O nome de Deus em vão

Estava num rolê em São Paulo quando passei pelo Vão do Masp e vi ali uma rapazeada reunida. Deve ser protesto, pensei. E era. Um grupo de cristãos estava ali reunido falando sobre arte moderna, nudismo e pedofilia. Com mil diabos, eu pensei

O nome de Deus em vão
O nome de Deus em vão (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

estava num rolê em São Paulo quando passei pelo Vão do Masp e vi ali uma rapazeada reunida.

deve ser protesto, pensei.

e era.

um grupo de cristãos estava ali reunido falando sobre arte moderna, nudismo e pedofilia.

com mil diabos, eu pensei.

aproximei-me de duas senhoras - a maioria da moçada tinha mais de 50 anos - e perguntei: "as senhoras estão fazendo um ato religioso aqui neste espaço?

e elas responderam em coro: "sim".

eu eu retruquei: "mas... no vão do Masp?"

e elas, em tom desafiador: "sim, por quê?"

"bem", eu disse, um pouco encabulado, "as senhoras me perdoem, mas estão a cometer um pecado."

"como um pecado?", irritou-se a velhinha com a camisa de Bolsonaro.

"por que está escrito, minha boa senhora, não tomarás o nome do senhor, teu Deus, em vão'. e isso aqui é um vão".

elas se entreolharam, confusas.

eu prossegui: "o que vocês estão a defender aqui com esses cartazes estranhos e essas estranhíssimas camisetas?"

a velhinha de cabelo acaju tomou a frente: "a gente está defendendo os valores cristãos e a família tradicional".

e eu sendo didático: "ora, ora, minhas senhoras, mas isso é um oxímoro. valores cristãos e família tradicional não é um paradoxo?"

as velhinhas, em saia justa, pediram ajuda a um senhor que parecia ser o organizador da parada.

"o que o senhor quer?", ele perguntou.

"quero saber que diabos de valores cristãos e família tradicional é essa que vocês defendem".

"o senhor nunca leu a Bíblia", ele me perguntou, desafiadoramente.

"li e reli, por isso a dúvida. deixa eu esclarecer uma coisa ao senhor. Jesus era um solteirão, e assim permaneceu até os 33 anos. na idade dele os cabras já estavam casados e com filhos."

"e o que tem isso?", redarguiu o padre, conçando a cabeça, visivelmente confuso.

"ora, meu senhor. se o senhor defende a família tradicional e mete Cristo no meio disso, o senhor está a mentir para os fiéis. lá no Livro diz que ele não se casou e nem teve filhos, embora já fosse um cabra com barba na cara".

as velhinhas foram se aproximando, curiosas com a refrega que se instalara.

"explica-te, melhor", ordenou-me o reverendo.

eu olhei em volta. além dos cristãos bolsominions, outros curiosos se aproximavam, cabeçeando uns aos outros e se acotovelando, querendo entrar na treta.

eu prossegui, calmo e sereno como um monge:

"a família de Jesus não é exemplo pra ninguém, meu caro cônego. o pai dele era um velhote e mãe era uma adolescente quando engravidou, é o que diz o Livro. como vocês podem ser contra a pedofilia e se esquecem que José era um pedófilo?"

ohhhhh, disseram as velhinhas, horrorizadas.

"José não era o pai dele", gritou um mendigo em frangalhos e com a metade de um cachorro quente na boca.

"pior ainda. que diabos de família tradicional é essa que um velhote se casa e se deita com uma adolescente e ela fica grávida de outro?"

"mas o outro era, nada mais nada menos, que o Divino Espírito Santo, meu filho", interveio uma gordinha com o uniforme das Casas Bahia.

eu segui com a treta: "então temos dois crimes aí: pedofilia e zoofilia, porque esse tal Divino Espírito Santo era um pombo. e isso devia ser uma desculpa de infidelidades parecida com aquela do boto da amazônia, mas adaptada àquelas paragens."

"minha nossa senhora, que absurdo". falou a vendedora de guarda-chuvas, olhando para o céu e pedindo a São Pedro para colaborar com o negócio dela.

nesse momento já se configurava ali uma clara divisão. de um lado, o velhote com uma camisa de manga longa que cobria-lhe o pomo de Adão e as senhorinhas com o uniforme de bolsominion. do outro, eu, o mendigo, um engraxate adolescente, dois maconheiros com mochila nas costas, uma travesti siliconada e uma mulher trans.

"o senhor aí, é homem ou mulher?", indagou o padreco, tentando desviar o assunto.

"que diferença isso faz?", respondeu a travesti, mais perguntando que respondendo.

"tá vendo, é isso o que o senhor defende, e é isso o que condenamos, onde já se viu um homem de vestido?"

o padre disse isso e olhou em volta, esperando a solidariedade das carolas.

elas o ajudaram murmurando: "é isso mesmo, onde já se viu, que pouca vergonha..."

"mas o nosso senhor Jesus Cristo era homem e, mesmo assim, andava metido num vestidão invocado", falou a mulher trans.

e a travesti emendou: "o senhor mesmo é homem e usa vestido sempre que tá na missa."

