O passado quer voltar....

É preciso que a juventude que nasceu na primeira década longe da extrema pobreza histórica entenda que nós, jovens da década de 90, passamos fome. Um dia surgiu o Bolsa Família. O modelo mudou completamente

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Há catorze anos aconteceu uma das cenas mais constrangedoras de minha vida. Ia acontecer uma festinha na escola, no interior do Litoral Sul da Bahia, onde morava, mas eu não tinha condições de comparecer. É que, para ir, seria necessário levar um prato típico. Devia ser algum evento das famosas festas juninas do Nordeste. Minha mãe não tinha condições de fazer nada. Vivíamos sob ajuda dos outros, da caridade da igreja.

Aquela cena pode não parecer constrangedora para uma pessoa que não reflita a história do Brasil. A mim aquilo marcou muito. Eu prometi para mim mesmo que algum dia aquilo iria mudar. Há mais de doze anos o Brasil vivia na era FHC, governo que teve como líder Aécio Neves. Meus pais eram trabalhadores rurais da lavoura cacaueira e minha região o estopim do declínio da monocultura do cacau. Não havia programas sociais, mas desde aquela época eu pensava em estudar, fazer faculdade, crescer e ser reconhecido. Nunca pensei em enriquecer, por mais bonito que a televisão fizesse um rico parecer. Nossa televisão era aquela velhinha, cedida por alguém que eu não lembro.

Ainda durante o governo FHC surgiu o Bolsa escola. Aliado a demais programas compensatórios e clientelistas dos municípios, o bolsa escola se tornou mais um. O dinheiro caía na conta dos municípios e as famílias tinham que fazer uma fila imensa para buscar, sabendo, muitas vezes, à boca pequena como se diz no interior da Bahia, do dia de pagamento através da transmissão oral de informações em Banco Central, distrito da zona rural de Ilhéus, no Sul da Bahia. Quase nunca caía esse Bolsa escola e, quando caía, vinha sempre pela metade. Sempre cobrei muito da minha mãe a aplicação daquilo na educação. Mas ela não tinha culpa, dado que havia desvio do dinheiro pela prefeitura. Vereadores e nomões do governo municipal davam sempre um jeitinho na grana que chegava, cumprindo o exercício da pragmática desde Cabral do "Farinha pouca, meu pirão primeiro". A maioria dos meus irmãos mais velhos trabalhava na roça de cacau. Algumas vezes minha mãe não permitia que eles trabalhassem, já que a comida faltava na mesa e sem comer não se trabalha.

É preciso que a juventude que nasceu na primeira década longe da extrema pobreza histórica entenda que nós, jovens da década de 90, passamos fome. Nós das periferias surgidas após os sobressaltos da concentração fundiária. Nós das roças, filhos de trabalhadores rurais, de vilarejos. Um dia surgiu o Bolsa Família. O modelo mudou completamente. Os atrasos acabaram, nossa mesa, ainda com dificuldades, via pouco a pouco a esperança entrar pelos cofres da Caixa Econômica Federal, essa que Armínio Fraga, guru de Aécio Neves, quer privatizar. Da invisibilidade histórica meu pai apenas murmurava na eleição de 2006, mesmo em situação irregular sem poder votar, para as senhoras da igreja: "É o homem", fazendo referência à sua preferência por Lula. No Banco do Nordeste ele obteve o seu primeiro empréstimo. Aos poucos fomos pagando as contas que devíamos nos mercadinhos. Hoje todos estão empregados e ninguém quer o passado de volta.

Não é mentira. O Brasil mudou. E mudou para melhor. Em 2009 o primeiro filho da família ingressou na universidade. Era eu. Passei ainda no antigo vestibular para cursar Letras na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus. Fui bolsista desde o primeiro ano do programa de iniciação científica, com fomento do governo federal. Minhas chances estavam jogadas sobre a mesa. A parti dali não perdi nenhuma. De congressos nacionais a internacionais, inclusive fora do país, eu viajei para apresentar trabalho com dinheiro público. Com precisa vontade de crescer eu publiquei os primeiros artigos em periódicos de minha área. Hoje olho para trás com orgulho, mas também com clareza. Sem oportunidades eu não venceria. Sem lutar pelos ideais de uma sociedade menos elitizada eu não venceria. Desde o início fui do movimento estudantil, das trincheiras do centro acadêmico, à frente do qual estive por duas gestões. Hoje curso mestrado, com bolsa, numa universidade federal. Do lugar de onde parto neste momento olho para o passado cruel dos governos FHC, do líder Aécio Neves. Sucateamento das universidades, congelamento da política de valorização das bolsas, tentativa de acabar com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Não é mentira que o Brasil mudou. Mas é verdade que o passado quer voltar. O passado que preferiu aumentar juros para combater inflação é o mesmo que promete agora, com roupagem um tanto mais sofisticada, cortar gastos públicos. Aécio Neves. Tem cara de playboy, viveu como playboy e não aprendeu a fazer a própria cama porque tinha empregada. O passado se apresenta agora com a respectiva cara da elite atrasada e fundiária do Brasil. É preciso combatê-lo, pelo bem dos que viviam na invisibilidade histórica e hoje podem se enxergar, e, como nunca, sonhar e ter esperanças de ajudar a construir os rumos do país.

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