O nababo da bobagem

O autor do "livro" em que Constantino se "baseia" usa elementos do simbolismo cubano para claramente montar uma estorinha que faça sentido para seus leitores

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Final de Copa, reservo-me o direito de escrever sobre assuntos efetivamente sérios com o passar da paixão nacional, por isso comento o artigo mais recente de Rodrigo Constantino, "O nababo do Caribe", onde se dedica a tratar dos assuntos da Guerra Fria (leia aqui).

Neste, Rodrigo usa um tal de Juan Reinaldo Sánchez, que fora segurança do ex-presidente Fidel Castro, para difamar o líder cubano. Sua fonte, um "livro" chamado "A vida secreta de Fidel". O título, ao estilo "Dirceu, a Biografia", já demonstra a vocação tabloideira em busca de vintens e prestígio na ralé dos empregados do rentismo (a quem os próprios patrões pouco levam a sério).

Segundo Constantino, "[Fidel] Mais jovem, ele gostava de curtir seu enorme e luxuoso iate de 90 pés, decorado com madeiras nobres importadas de Angola, cercado de forte aparato de segurança. Frequentava sua linda ilha particular, ao lado de tartarugas e golfinhos". Ou "Adorava pescarias e caçadas submarinas. Se o trabalho o chamasse, havia um helicóptero à sua disposição. Degustava iguarias caras como os presuntos pata negra e seu uísque Chivas Regal. Ainda possui dezenas de casas espalhadas pelo país, com quadra de basquete e cinema particular".

Não precisa de meia declaração para ignorar tais ilações.

Fidel sofreu 500 tentativas de assassinato pela Cia, Cuba possui parte de seu território ocupado pelos EUA (Guantánamo), Edward Snowden e Bradley Manning são provas vivas do mega sistema de espionagem estadunidense contra alvos públicos e privados ao redor do mundo, incluindo BRICS e parceiros do G-7 e OTAN. Uma vida com iates, tartarugas, golfinhos e helicópteros do inimigo número um dos EUA, habitante de uma pequena ilha a poucas milhas de Miami, não passaria incólume e há mais de 50 anos de monitoramento!

O autor do "livro" em que Constantino se "baseia" usa elementos do simbolismo cubano para claramente montar uma estorinha que faça sentido para seus leitores, um refugo ideológico da classe média tradicional que deve ter medo de marcianos, como muitos americanos tinham nos anos 30, que o diga Orson Welles. O autor do "livro" apenas empresta suas credenciais para assinar embaixo da analogia rastaquera feita pela Forbes em 2006: se Fidel é um ditador, é dono de Cuba, se Cuba é um pequeno país paradisíaco, é um resort de Fidel. Intelectualmente cafona, não importando a ideologia de quem lê.

Outras ilações são risíveis.

Por que, afinal, Fidel seria fascinado por Chivas tendo o melhor rum à disposição? Fidel, igualmente, largou o melhor charuto do mundo para dar exemplo à população. Por que este segurança que o tinha por Deus nunca teve crises de consciências durante tantos anos? De que valem a Fidel várias casas espalhadas pela Ilha num país que fez uma reforma urbana radical, pela qual cada um era dono de onde habitava? E, sendo "dono" do país, por que diabos ter casas? Isso tem cara é de quem deslizou em suas condutas e foi devidamente posto para fora de seu posto. Ou, quiçá, trata-se de um chantagista não recompensado. Não por ser ciente dos fatos que narra, mas por outros ligados à gestão da revolução que um segurança acaba sabendo pelas atribuições do ofício ou de relance, na pescaria de conversas de quem protege. Mas existe outra hipótese: Juan Reinaldo Sánchez pode estar enganando Constantino, como os cinco heróis cubanos enganaram os velhacos gusanos de Miami.

Há que se ter bom humor com esta gente, afinal, para falar seriamente não vale nem mais mencionar educação, saúde, vacina contra câncer de pulmão...mas só o fato de Cuba já ser a segunda maior economia do Caribe (perdendo apenas para Porto Rico, país-associado aos EUA) e segundo maior parceiro comercial do Brasil na região, atrás só, por motivos óbvios, do Panamá.

Mariel vai mudar a conjuntura econômica da região em pouco tempo, com novas e melhores oportunidades comerciais para a América Latina como um todo e para que ninguém mais chame as nações ali sediadas de "republiquetas de bananas". O tempo em que progresso no Caribe era regular (ou nacionalizar) a United Fruits acabou e - que bom - com ajuda brasileira. O resto é papo de psicopatas políticos que amam a Humanidade como abstração, mas não suportam o próximo de carne e osso, e cujo fanatismo de seus seguidores impede qualquer análise crítica.

E pensar que o Príncipe dos Sociólogos e seu "moderno" partido social-democrata fazem afagos em gente assim.

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