O que diria Rajagopalan?

Enquanto muitos vibravam com o que dizia Lula, outros espumavam de raiva, inveja e ódio. Alguns empijamados chegaram até soltar notinhas ridículas ameaçando o país de ruptura



A justiça brasileira, com a lerdeza que lhe é peculiar, anulou todas as condenações do ex-presidente Lula, admitindo assim, que tudo aquilo que lhe foi imputado não passou de lawfare, algo que até o mundo mineral sempre soube. Se não me falha a memória, é Rui Barbosa quem diz que “justiça tardia nada mais é do que injustiça institucionalizada”. E eis que no último dia 10, livre e elegível, o estadista Luis Inácio Lula da Silva dá uma entrevista coletiva, que sacode a República, quebrando a Internet. O que mais se leu / ouviu foi a frase: “Lula está de volta ao jogo político”. Há, obviamente, um equívoco em tal assertiva, uma vez que Lula jamais, mesmo enquanto preso político da Lava Jato, esteve ausente do jogo político. 

E eis que Lula falou. E falou muito, especialmente sobre todas as principais questões de suma importância para a compreensão da atual situação do país. Dono de uma oratória invejável, Lula demonstrou mais uma vez o monumento político que é. Enquanto muitos vibravam com o que dizia Lula, outros espumavam de raiva, inveja e ódio. Alguns empijamados chegaram até soltar notinhas ridículas ameaçando o país de ruptura. Tem gente que se acha dona do país e no direito de ignorar a CF, subestimar o povo e atacar a democracia.

Entre os hidrófobos, uma jornalista, apresentadora de programa numa poderosa rede de televisão correu ao Twitter e postou: “E os adevogados???”. A referida jornalista tentou lacrar e, numa tentativa de debochar da forma como o ex-presidente fala a palavra “advogado”, acabou por meter os pés pelas mãos e passar vergonha. Não nos custa dizer que não há nada de errado em se falar “adevogado” em vez de “advogado”. Assim, Lula não falou nada de errado, até porque em línguas não existe o errado, a não ser na cabeça de alguns puristas. O que existe são, sim, os diferentes e as variantes. E sobre tais questões, a Linguística, a Linguística Aplicada (leiamos Kanavillil Rajagopalan!) e, mais especificamente, a Sociolinguística já bateu o martelo. Poderíamos, aqui, desfiar todo um rosário de tiuria (Ops! Não seria “teoria”, Belchior?), mas pra que gastar caracteres dizendo o que qualquer aluno / aluna do primeiro semestre de Jornalismo já deveria saber? 

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Pois bem. E o que acontece em casos assim, de vergonha alheia? O cidadão / cidadã de bem corre lá, apaga a idiotice que escreveu e tenta justificar o injustificável. E assim o fez a tal da jornalista. Depois de levar trocentas invertidas na rede, a criatura foi lá, apagou sua asneira e se justificou com outra asneira. Disse: “Deletei um tweet meu, pq voltamos ao extremismo. Não tô disposta pra isso”. Quando disse “voltamos” a jornalista deixou implícito o sujeito “nós”. Nós voltamos, abençoada? Nós quem, cara pálida? E “voltamos ao extremismo”. Que extremismo, amada? Estaria ela se referindo ao extremismo que muitos jornalistas, puxa-saco de patrão, praticaram por meio do jornalismo de guerra, contribuindo para jogar o país no abismo em que estamos metidos, e que agora chamam de polarização? 

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Percebam que em apenas dois tweets a jornalista se traí pelo discurso, expondo-se de maneira pra lá de sofrível. A prática na qual incorreu chama-se preconceito linguístico, que se dá quando alguém pertencente às classes mais favorecidas da sociedade, que teve acesso à uma boa educação formal, se acha no direito de dizer o que é certo e o que é errado. Por esse olhar elitizado e tosco (desculpem a redundância), as pessoas mais simples, às quais continua sendo negado o acesso à uma educação de boa qualidade, sempre falarão “errado” e sempre estarão sujeitas ao deboche e ao preconceito. 

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Quantos minutos de debate a tal da jornalista aguentaria com Lula, com ele falando “adevogado” e ela falando o que bem quisesse? Fica a pergunta, pois bastou apenas um discurso do petista para que a matilha do golpe fosse atiçada e, pautada pela desonestidade intelectual que lhe é peculiar, se agarrasse ao vernáculo da língua para debochar de algo muito maior e mais amplo. O problema é que o preconceito linguístico (leiamos Preconceito linguístico, de Marcos Bagno!) nunca vem sozinho, mas acompanhado do racismo linguístico (leiamos Racismo linguístico, de Gabriel Nascimento!), do preconceito étnico-racial (leiamos Racismo estrutural, de Silvio Almeida!), do preconceito de gênero e do preconceito de classe. É preconceito demais para um país em ruínas. Mas “Lula está de volta ao jogo político”. Um viva ao povo brasileiro, um viva ao Lula, e um viva aos seus adevogados! Há uma luz no fim do túnel. 

 

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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