O Nordeste e as lições da resistência

O Consórcio Nordeste é mais um exemplo e lição de resistência da região e de seu povo, desta feita através de governo e governadores de esquerda ou de centro esquerda, como outrora também foram exemplos as lutas de Frei Caneca ou de João Carga D’Água, às políticas autoritárias do governo central, seja imperial no século XIX, seja neofascista no século XXI

(Foto: Secom Bahia)

Em sua obra “Crise agrária e luta de classes no Nordeste: 1850-1889”, o historiador Hamilton Mattos Monteiro analisa, sob a ótica marxista, a crise da economia nordestina na segunda metade do século 19 e as transformações sociais e políticas que resultaram num conjunto de revoltas populares que varreram grande parte da região naquela contexto. 

Essa obra, com todas as suas limitações teórico-metodológicas, me serviu de referência para enquadrar o Nordeste na atual situação brasileira. Pois, desde sua campanha presidencial em 2018, e mesmo antes, Jair Bolsonaro já se colocava como um adversário, senão inimigo, da região propagando ódios, estimulando agressões e uma espécie de xenofobia regionalista que se espalhou entre vários grupos pelo Centro-Sul do país, contra o Nordeste e os nordestinos.

A resposta veio na própria eleição: o Nordeste reagiu ao tratamento que recebeu do candidato e impôs-lhe uma humilhante derrota votando em massa no candidato Fernando Haddad (do PT). Não se tratava apenas de uma reação às discriminações que recebeu; mas um reconhecimento aos governos Lula-Dilma (2003-2015), aos investimentos e ao desenvolvimento que marcaram a região no período passado.

Já no governo, o presidente Jair Bolsonaro manteve o tom agressivo em relação ao Nordeste, aos governadores eleitos e aos parlamentares da região, a quem costuma referir-se como “paraíbas”, discriminando-os nos investimentos e políticas públicas federais, além das constantes ofensas, falácias e preconceitos com se dirige aos nordestinos e às suas lideranças políticas e/ou intelectuais.

O Nordeste não se calou, ao contrário! Como em outras fases de nossa história, o “berço da nacionalidade”, a exemplo do que aconteceu no século 19, conforme a descrição de Hamilton Mattos Monteiro, foco da resistência ao absolutismo lusitano que se instalou no Brasil com a instalação da Corte Portuguesa no Brasil, a partir de 1808, o Nordeste vem dando lições de resistência, como o fez nas revoluções de 1817 de 1824 ou nos levantes populares de 1851-52 e de 1874-75.

Outra vez a região dá exemplo de resistência ao arbítrio! Excluídos dos principais programas do governo federal, os governadores nordestinos organizaram o Consórcio Nordeste: um modelo-proposta de ação conjunta para o desenvolvimento da região a partir de projetos e ações, “pra dentro” e “pra fora”, articulando-se para atrair investimentos externos e para aquisição de serviços e equipamentos mais baratos através de negociações coletivas, digamos.

Essa propostas e ações governamentais em nível regional, envolvendo um ou mais estados, às vezes todos, em busca de investimentos visando o desenvolvimento regional comum, vem se tornando uma referência para outras esferas do poder público com tendência a se generalizar como modelo para os municípios da região, que já começam a elaborar estudos nesse sentido.

Em nível municipal, considerando as condições bastantes especificas da região e as dificuldades para seu desenvolvimento, o modelo de “consócio(s) minicipa(is)l” pode(m) vir a ser uma alternativa para a melhoria dos setores mais precários do serviço público, como segurança, saúde e educação, agora desassistidos de políticas federais, e poderá servir de base política e administrativa para um novo modelo de desenvolvimento regional.

Associações, ao estilo consórcio entre cidades de uma sub-região ou microrregião, de um ou, em caso das fronteiras, mais estados, que apresentem problemas comuns, poderão criar consórcios de financiamento e gerenciamento de políticas públicas para melhoria geral dos serviços oferecidos à população, além da redução dos custos tanto para governos como para população.

O Consórcio Nordeste é mais um exemplo e lição de resistência da região e de seu povo, desta feita através de governo e governadores de esquerda ou de centro esquerda, como outrora também foram exemplos as lutas de Frei Caneca ou de João Carga D’Água, às políticas autoritárias do governo central, seja imperial no século XIX, seja neofascista no século XXI.

Resistência, exemplo e lição esse é o Nordeste e seu povo, que “é, antes de tudo, forte”, como já disseram outros!

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