O Ogro e sua sombra mais perigosa

"As mais recentes declarações de Mourão, tanto sobre o meio ambiente como sobre a inexistência de racismo no Brasil, não fazem mais do que ensombrecer este país destroçado. E mostrar seu primarismo", escreve Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia

Mourão e Jair Bolsonaro
Mourão e Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Por Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia - Passado esse tempo todo de pandemia e de isolamento, exausto de ver o país sendo devastado em todos os seus mais ínfimos detalhes, diante da nossa inércia, da nossa impotência, a cada tanto me vem à cabeça mais e mais insone uma possibilidade ínfima: que Rodrigo Maia, na sua condição de presidente da Câmara dos Deputados que a cada dia ajeita seu rechonchudo traseiro sobre pelo menos 50 pedidos de abertura de um processo de impeachment contra Jair Messias, o Ogro aprendiz de genocida, resolva tirar um deles, um só, e levar a votação.

Claro que as possibilidades seriam ínfimas. Além de ter literalmente comprado o chamado Centrão, voltando à tal “velha política” da qual o Ogro jamais deixou de ser um mais que legítimo representante, ele ainda conta com a cumplicidade dos milhares de militares que distribuiu governo afora, todos usufruindo de generosos acréscimos a seus soldos. E isso, para não tornar a falar da omissão dos poltrões assentados nas instâncias máximas da Justiça neste pobre e arrasado país. Mas já que de devaneios se trata, fruto desse isolamento angustiante, digamos que o processo fosse aberto.

O Ogro seria afastado temporariamente, e aí vem o susto maior: assumiria o general da reserva Hamilton Mourão, vice-presidente. E só de pensar nisso perco o pouco sono que ainda me resta.

A estas alturas, as estupidezes que Jair Messias dispara sem cessar já não têm tanto efeito. Tirando seus seguidores mais primatas e fanatizados, ninguém ou quase ninguém leva a sério seus arroubos, suas mentiras deslavadas, suas mostras infinitas de um desequilíbrio irremediável.

Os donos do capital continham ganhando mais e mais, o país continua sendo desmantelado de maneira implacável, nosso isolamento global não faz mais que aumentar. As Forças Armadas continuam aceitando, numa passividade surpreendente, a forma como a cada dia a imagem arduamente reconquistada depois de 21 anos de ditadura é corroída de maneira implacável. 

Digamos, porém, que o tal processo de impeachment fosse aberto. E aí, em vez de um psicopata teríamos na presidência um general coerente, lúcido, articulado, extremamente reacionário (não confundir com conservador), ardoroso seguidor do que de mais abjeto os setores fardados deste pobre país criou.

Defensor dos anos de breu e sangue, admirador do símbolo máximo do horror, o capitão Brilhante Ustra, racista, misógino como o Ogro, porém – reitero – articulado. Sereno, coerente.

E, por isso mesmo, muito mais perigoso: estabeleceria um suposto diálogo com forças aliadas e adversas, para, com menos estardalhaço e mais eficácia, levar adiante o projeto encabeçado pelo Ogro que, incapaz de elaborar o que quer que seja, encarnou por tabela.

Certamente contaria com o apoio dos mesmos setores que bombardearam a política deste país desgraçado até levar à poltrona presidencial a figura mais patética e perigosa da história da República.

As mais recentes declarações de Mourão tanto sobre o meio ambiente, a Amazônia e o Pantanal, como sobre a inexistência de racismo no Brasil – logo ele, que fez menções racistas a si próprio, ao pai e ao neto –, não fazem mais do que ensombrecer este país destroçado. E mostrar seu primarismo.

Sim, sim, pode soar a derrotismo e a resignação diante do inevitável. Asseguro que não: nem derrotado, nem resignado. 

Trato apenas de ser lúcido. Reitero: o vice, comparado com Bolsonaro, que a cada dia menos gente leva a sério, resumido à sua boçalidade, é mais perigoso. Muito mais.

Mourão daria uma lufada de equilíbrio ao próprio reacionarismo extremo. Daria um ar de certa seriedade ao mesmo conteúdo, ao mesmo objetivo que se dissolve na farsa dantesca do Ogro.

Não se discute que Jair Messias deve e precisa ser expelido da poltrona presidencial o quanto antes. O problema é o que – e como – virá depois.

Leio neste domingo um ator global admitir que deu seu “voto pragmático” para Bolsonaro. E em seguida, choramingar.

No meu tempo, esse voto seria estúpido e injustificável. E imperdoável. Agora, é “pragmático”. 

Pois quantos mais, cúmplices todos da barbárie e da vergonha que o Brasil vive, estão arrependidos e choramingando? 

Todos e cada um deles merecem meu asco mais infinito. Desprezo, não: asco.

O conhecimento liberta. Saiba mais

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