O que é que há?

Guilherme Boulos
Guilherme Boulos (Foto: Brasil247)
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Duas situações são difíceis de compreender nas eleições municipais deste ano: a candidatura de Boulos em São Paulo e a desistência de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro.

São Paulo continua a ser uma grande questão na política nacional. Pelo tamanho de sua população e eleitorado, acumulação de imensa riqueza, aumentada pelo sistema tributário de ICMS, além de sede do sistema finandeiro e das multinacionais, que, de lá, fazem fluir para o exterior boa parte da nossa riqueza.

São Paulo dominou a cena política na República Velha, a famosa República das oligarquias, fez os três primeiros presidentes civis em seguida aos marechais Deodoro e Floriano. Concedeu algumas presidências para Minas Gerais e uma para o Nordeste (Epitácio Pessoa). Só a Revolução de 1930 é que conseguiu segurar todo o poderio de São Paulo, aproveitando-se de uma dissidência nas hostes paulistas. Mas durou pouco, pois pouco mais de um ano depois, já estavam os paulistas querendo derrubar a Revolução de 30 com o que chamaram, e ainda chamam até hoje, Revolução Constitucionalista.

São Paulo continua repressentando o grande desafio para os setores populares, para as esquerdas. Getúlio conseguiu eleger-se em 1950 pelo grande prestígio junto ao proletariado devido à legislação trabalhista e Previdência Social. Juscelino, devido à sua grande habilidade e aos acenos feitos e implantação da indústria automobilística em São Paulo, com grande esforço do Tesouro nacional. Jango foi eleito vice devido à articulação da chapa Jan-Jan, com Jânio na cabeça e ele de Vice. Brizola tinha compreensão desse desafio, mas não conseguiu furar o bloqueio, o que representou sua inviabilidade, além dos embates com a Rede Globo.

Lula e o PT conseguiram firmar um pé forte em São Paulo, com articulação sindical e apoio dos setores mais esclarecidos, especialmente no mundo universitário e acadêmico. Hoje, um dos elementos mais importantes para a política de esquerda e popular no Brasil é a capacidade de penetração do PT em São Paulo, onde segura um terço, pelo menos, do eleitorado, suficiente para ganhar eleições nacionais, com o apoio dos setores populares país afora. Isto é relevante para a luta política de hoje.

A candidatura de Boulos poderá minar ou ferir esta capacidade do PT de ser força mobilizadora de relevo em São Paulo. Isto poderá acontecer pelo apoio que tem recebido de áreas acadêmicas, como Marilene Chauí, Carta Capital, dizem Chico e Caetano, Celso Amorimn e outros, mais respaldo da mídia. As candidaturas anteriores de Boulos tiveram pouca expressão, o que deixa de justificar sua candidatura atual. O PSOL nasceu como uma dissidência do PT, em cima de um discurso pesado contra corrupção e da força do discurso da Heloísa Helena à época, na hora em que o PT estava acuado com a questão do mensalão. Tudo dissipou-se no ar. As candidaturas posteriores, de boas figuras como Plínio de Arruda Sampaio, Luciana Genro e o próprio Boulos, fizeram um confronto com Lula e Dilma, mas não se traduziram em apoio popular.

Outra questão de difícil compreensão foi a desistência de Marcelo Freixo no Rio. Desenvolvia-se boa articulação, grande apoio na área comunitária, sindical, universitária, acadêmica e com participação já declarada do PT, com bom tempo de televisão, expressiva colocação nas pesquisas. Sua desistência deixou o setor popular aqui no Rio diante de uma luta mais árdua contra o fisiologismo, setores religiosos pentecostais, meios de comunicação e áreas bolsonaristas de milícias e direita mais extremada. De difícil explicação.

É, no mínimo, inquietante a candidatura de Boulos e os apoios que vem recebendo. O que menos se precisa no momento é prejudicar a articulação do PT em São Paulo.

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