O povo não é inimigo interno

A segurança pública se subordina à ideologia de segurança nacional. As forças armadas e policiais historicamente agem juntas quando o assunto é repressão ao "inimigo interno", aos movimentos sociais que lutam por direitos, por igualdade, pela cidadania e pela democracia

A segurança pública se subordina à ideologia de segurança nacional. As forças armadas e policiais historicamente agem juntas quando o assunto é repressão ao "inimigo interno", aos movimentos sociais que lutam por direitos, por igualdade, pela cidadania e pela democracia
A segurança pública se subordina à ideologia de segurança nacional. As forças armadas e policiais historicamente agem juntas quando o assunto é repressão ao "inimigo interno", aos movimentos sociais que lutam por direitos, por igualdade, pela cidadania e pela democracia (Foto: Laurez Cerqueira)
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Apesar da imensa fronteira continental do Brasil, as forças armadas e policiais brasileiras se estruturaram e se desenvolveram mantendo como base, na formação, a ideologia do "inimigo interno".

Aqui, inúmeras nações indígenas foram dizimadas, suas terras tomadas, as riquezas pilhadas,os negros, trazidos da África, escravizados, humilhados, e seus descendentes abandonados à própria sorte formando uma imensa classe, na base da pirâmide social, de pessoas pobres sem acesso a direitos elementares.

Esses são os "inimigos internos", aos olhos das forças armadas e policiais, que culturalmente sempre serviram à ordem interna estabelecida pelo poder econômico e político dos grandes proprietários empresariais, grandes comerciantes e rentistas, e pelos gerentes de interesses externos, um tipo que transita entre os negócios e a política. Ou seja, seriam essas categorias os "amigos internos" das forças armadas, policiais e judiciárias?

Na parede da história do Brasil consta que as revoltas populares contra a dominação e a exploração sempre foram combatidas pelas forças armadas e policiais com extrema violência. Reprimiram movimento sociais, prenderam líderes populares, torturaram com requinte de crueldade, mataram, não satisfeitas, esquartejaram, cortaram cabeças, salgaram e as expuseram em praça pública em várias cidades brasileiras, tamanho o ódio cego de classe ao "inimigo interno". Tudo isso, em nome da lei e da ordem interna.

Basta olhar para as favelas, fazendas, presídios e para as estatísticas sobre a exploração patronal e sobre a violência policial. Lá está a imensa população da base da pirâmide social contida pelas forças que mantêm a ordem interna estabelecida.

A ideologia de segurança nacional, no Brasil, é culturalmente filha da ideologia do "inimigo interno", perpetuada e expressa, em pleno século XXI, no artigo 142, da Constituição Federal, quando diz que as forças armadas, sob comando supremo do presidente da República, têm como função a defesa da lei e da ordem interna.

A segurança pública se subordina à ideologia de segurança nacional. As forças armadas e policiais historicamente agem juntas quando o assunto é repressão ao "inimigo interno", aos movimentos sociais que lutam por direitos, por igualdade, pela cidadania e pela democracia.

As forças armadas e policiais agem unidas respaldadas por leis feitas por um Congresso conservador, dominado pelo poder econômico, por parlamentares corruptos, e por um Judiciário atrasado, de mentalidade monárquica, como se ainda servisse à corte.

Um Judiciário que condenava pobres e escravos à pena de morte nos tempos sombrios do Brasil colônia e imperial, e nunca se subordinou ao controle soberano da sociedade.

Hélio Bicudo, um entusiasta do controle externo do Judiciário, sucumbiu no pântano do golpe ao assinar a aberração do pedido de impeachment da Presidenta Dilma, colocado nas mãos do deputado Eduardo Cunha, as mais sujas de corrupção da vida pública, no momento.

O espírito do "inimigo interno" é o espírito do golpe. Temer surgiu das brumas coloniais e imperiais possuído por ele. Em parceria com os líderes da banda podre da política brasileira, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e outros, derrubaram a Presidenta Dilma, legitimamente eleita.

Agora Temer ameaça colocar as forças armadas nas ruas para reprimir manifestações públicas, com base na Constituição. Parece não se dar conta de que o Brasil mudou, que o país avançou na conquista da cidadania e não abrirá mão dos direitos constitucionais de organização, manifestação e expressão.

E, sobretudo, que as forças armadas também mudaram, que há hoje no Brasil uma parte delas e das forças policiais que não se alinham mais com a ideologia colonial do "inimigo interno", por terem sido formandas não só entre os muros dos quartéis, mas nas universidades brasileiras.

Essa parte silenciosa, cidadã, pode não aceitar o comando de um governo do qual os principais conspiradores e agora ministros, estão a um passo de serem condenados por corrupção.

Nem todos os militares e policiais compactuam com o crime organizado, com a subtração de direitos da população e com a entrega das riquezas do país a grupos estrangeiros.

O dia que as forças armadas e policiais abandonarem a ideologia do "inimigo interno " e se tornarem "amigas do povo" o Brasil será o país mais democrático do mundo.

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