O macaco de estimação do amigo que pensa que não é racista

"Quando o zagueiro Matheus Thuler, do Flamengo, posta um vídeo nas redes sociais chamando o seu companheiro de time, o atacante Lincoln, de “macaco”, ele verbaliza o pensamento escravagista e a postura superior, que seus antepassados brancos lhe deixaram como herança"

(Foto: Alexandre Vidal / Flamengo)
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Ao longo da história, a escravidão e o preconceito sofrido pela condição de escravizado, sempre foram justificados por argumentos que atribuíam inferioridade aos negros. A própria Igreja Católica durante um período, legitimava a escravidão, alegando que os negros não possuíam alma. Será que Deus estava de acordo com os seus sacerdotes? Tenho certeza de que não.

Chamar um negro de macaco, por exemplo, significava verbalizar o pensamento escravocrata, que entendia que os pretos escravizados estavam um passo atrás na escala da evolução, e, por isso, poderiam ser tratados como animais. Animais não possui os mesmos direitos que os humanos, e, de certa forma, estão submetidos à autoridades destes.  

Quando o zagueiro Matheus Thuler, do Flamengo, posta um vídeo nas redes sociais chamando o seu companheiro de time, o atacante Lincoln, de “macaco”, ele verbaliza o pensamento escravagista e a postura superior, que seus antepassados brancos lhe deixaram como herança. O papo de que tudo não passa de uma brincadeira, o que foi defendido até pelo próprio Lincoln, não se sustenta ao analisarmos a historicidade do uso de tão repugnante adjetivação.

Não, Thuler! Chamar o seu amigo preto de macaco não é brincadeira. É racismo! É inferiorizar um ser humano. É perpetuar estereótipos racistas e de subjugação de uma etnia. É associá-la a limitação de raciocínio. É condicioná-la a uma obediência servil e amestrada. É preservar conceitos que, por séculos, foram responsáveis pela dor e pelo sofrimento de milhões de seres humanos. E não devemos brincar com isto.

Como é de praxe, o autor da injúria ou da “brincadeira” vem a público anexar um pedido de desculpas, à jargões já bastante conhecidos. Coisas do tipo: “Eu não sou racista. Tenho amigos pretos”, “Tenho pretos na família”, “Minha empregada é preta” e outras emendas do gênero, que tornam o soneto cada vez pior. Não estou dizendo que o zagueiro Thuler seja, de fato, um racista. Porém, é importante que ele saiba que agiu como um.

Já o comportamento do atacante Lincoln na história, é bem ao estilo “perfil evolutivo” que a casa grande gosta. Ele definiu a jogada como o Pelé sempre fez. Passou pano pro amigo ignorante e desavisado, que ainda brinca com coisa séria e ganhou a simpatia da branquitude que adora relativizar preconceitos raciais. Golaço que ele deixou de fazer na final do mundial, quando teve em seus pés a chance de empatar a partida nos minutos finais da prorrogação.

O que Lincoln precisa entender, é que um amigo que realmente o respeitasse, não o chamaria de macaco. Nem na intimidade, nem em público. Thuler reproduziu, certamente por não conhecer nada de história, a ideia de desumanização dos negros promovida pelos senhores de engenho. Hoje em dia, chamar um preto de macaco é considerado injúria racial. Logo, a mesma ofensa não pode ser considerada uma brincadeira. Muito menos, entre amigos.

Eu vi alguns comentários, onde eram chamados de “lacradores esquerdistas”, aqueles que reprovaram a “brincadeira” de Thuler. Uma prova de que boa parte da nossa sociedade, ainda enxerga o racismo como algo natural e lúdico. Ainda que Lincoln tenha dito que não se ofendeu, é bom que ele, e outros pretos que possam vir a ser condicionados a aceitarem ofensas como brincadeira, aprendam a fazer dois questionamentos a si mesmo.

Devo me sentir bem, sendo chamado de algo que humilhou a existência, destruiu a autoestima, tirou a dignidade e justificou o tratamento desumano dado aos meus antepassados? Se eu repreender o meu amigo, mostrando para ele que eu não gostei da brincadeira, será que ele vai achar que estou de muito “mi mi mi” e perderei a sua amizade?

Se a sua resposta a estas perguntas for sim, o seu amigo tem razão de chama-lo de macaco. Você precisa evoluir mesmo. Se a sua resposta ao primeiro questionamento for não, e para o segundo for sim, você precisa rever as suas amizades. Um amigo verdadeiro jamais o excluiria do seu círculo de convivência, por você ter demonstrado que não gostou de algo que ele fez ou falou. Se manter o respeito por você, é uma chatice para ele, é melhor você ser amigo de uma onça.

Se a sua resposta às duas perguntas for não, é sinal de que você, antes de mais nada, é amigo de si mesmo. Isso é fundamental. Com expressões historicamente racistas e preconceituosas, não se brinca. Pois existe todo um contexto de desumanidade por trás delas. Nosso ciclo de amizades deveria ser selecionado a partir desses contextos também. Quem relativiza ou brinca com a dor sofrida pelos outros, ignorando que milhares de seres humanos perderam suas vidas por conta de tais “brincadeiras”, não pode ser meu amigo.

Não seja o macaco de estimação do seu amigo que pensa que não é racista. Racismo não é brincadeira!

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