O pior ainda está por vir

De qualquer modo, parece que a única maneira de impedir Temer de destroçar o país, inclusive destruindo todo o trabalho realizado pela diplomacia brasileira no fortalecimento do Mercosul e nas relações com os demais países, é derrubar o impeachment no Senado

Brasília- DF 15-06-2016 Presidente interino, Michel Temer, durante reunião com líderes. Foto Lula Marques/Agência PT
Brasília- DF 15-06-2016 Presidente interino, Michel Temer, durante reunião com líderes. Foto Lula Marques/Agência PT (Foto: Ribamar Fonseca)

Em entrevista ao jornalista Roberto D'Ávila, da Globo News, o presidente interino Michel Temer desnudou-se. Talvez pela falta de experiência – ou discernimento – no exercício de cargos executivos mais elevados (em sua única experiência executiva como Secretário de Segurança só aprendeu a lidar com bandidos, conforme ele próprio afirmou), acabou revelando que o pior do seu governo ainda está por vir, pois está deixando as medidas mais duras para depois da sua efetivação na Presidência da República, como a reforma da Previdência, com a elevação da idade-limite para aposentadoria, e o aumento de impostos. Cabe, então, uma perguntinha: se como interino ele tem desmontado quase todas as conquistas sociais dos últimos tempos, ao mesmo tempo em que prepara a dilapidação do resto do patrimônio nacional deixado pelo ex-presidente FHC, do que será capaz como presidente efetivo, mesmo sem a legitimidade do voto popular?

Sobre as limitações que impôs à presidenta afastada Dilma Roussef, inclusive quanto ao uso do avião presidencial, Temer justificou a proibição afirmando que ela "utiliza o avião – ou utilizaria – para fazer campanha denunciando o golpe". A resposta expôs a certeza que ele tem do golpe que praticou, registrada no seu inconsciente. E explicou: "A senhora presidente tem o palácio da Alvorada, tem o palácio do Torto, tem avião para se locomover para o seu estado. Sim, porque, convenhamos, ela não está no exercício da presidência, portanto não tem atividades de natureza governamental". Ele dá a impressão de que está fazendo um favor a ela, deixando-a ficar no Palácio da Alvorada. Na verdade, além do fato de que ela ainda é a Presidente da República, o presidente interino deve cumprir as determinações do Senado quanto aos direitos dela enquanto não for julgado o impeachment. Não existe, portanto, nenhum gesto de generosidade da sua parte.

Percebe-se ainda, da entrevista, que o presidente interino e os irmãos Marinho estão perfeitamente afinados. Confirmando editorial do jornal "O Globo", que condenou a proposta de plebiscito para a antecipação de eleições, Temer disse: "Eu não acho útil para a senhora presidente. Porque, no instante em que ela diz que aceita um plebiscito para eleições, é porque ela deseja voltar para depois não governar". Estranho raciocínio, quando todos sabem que a Presidenta deseja apenas dar ao povo o direito de se manifestar de novo, já que os golpistas ignoraram a sua vontade expressa, nas eleições de 2014, nos 54 milhões de votos. O "Globo", no entanto, entendeu que o objetivo é dar a Lula a oportunidade de voltar ao Planalto antes de 2018, mas ameaçou o ex-presidente operário com a Operação Lava-Jato. "Depende do que a Lava-Jato reserva para o ex-presidente", diz o editorial do jornalão carioca. Aparentemente os Marinho estão sabendo alguma coisa que os mortais não sabem.

O editorial do jornal dos Marinho, que vem se esforçando para salvar o governo de Temer, sob o título de "Não há saída da crise fora da Constituição", começa com um parágrafo que se encaixa como uma luva no processo do impeachment: "A política brasileira é incansável na busca de atalhos para contornar crises, mas que costumam atropelar a Constituição. Quase sempre expressam apenas interesses de grupos, apresentados à sociedade como ações em defesa da "democracia" e do "povo". E termina afirmando:"É preciso cumprir a Constituição, deixando-se de lado jeitinhos, fórmulas tiradas da manga da camisa. Aplicar o que está escrito reforça a segurança jurídica, sem a qual nenhuma sociedade se desenvolve". Esse editorial bem que poderia ser publicado antes da votação da Câmara dos Deputados, naquele deprimente espetáculo que aprovou o impeachment de Dilma, quando a Constituição foi atropelada justamente pela falta de base legal, já que não existe crime de responsabilidade, o que, obviamente, caracteriza o golpe.

Mas voltando a Temer, o presidente interino perdeu, com a entrevista, uma excelente oportunidade para esclarecer as acusações do ex-diretor da Transpetro, Sergio Machado. Ao contrário do esperado, porém, Temer informou que não vai processar Machado, como havia prometido, porque "é isso o que ele mais deseja", ou seja, "polarizar com o presidente da República". Essa justificativa pegou muito mal, pois deixou a impressão de que ele não pretende mexer em vespeiro, ou seja, não quer provocar o ex-diretor da Transpetro porque certamente não sabe o que a nova versão do índio Juruna tem guardado em seu gravador. Como cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, melhor não cutucar a onça para não agravar a situação. Ele também foi prudente quando falou do deputado Eduardo Cunha, considerando-o um "batalhador no campo político e no campo jurídico". Ele deve conhecer muito bem o presidente afastado da Câmara dos Deputados, que já responde a dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

De qualquer modo, parece que a única maneira de impedir Temer de destroçar o país, inclusive destruindo todo o trabalho realizado pela diplomacia brasileira no fortalecimento do Mercosul e nas relações com os demais países, é derrubar o impeachment no Senado. Se a decisão dos senadores for estribada em sua consciência, diante do depoimento das testemunhas de defesa que comprovaram a inexistência de crime de responsabilidade, não há dúvida de que o impeachment será arquivado, com o consequente retorno da presidenta Dilma Roussef ao Planalto e o estancamento de todas as ações deletérias do governo interino. Caso contrário, só restará ao povo brasileiro sair às ruas para reivindicar seus direitos e salvar a democracia. Ou rezar, para que o país sobreviva após a curta passagem de Temer, embora o ministro Gilmar Mendes tenha dito que não adianta apelar ao Papa, a Deus ou ao diabo.

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