O pânico e a pane racial de Mr. Catra

Foi lamentável e assustador ouvir de Mr. Catra, a seguinte afirmação: “Na realidade não foi o branco que escravizou o preto. Foi o negro que escravizou o negro e vendeu para o branco e todo mundo sabe disso” Todo mundo quem, cara pálida?

Foi lamentável e assustador ouvir de Mr. Catra, a seguinte afirmação: “Na realidade não foi o branco que escravizou o preto. Foi o negro que escravizou o negro e vendeu para o branco e todo mundo sabe disso” Todo mundo quem, cara pálida?
Foi lamentável e assustador ouvir de Mr. Catra, a seguinte afirmação: “Na realidade não foi o branco que escravizou o preto. Foi o negro que escravizou o negro e vendeu para o branco e todo mundo sabe disso” Todo mundo quem, cara pálida? (Foto: Nêggo Tom)

Uma das definições de pânico, segundo o dicionário, é: aquilo que causa terror, susto, pavor e medo, e foi exatamente assim, tomado fisicamente pelos sentimentos definidos pelos verbetes citados, que fiquei ao ouvir algumas declarações dadas por Mr. Catra, no programa “Pânico no rádio”, da Jovem Pan. Nunca o título de um programa combinou tanto com o que era dita pelo entrevistado. Mais uma vez os temas racismo e cotas raciais foram abordados, mais uma vez quem se dispôs a falar sobre o assunto deixou a desejar e mais uma vez o vídeo viralizou nas redes graças ao MBL. E sempre com a logo do movimento como marca d’água da manipulação. Assista ao vídeo: https://www.facebook.com/mblivre/videos/552869758170505/

Eu demorei a entender a que se propunha o sistema de cotas raciais e também tinha um pé atrás com relação a esse tipo de política afirmativa. Assim como o Catra declarou no programa, eu também cheguei a questionar como poderia ser afirmativa uma política que desqualifica o negro, dando a idéia de que ele é tão inferior intelectualmente, ao ponto de precisar de cotas para entrar em universidades públicas. Depois, analisando melhor os fatos e tendo como referência principal o fator histórico e a trajetória social do negro no Brasil, comecei a entender que as cotas não nos atribuíam inferioridade intelectual, embora pareça que sim, mas visava diminuir a desigualdade social e numérica entre brancos e pretos nas universidades.

Desigualdade essa gerada pelo período em que os pretos foram escravizados e impedidos de terem acesso a mesma educação dos brancos escravocratas e por conseqüência, os seus decentes também foram prejudicados. Após a abolição da escravatura os pretos não tinham para onde ir e não tinha sequer uma alfabetização básica, muito menos uma formação necessária para serem admitidos em algum emprego formal. Sem contar que o colonizador, contrariado por ter que abrir mão de seus escravos, agiu em represaria, e sugeria a todos que lhes fechassem as portas e que lhes fossem negados qualquer tipo de dignidade. Assim, lhes restaram as ruas, os guetos, as favelas e as piores condições de trabalho e sobrevivência. E isso ainda existe nos dias atuais.

Foi lamentável e assustador ouvir de Mr. Catra, a seguinte afirmação: “Na realidade não foi o branco que escravizou o preto. Foi o negro que escravizou o negro e vendeu para o branco e todo mundo sabe disso” Todo mundo quem, cara pálida? Depois dessa afirmação, ele ainda condenou a hipocrisia e a forma escrota (nesses termos mesmo), com que os pretos reclamam de racismo no Brasil e arrematou: “Eu vim escravizado e vendido pelo negro e fui salvo pelo branco. E hoje eu sou Rei” Eu resumiria isso com duas expressões que ele mesmo gosta de usar: “O bagulho é doido. Tá ligado?” Sim, infelizmente eu estou ligado e tenho ouvir coisas desse tipo.

Como diria Simone de Beauvoir: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” A cumplicidade de Catra com o colonizador opressor é um misto de alienação e gratidão. Isso fica claro quando ele diz que foi salvo pelos brancos. Talvez ele estivesse se referindo ao casal branco de classe média alta que o adotou e lhe proporcionou boas condições de vida e de educação. Bacana! Gratidão na vida é tudo! Agora, querer fazer de uma exceção uma via de regra, não é muito honesto e tampouco legítimo. Catra agiu como um preto criado na casa grande. E a minha colocação nesse caso não é apenas metafórica. A sorte que ele teve, graças a Deus, não bateu a porta da maioria. Maioria essa que ele ignora ao repetir o clichê: “Somos todos iguais” e ao se posicionar contra a política de cotas, não levando em conta os fatores históricos que eu já citei anteriormente.

Catra confirmou a tese de que, se expressar com inteligência, nem sempre está condicionado ao grau de instrução da pessoa e ao seu meio social de formação. Mesmo falando 3 ou 4 idiomas, ele não conseguiu falar o idioma da empatia. Não foi capaz de se colocar no lugar de muitos que não tiveram a mesma oportunidade que ele e repetiu de forma genérica o discurso hipócrita da meritocracia dos golpistas. Mais uma vez a leitura que é feita por quem tem interesse que ela seja feita dessa forma, é: Se um preto bem sucedido está falando isso, os que ficam de “mi mi mi” são preguiçosos, incompetentes e não tem capacidade pra chegar onde ele chegou. Sabemos que ingênuo ele não é. Burro muito menos. Mas a situação na qual ele se encontra é mais favorável e isso às vezes tira de algu mas pessoas a capacidade ou até mesmo a vontade, de enxergar a dificuldade do outro.

O problema não é saber lidar com uma opinião contrária a nossa. O problema é a informação distorcida chegar aos seus destinatários como uma opinião formada, vinda de alguém com relevância na mídia e que por isso, supostamente tem autoridade para falar do assunto. A minha pergunta é: ainda que os pretos tivessem sido vendidos por outros pretos para os brancos, isso tornaria legítima a escravidão? Todo o horror e crueldade sofridos pelos pretos escravizados se justificariam? E como os brancos escravocratas salvaram os negros? Negando-lhes o acesso a educação, a dignidade e a uma forma humana de sobreviverem? Impondo-lhes um julgo racial inferior que ainda perdura até os dias de hoje? Alegando que os pretos não possuíam alma e por isso o castigo e os açoites a eles imputados não poderiam ser considerados desumanos?

Diga-me, Mr. Catra, como os brancos colonizadores salvaram os pretos? Vendendo-os como animais de pura raça ou qualquer mercadoria nos anúncios de jornais da época? Oferecendo recompensa a quem capturasse um preto rebelde que havia fugido do rigor do açoite? Negando-lhes o direito a liberdade ou vendendo aos pretos a preço de ouro, uma liberdade que eles mesmos haviam lhes roubado? Gerando a desigualdade social, racial e humana que vemos hoje? Violentando sexualmente as mulheres pretas escravizadas e lhes dando de presentes filhos mestiços e renegados como bastardos? Inferiorizando a sua cultura e os proibindo de ter acesso a cultura dos brancos?

Que salvação é essa que dizimou milhares de vidas, cujos corpos foram lançados ao mar de dentro dos navios negreiros, deixando um rastro de sangue interminável na nossa história? Será que colocaram alguma substância proibida na sua água durante essa entrevista ou você simplesmente faltou às aulas de história mesmo? O que você define como salvação? O que é ser um rei pra você? Os pretos não salvos querem saber.

Tá ligado?

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