredo Neves.

Imagine, caro leitor, se todos estes discursos de apoio a tortura, repressão, ditadura, viessem do candidato do PT, e que ainda este se cercasse de militares simpáticos às ideias de esquerda, como Bolsonaro já disse que fará ao dizer que convidará diversos militares para a composição de seu ministério? Se na ausência de tudo isso já existe um discurso de conspiração comunista anacrônico?

Quanto aos temas econômicos, para dar outro exemplo da miopia que se instaurou entre nós, se durante a própria campanha ele desautorizou por diversas vezes o seu potencial ministro da Fazenda, o ultra-liberal Paulo Guedes, qual o fundamento dos analistas do mercado em confiar que ele, uma vez com a caneta na mão, vai mesmo seguir a cartilha liberal contra suas convicções de quase 30 anos de carreira política? Ainda mais com seu viés claramente autoritário?

Com tudo isso, qual o fundamento para se esperar que, uma vez no poder, ele irá recuar dos seus discursos que faz há quase 30 anos? Ou seja, qual o fundamento para se acreditar que o lobo que vemos há quase 30 anos era, na verdade, um cordeiro disfarçado?   

Pior que as teorias conspiratórias e anacrônicas que colocam Haddad como o lobo comunista disfarçado de cordeiro, a expectativa de que o lobo da campanha se transforme no cordeiro quando estiver com a faixa presidencial e com o poder nas mãos, é algo que na melhor das hipóteses poderia ser chamado de uma tremenda ingenuidade.

Aparentemente boa parte da nossa sociedade, em transe ou cega pelo ódio ao PT, não quer notar os esforços de Haddad em buscar a conciliação necessária neste momento de polarização e instabilidade política, mesmo o candidato já sendo um crítico dos erros do governo Dilma muito antes da eleição e estando disposto a ceder em diversos aspectos para mudar o programa inicialmente proposto, visando a construção de uma frente ampla pela democracia. E ao mesmo tempo, parece estar cega ao fato de que Bolsonaro não tem motivos e não vai recuar e se transformar num cordeiro se chegar ao palácio do planalto.

Ainda há tempo para reconhecer que Bolsonaro representa sim um risco enorme à democracia e às conquistas civilizacionais no Brasil, como vários meios de comunicação da imprensa mundial já estão sinalizando, enquanto a maior parte da mídia interna, de forma conivente e irresponsável, segue tratando-o apenas como um candidato “polêmico” ou “excêntrico”.

A democracia brasileira ainda é extremamente jovem, como a Constituição de 1988, e sua instauração custou caro a muitas pessoas que deram sua vida pela liberdade e pelos direitos políticos das gerações seguintes. Nesta eleição, é nossa responsabilidade honrar a memória destes heróis.

#EleNão

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