"eu não uso vestido, uso uma batina. são coisas diferentes."

"dar um nome diferente às coisas não muda a natureza delas, padre", falou um dos maconheiros, enquanto o outro tirava uma Bília da mochila.

"Jesus não gostava desse lance de família, não bróder", disse o outro maconheiro já com a Bíblia na mão e lendo um trecho que ele abriu misteriosamente na página certa:

" tá escrito em Marcos e Mateus que Jesus tava lá reunido com uma moçada quando chegaram sua mãe e seus irmãos: 'olha que tua mãe e teus irmãos te buscam aí fora.— e Jesus respondeu: quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? — e olhando para os que estavam sentados à roda de si: eis aqui, minha mãe e meus irmãos'. ou seja, o cara negou, na cara dura, a família tradiconal dele pra ficar na rua com a rapazeada, foi mais ou menos o que fez esse mendigo aqui".

o mendigo ficou feliz com a comparação. pela primeira vez ele enxergava nobreza na sua pobreza.

por outro lado, houve gritos e ranger de dentes. os cristãos converteram-se em romanos, estavam prontos para atravessarem uma lança pelas costelas dos maconheiros.

enquanto isso, umas velhinhas agrediam verbalmente a travesti que se defendia atacando: "a senhora tá é com inveja, meu amor, porque tá velha e mochibenta."

"um dia você também ficará velha", redarguiu outra velhinha com o cabelo lilás.

"distribua pão aos pobres, padre, a igreja está com as burras cheia", gritou o mendigo insaciável, "ademais, era isso que Jesus fazia."

"Jeus perdoava os ladrões", gritou o batedor de carteira.

"Jesus não tinha igreja", falou um cego de óculos escuros.

"Jesus curava cegos", observou um surdo com headphones nos ouvidos.

"Jesus não curava amputados", disse um cadeirante.

"lembrem-se de Eva e Adão", disse um gay sem teto, enrolado em um cobertor cheio de fuligens, abusando do cacófato. "Deus expulsou os dois filhos de casa, que era o Jardim do Éden, e ainda os dois netos que eram pequenos. foi Deus quem criou os sem teto".

mais gritos, urros e ranger de dentes.

"Deus fez uma pegadinha do Mallandro com Abraão, quando pediu pra ele passar o punhal no pescoço do filho Isaque. e Abraão atendeu, o que mostra que aqueles caras estavam cagando pra família tradicional".

as velhinhas já não sabiam o que dizer, as vozes contra aumentavam e se amplificavam.

o padre suava bicas.

um cuspidor de fogo se aproximou, com uma garrafa de querosene na mão, uns marabales e o bigode chamuscado, ele disse:

"e teve um tal de Jacó, que era um grande mentiroso, que se casou com uma filha de Labão e teve um filho com ela e outro com a escrava dela, e o velho Labão sabia disso. depois, Jacó se casou com a outra filha de Labão, e fez filho nela e na empregada dela. Labão, como um legítimo rufião, alcovitou o genro bígamo das duas filhas, Raquel e Lia."

"meu Deus, essa gente não respeita nem os santos", assustou-se uma transeunte empurrando a bicicleta e ajeitando a bermuda de malha que lhe comia as partes íntimas.

"ora, minha jovem, na Bíblia não tem santo. santo é coisa inventada pela igreja, que é onde não tem santo mesmo", disse o cuspidor de fogo.

"Jacó deu uma surra em um anjo, é o que lemos aqui em Genesis 32:22-30", lembou um dos maconheiros.

como aumentava muito a confusão, os mascarados black blocs foram se aproximando, com os molotovs na mão.

aí chegaram dois PMs de bigode e uma TPM, mandando todo mundo circular.

mas os cristão reagiram: que a polícia tinha que estar ao lado deles.

o mendigo lembrou que Jesus foi um prisioneiro, estar ao lado dos cristãos era estar fora da lei.

os guardas pediram reforço, em pouco tempo aquilo virou um pandemônio.

chegou o pessoal do choque escoltando a moçada da imprensa amiga; drones voavam sobre as nossas cabeças, balas de borracha foram disparadas e tudo ficou envolto a uma nuvem fétida de gás lacrimogêneo, peido e pólvora.

todo mundo apavorado.

o batedor de carteiras aproveitou a situação e voltou a trabalhar.

o mendigo voou pra cima da caixa de mantimentos dos cristãos.

o cuspidor de fogo foi usado como arma pelos black blocs, os maconheiros acenderam um skunk e saíram fora de fininho.

eu os segui.

no dia seguinte a manchete no jornal: protesto contra a pedofilia é interrompido com violência pelos balck blocs e o pessoal da CUT. um dos manifestantes vestia uma camiseta do Lula. Gleice Hoffmann critica os petistas que estavam no protesto e pede desculpas à mídia e à igreja. Guilherme Boulous foi indiciado como incitador da refrega, testemunhas afirmam que havia um sem teto entre os manifestantes.

com mil diabos, eu pensei.

palavra da salvação.

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