O que sei de Renato Janine, o novo ministro da Educação

Sua nomeação é uma das poucas boas notícias que a política brasileira recebeu neste ano

Sua nomeação é uma das poucas boas notícias que a política brasileira recebeu neste ano
Sua nomeação é uma das poucas boas notícias que a política brasileira recebeu neste ano (Foto: Eduardo Guimarães)

Estou em Olinda a convite do Centro de Estudos Barão de Itararé para palestar sobre o tema democratização da comunicação em encontro de blogueiros local. Aproveitei a sexta-feira, dia em que cheguei, para curtir as belezas do Recife, sua culinária, seu povo ímpar.

Mesmo algo desligado dos acontecimentos políticos, fiquei sabendo da nomeação de Renato Janine Ribeiro como novo ministro da Educação. Foi uma agradável surpresa porque o professor Renato honrou esta página várias vezes com seus comentários.

O que ele já disse aqui e em algumas poucas mensagens privadas que trocamos me faz crer que sua nomeação é uma das poucas boas notícias que a política brasileira recebeu neste ano.

Julgo o professor Renato uma das grandes cabeças pensantes deste país e sua leitura desta página, ao lado de figuras como um Ricardo Lewandowski, entre outros, honra este blogueiro. Mas foram seus comentários que me falaram sobre quem ele é.

E se uma forma de conhecê-lo melhor é através dos comentários que já escreveu aqui, resgatei algumas de suas opiniões e as reproduzo abaixo. Espero que ajudem os leitores a formarem opinião sobre o novo ministro dessa pasta tão importante que é a Educação.

 

Renato Janine

Enviado em 25/06/2010 as 12:33 – post Futebol explica política ao país

Talvez já seja tarde para comentar aqui, mas acho que devemos evitar idolatrar Dunga. Ele tem toda a razão em negar privilégios a uma emissora, seja ela qual for. Muito bem. O jornalista Escobar também errou em falar ao celular durante a entrevista de Dunga. Isso vai contra a boa educação. E os palavrões de Dunga sobre ele, se foram ao ar, por outro lado foram pronunciados entredentes, de modo que podemos considerar que foram uma reação privada, que como tal não devia ser tornada pública. OK.

Mas por outro lado Dunga parece representar um certo autoritarismo, como por exemplo ao proibir sexo aos jogadores. O que quero dizer: não é porque ele acerta em parte das coisas que ele acerta em tudo. E confundir Dunga ou a vitória do Brasil na Copa, pela qual torço, com a candidatura Dilma… sinceramente não dá. São duas coisas inteiramente diferentes. E para quem viveu a ditadura, lembrar o uso que Médici fez do tri em 1970 dá engulhos toda vez que se mistura política eleitoral e futebol. Essa diferença ainda é mais importante porque, enquanto escrevo, noto que a presidente do Flamengo está sendo cogitada para vice do candidato Serra. Espero que o Flamengo seja tão inútil para a candidatura dele quanto uma vitória do Brasil para a candidatura Dilma. Porque a eleição e o futebol devem ficar separados.

Agora, concordo com Eduardo que existe uma torcida contra o Brasil, não digo necessariamente no futebol, mas enquanto país. Lembram quanto Lula foi criticado porque, na crise mundial de 2008, apostou no aumento do consumo e não na recessão? Admiro FHC, sim, por alguns pontos (o fim da inflação, a transição tranquila para o governo Lula e mesmo a redução do poder do PFL, que começou na sua “octaéride”, como diz Delfim Neto), mas ele provavelmente elevaria os juros às alturas. E houve e há, sim, gente que preferia que o Brasil falisse a que crescesse com o governo Lula. Aí, sim, Eduardo e muitos dos que escreveram têm razão.

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Renato Janine

Enviado em 01/07/2010 as 19:34 – post A última razão para você não votar em José Serra

Caro Eduardo, o melhor mesmo seria suprimir o cargo de vice. É utilizado para somar minutos de TV e, eventualmente, somar apoios. Dificilmente o vice é da confiança do titular. Muitas vezes é até seu inimigo (falo em geral, mas o caso específico é o de Quercia, vice do governador Montoro). Assim, quando não é da confiança, passa o mandato neutralizado. Vira um zero à esquerda. Mas um zero que pode virar tudo. Foi o caso de Jango, de Sarney e de Itamar, que vc mencionou. É um absurdo que uma pessoa que foi neutralizada, que entrou só para compor, possa por um acaso do destino se tornar prefeito, governador ou mesmo presidente. Imagine o que teria sido a história do Brasil se Jânio não renunciasse ou Tancredo não morresse. Não digo que teria sido melhor, teria sido muito diferente.

Suprimir o cargo de vice traria um problema prático porque o Brasil, como os Estados Unidos mas diferentemente dos países europeus, pratica a coincidência de mandatos. Na França, o mandato do presidente começa quando ele é eleito, mesmo que tenha havido renúncia ou morte. E o Legislativo também, porque pode ser dissolvido – coisa de parlamentarismo. No Brasil, o presidente e os governadores coincidem com os deputados. Mas isso pode ser discutido. Por exemplo, se vagar o mandato nos primeiros dois anos, poderia se fazer uma eleição direta. Nos últimos dois anos do mandato, a eleição seria pelo Legislativo respectivo. Sugiro isso só como hipótese.

O melhor mesmo é não termos, mais, o vice.

