O petróleo não é deles

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(Foto: Reuters)


Por motivos que a história explica, nações que defendem a sua dignidade aceitam pôr em discussão praticamente tudo, menos algo como um núcleo, um conjunto de princípios que sustentam sua cultura e sua forma de ser. O tempo muda diversas de suas disposições, tendo a ver com regras de cada época – e aquele conjunto de valores permanece, orientando as ações, as opiniões e o encaminhamento dos problemas. Por mais democrática que seja a sociedade e por mais que diversamente se formem seus órgãos representativos, algo como um coração palpita dentro de si para, como um perfil, expressar ao mundo que tem importância e que não aceita abrir mão de seus princípios. Guerras internas e externas já foram travadas por isso. 

No Brasil, um país novo, habituado a compromissos e concessões desde a sua independência de Portugal, o coração a que nos referimos representou, em certos casos, esforços sobre-humanos, depois de embates fratricidas em torno do que é e não é do nosso interesse. A Petrobrás, nesse cenário, coloca-se no centro do palco. Criada por Getúlio Vargas nos anos cinquenta, seguindo-se a uma campanha feroz que trabalhava com o slogan “o petróleo é nosso”, transformou-se numa estatal gigante, afirmando-se diante dos nossos olhos e do mundo com suas conquistas. Agora, chegando ao pré-sal desafiou a engenharia nacional, estimulando pesquisadores das universidades (UFRJ-COPPE) e encontrar técnicas e estratégias para alcançá-lo e torná-lo competitivo no mercado internacional, como é atualmente. 

O debate em plenário da Câmara dos Deputados entre Glauber Braga, como Vice-Líder do PSOL, e Arthur Lira, Presidente da sessão e da casa, ambos com os ânimos acalorados, traz à mente traços daquelas discussões. Em pauta se achava um projeto a ser aprovado por maioria simples, dispondo sobre a privatização da Petrobrás. O Sr. Lira se esqueceu do que se passou nos anos cinquenta, por ocasião da instituição da Lei, riscou com um xis a carvão o que gastamos de sangue, suor e lágrimas em nossas crises de crescimento e, numa penada, pretendeu entregar a principal empresa brasileira a grupos privados. Glauber Braga, assim como os partidos de oposição, ergueu-se para gritar um sonoro “não”. Foi ardente em sua defesa e na exposição de seus motivos. Ao contrário do que o acusou o Presidente da Casa, não empregou palavras de baixo calão, mais facilmente encontradas na boca dos ministros do atual governo e seus apoiadores. Mas gritar “não” contra aquilo que fere o coração da nossa nacionalidade, aparentemente, já basta para despertar a ferocidade dos inimigos. 

Mesmo assim, é preciso reconhecer que, com ou sem ameaças de retirá-lo do plenário e de lhe caçar o mandato, o grito do jovem deputado expressa uma indignação que é, profundamente, nossa. É certo que, desde 2018, vemo-nos diante de uma série de medidas (retiradas de direitos trabalhistas, falta de recursos para cultura e educação, falta de decoro nas reuniões das altas cúpulas etc.), com iniciativas que ferem o conceito de cidadania e seus postulados, sem que nenhum recurso extremo haja sido tomado pelo mesmo congresso que, de repente, manifesta o desejo de caçar um colega. Realmente, como nos alerta Gonzaguinha, “Não dá mais para segurar / Explode coração”. Algo tem de acontecer.

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