O ônibus sequestrado, o surto orquestrado e o genocídio da nossa consciência

Não é difícil surtar diante da morte banalizada, legitimada e glorificada. Principalmente, quando a vida do outro é abatida junto com a nossa consciência. Sorria! Você está sendo surtado

(Foto: Reprodução)

Logo no começo da manhã da última terça-feira, o país parou para acompanhar o sequestro de um ônibus na Ponte Rio-Niterói. A informação que chegava, era de que um homem armado estava mantendo 37 pessoas como reféns e ameaçando incendiar o veículo com gasolina. Alguns telejornais matutinos, que adoram anunciar o evangelho do fim do mundo em suas edições,  fizeram do caso o apocalipse do dia, mantendo o seu padrão escatológico em busca de audiência.  

Após horas de negociação, inclusive, tendo-se buscado contato com a família do sequestrador, na tentativa de acalmá-lo e evitar uma tragédia de maiores proporções, o homem resolve se entregar. Ao descer do ônibus, como podemos ver nas imagens da tevê, ele joga uma mochila no chão e ergue o braço em sinal de rendição. O que parecia ser o desfecho perfeito, para um início de manhã tão terrível, tornou-se ainda mais terrível quando um sniper decidiu abater o homem já rendido.

Após o som dos disparos e da confirmação de que o abate havia sido bem sucedido, ouviram-se aplausos e ovações em comemoração. Mas, que diabos tinha para ser comemorado ali?  A morte, a vida ou a falsa sensação de que a justiça foi feita? Ninguém melhor do que o Governador do estado, para nos responder a esta pergunta. Afinal, ele, tomado por uma euforia débil e inexplicável, desceu no local de helicóptero festejando o término da ação, como quem festeja um gol numa final de copa do mundo.  

Não vou entrar no mérito do crime que o sequestrador, um jovem de apenas 20 anos de idade, sem nenhum antecedente criminal, que trabalhava, que enfrentava problemas de depressão e estava em surto psicótico durante a ação, estava cometendo. É óbvio que o seu comportamento oferecia risco à vida dos passageiros daquele ônibus. O meu questionamento é: Por que atirar em alguém que acabava de se entregar? E por que chamaram a sua família, para ajudar a intermediar as negociações? Para que uma mãe assistisse pessoalmente à execução de um filho?

Eu sei que os meus argumentos não comoverão aos “cidadãos de bem”, que apoiam essa política de segurança genocida e eugênica, implementada pelo governo do Rio de Janeiro, e que tem como padrinho o atual presidente da república. Para eles, vidas que não pensam da mesma forma, não importam. É até bom que morram mesmo. Assim, não atrapalham. Pode ser uma Marielle, um neto do presidente Lula, um quilombola pesando 100 arrobas, um indígena que defende suas reservas, um esquerdista, um comunista, um estudante uniformizado, um morador de favela ou um bandido. A alegria da comemoração é a mesma.

Estamos diante de um surto coletivo de identidade, sugerido pelo sistema e operacionalizado pelos braços que põe em prática os seus projetos. Eles tentarão a todo custo, convencer a sociedade de que matar, é a única solução. É a tal da “limpeza jamais vista”, prometida pelo presidente ainda em campanha. Gente morrendo feito barata, sob o excludente de ilicitude dado a qualquer um que queira “defender” a sua família, sua vida e seus bens. Até que um surto pessoal os faça enxergar uma realidade menos pragmática.

Não é difícil surtar diante do cenário atual do país, onde vemos cristãos comemorando a morte de um ser humano e oferecendo o seu corpo como dízimo, diante do altar de um deus miliciano e justiceiro, que abençoa os seus seguidores com ódio divino. Não é difícil surtar, quando vemos um Governador de estado vibrando com sua política de abate, que não se incomoda de matar crianças inocentes, mirando na cabecinha e pá! Não é difícil surtar, quando vemos o chefe da nação sugerindo que o povo não faça cocô para preservar o ambiente, enquanto ele comanda o desmatamento da Amazônia em nome do progresso.

Não é difícil surtar, quando estamos perdendo direitos, quando começam a nos impor a censura e quando o poder está nas mãos de fascistas violentos, impiedosos e sanguinários. Não é difícil surtar, quando a inércia torna-se inerente às nossas ações e quando nos sentimos impotentes diante de um mundo que vai desabando sobre nossas cabeças, sem que possamos fazer nada para nos defender.

Não é difícil surtar, quando percebemos que estamos todos dentro do mesmo ônibus, sendo mantidos como reféns por um governo sequestrador da nossa existência. Não é difícil surtar diante da morte banalizada, legitimada e glorificada. Principalmente, quando a vida do outro é abatida junto com a nossa consciência.

Sorria! Você está sendo surtado.

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