O preço da indignação e as aulas de insensatez e ódio: censura quer calar mais uma jornalista à força

Defendo o direito indisponível dos idiotas de serem idiotas, eis que os vejo como efeitos colaterais da democracia e liberdade, conceitos que protejo em quase todos os artigos de minha autoria. A idiotice, no caso, seria apenas o nome da bolsa que carrega objetos como ignorância, estupidez e todas as formas de intolerância

No Rondônia Dinâmica, por Vinícius Canova - Advertência: nesta publicação trato a respeito do processo movido por um professor universitário contra a jornalista Luciana Oliveira e a redijo em respeito à liberdade de expressão, preservação da atividade jornalística e, principalmente, em defesa da democracia

Porto Velho, RO – É interessante perceber como os perpetradores dos discursos de ódio se sentem confortáveis ao expor seus ideais medievais diante de plateias selecionadas. Também pudera, já que são justamente as redes sociais ligadas diretamente a amigos e demais contatos em constante simbiose ideológica – ao menos entre os que resolvem se exibir – os ambientes propícios para intrépidos acastelados reverberarem vitupérios cíclicos.

Na trincheira da bobagem, se houver caso isolado de oposição, a plateia subserviente dará conta do recado à base das ofensas costumeiras direcionadas a quem ousar.

Silencie e seja um covarde; enfrente um sujeito cheio de si, perca um amigo; concorde com este por conveniência, ganhe um coleguinha de veneta pra jogar sinuca, comer, falar sobre trivialidades e tomar cerveja. São basicamente suas opções atualmente.

Defendo o direito indisponível dos idiotas de serem idiotas, eis que os vejo como efeitos colaterais da democracia e liberdade, conceitos que protejo em quase todos os artigos de minha autoria. A idiotice, no caso, seria apenas o nome da bolsa que carrega objetos como ignorância, estupidez e todas as formas de intolerância.

“Ah, mas então você defende esse tipo de comportamento?”

Não!

Defendo que o mentecapto seja ele mesmo e dê oportunidade tanto a si quanto aos que o rodeiam de freá-lo. Se tiver condições de suportar o baque do retorno, da porrada de volta, do nocaute no enfrentamento, reúne os critérios necessários para ser oficialmente um imbecil, documentado e tudo, sem as protocolares exigências alfandegárias.

Porque aquilo que não é ostentado está, consequentemente, encubado, ainda ali, adormecido e louco pra sair. E se não for possível parar o ímpeto do tolo, que o destemor de um terceiro alheio a seu habitat tenha o condão de retirá-lo da agradável redoma de pensamentos retilíneos, expondo-o ao crivo mundial, muito além da apreciação da patota intramuros.

Aqui em Rondônia há uma pessoa que faz isso praticamente todos os dias. Uma mulher que coleciona tantos amigos e admiradores de seus poderosos manifestos quanto desafetos, muitos destes últimos longe de optarem pela conservação do embate na esfera intelectual recorrendo aos mais baixos métodos a fim de defenestrá-la.

A jornalista Luciana Oliveira, completamente independente, bate com luva de pelica e incomoda. Incomoda muito!

Às vezes exagerada, coisa de quem segue à risca convicções tão fortes que neste momento de polarização põem em xeque até mesmo relacionamentos próximos e duradouros, não abre mão daquilo que vê como verdade, tocando diuturnamente nas feridas sociais ignoradas por espectadores passivos, inertes, num lastimável estado catatônico. Algo que, há pouco, não ocorria com tantos panelaços e marchas CBF anticorrupção.

Não pense que receber investidas recheadas de palavreado chulo, saraivadas de manifestações impublicáveis e ameaças seja um problema para a ativista; todo esse pacote de reações adversas compõe a fórmula necessária da combustão que a impulsiona.

O receio de Luciana, jamais exteriorizado, é claro, embora imagine ser o mesmo partilhado por todo profissional de imprensa sério, é a censura: imposição do silêncio ante a discordância.

Diferentemente de outros criticados que também levaram na fuça e com certeza receberam o recado, um professor universitário processou a jornalista ao ser exposto após bradar, entre outras frases, a seguinte assertiva no WhatsApp:

“Muçulmano é a desgraça que assola a humanidade”.

A ação judicial é retaliação óbvia à antenada repórter que, estritamente arvorada a fatos e sem a pressão e o temor que costumam rondar redações quando o assunto é religião e fé, agiu corretamente ao eviscerar o flagelo.

Com maestria eficaz e a sutileza de quem desossa um frango sem mexer na carne, desnudou o cidadão, tirando-o da zona de conforto (o que eu disse no começo do texto?). A situação ganhou repercussão nacional, talvez tenha rodado o Planeta Terra, quem sabe?

Desencadeou-se, então, a fúria – e pelo histórico do doutor a cólera certamente lhe apraz – do homem que queria expor uma opinião, mas, graças a Luciana, ganhou outdoor mundial fazendo publicidade gratuita às considerações que atentam contra todos os muçulmanos, incluindo aí os que moram aqui mesmo em Rondônia. Aliás, não só muçulmanos, mas também a todos os outros seres humanos solidários que não aceitam o acinte saído de onde menos se espera. Logo, o catedrático deveria pagar pelo serviço abnegado, não cobrar por ele.

Para o azar do hidrófobo, a moça não está só. Pelo contrário, ontem (24), o jornal eletrônico Rondônia Dinâmica reproduziu matéria veiculada pelo portal Brasil 247. A notícia intitulada “Jornalista processada por reproduzir intolerância religiosa de professor recebe solidariedade” poderia ser apenas uma entre milhares de postagens circulando a Internet não fosse a Nota de Solidariedade encartada.

O documento é assinado por advogados, docentes, entidades, jornalistas, servidores públicos e, não tivesse chegado tarde, teria solicitado a inserção do meu nome para engrossar o coro, a despeito de fazê-lo atrasado e simbolicamente agora. Cheguei a pensar: quem é Vinicius Canova, destituído de graduações, alheio às garbosas titulações acadêmicas, para exclamar o que quer que seja contrariando a sapiência ululante do personagem em questão?

Concluí que sinapses apuradas e acurácia cognitiva destituídas de sabedoria humana, absorvida empiricamente pelo viver e conviver, não significam absolutamente nada, algo que talvez o preceptor possa aprender no futuro ao recapitular, sozinho e afundado em introspecção, espero, suas próprias aulas de insensatez.

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