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Renato Janine

Enviado em 16/07/2010 as 18:47 – post O monstro da vaidade

Senti isso quando fui diretor da Capes, órgão do Ministério da Educação, em Brasília, de 2004 a 2008. O impressionante é que tanto a vaidade de quem está por cima, quanto a bajulação dos que o cercam, parecem ser mais fortes do que as convicções políticas. Acredito que seja essa, aliás, uma das razões pelas quais tantos se apegam a seus cargos de confiança. Sabem que, no dia seguinte à sua saída do cargo, a grande maioria dos que o cumprimentavam não vai sequer tomar conhecimento deles.

Dizendo de outra forma: a oposição entre direita e esquerda tem 200 e poucos anos. Essas palavras vêm da Revolução Francesa. Podemos recuar um tanto mais, e dizer que a Revolução Inglesa opôs, no século XVII, a “direita” e a “esquerda” da época. Mas o jogo entre vaidade e bajulação tem milênios. Lemos nos antigos, lemos na própria Bíblia sobre a vaidade.

Acredito que quem consegue não acreditar, quando está “por cima”, que é tão bom quanto os outros lhe dizem, consegue uma coisa muito boa. Fica mais livre! Porque a vaidade é uma prisão. O vaidoso está preso à opinião dos outros.

O mais curioso é que isso é denunciado há mais de dois mil anos pelos filósofos, pensadores e escritores, bem como percebido muito bem pela gente simples, e no entanto continua causando sofrimento.

Bom fim de semana!

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Renato Janine

Enviado em 02/08/2010 as 23:16 – post O dia em que a Globo aceitou dar outra imagem ao Paraguai

Muito elegante o Paraguai. Será verdade que o editor que fez a matéria foi demitido? Qual o nome dele? Espero, também, que o programa vá para o ar. Li sua carta, Eduardo, e fiquei surpreendido pela qualidade do seu espanhol. Curiosidade: vc conhece guarani? Recomendação aos leitores: a bela biografia de Mme Lynch, amante ou companheira de Solano López, editada no ano passado no Brasil e que tive a ocasião de debater no lançamento. É um livro inteligente e equilibrado.

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Renato Janine

Enviado em 31/08/2010 as 09:33 –  Pela distensão política no Brasil

Eduardo, concordo inteiramente.

Um abraço,

Renato

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 08/12/2010 as 11:29 – post Benditos sejam os que divergem

Caro Eduardo, parabéns pela ideia e até pela modéstia de reconhecer que isso é difícil. É mesmo. O que me preocupa muito na Internet é a tendência dos comentadores a serem muito radicais no que dizem. Com frequência se radicaliza o que o próprio blogueiro apenas indicou ou assinalou.

Ora, ninguém de nós é dono da verdade. Podemos, todos, errar. E erramos. Acho que, apesar de certas ações horríveis como o preconceito contra os nordestinos e gays nesse período pós-eleitoral, poderíamos aproveitar que as eleições passaram e que seu resultado foi acatado por todos.

Eu temia que estivesse se preparando uma deslegitimação da presidente eleita (leia-se: clima de golpe). Não aconteceu, e acho isso fabuloso! Sinto orgulho do Brasil por ter chegado a esse ponto. E acho que certos pontos podiam ser discutidos com menos exaltação. Dou um exemplo: na educação, há muito mais convergência hoje do que dez anos atrás.

Mas uma divergência é entre ensinar com livros didáticos (posição do governo federal) ou com apostilas e material fornecido por grandes redes privadas, na verdade bem capacitadas (posição que o governo paulista parece adotar – em parte). O que li a esse respeito, até hoje, foi só faccioso. Esse é um bom tema de debate, se questionarmos o que é melhor para quem realmente importa: as crianças. E termino mandando um abraço para as suas.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 28/04/2011 as 12:24 – post Aécio e Requião põem Senado em xeque

Concordo.

Os Senados foram constituídos, em larga medida, no século XIX, para servirem de contrapeso às Câmaras “baixas”, eleitas diretamente pelo povo, na proporção da população ou do eleitorado. As Câmaras representam o povo e têm mandatos mais curtos. Expressam mais depressa a vontade popular.

O Senado, com mandato mais longo (às vezes, vitalício) e representando o povo desigualmente, servia de freio para o que o povo quisesse. Teria mais experiência, mais sabedoria, mais senioridade – mas, na verdade, sua meta era limitar a vontade do povo. Creio que esse continua sendo um vício de nascença da maior parte dos Senados. Por isso mesmo, nas democracias parlamentares, geralmente ele tem pouco ou nenhum poder, comparado com as Câmaras. Nos EUA, que nos servem de exemplo neste ponto, o Presidente, eleito pelo povo, também limita o poder senatorial.

O problema, num regime presidencialista como o nosso, é que se tivermos só o Presidente e a Câmara o enfrentamento dos dois pode levar a crises sérias, como ocorreu no Equador. Mas poderiamos ter uma solução menos conservadora do que o Senado, para isso.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 06/05/2011 as 22:46 – post Aécio e Requião põem Senado em xeque

Caro Eduardo,

Ontem fiquei surpreso de saber que a Câmara aprovou decreto legislativo que abre as portas para a criação de dois novos Estados, dividindo o Pará. Depois, soube que ao todo há 18 novos Estados sendo cogitados. É bom lembrar que isso implica muito gasto de dinheiro público, que deveria ir para saúde, educação, cultura etc., mas nesse caso irá para bom número de cargos, eleitos ou de confiança.

Além disso, temos um problema sério na nossa estrutura constitucional. Como desde o “pacote de abril” do ditador Geisel, piorado pela Constituição de 1988, nenhum Estado pode ter mais de 70 deputados federais (o que só afeta SP, que perde metade dos seus deputados possíveis) nem menos de 8, criar novos Estados é uma forma de criar uma representação na Câmara que não corresponde à população ou ao eleitorado. Em princípio, o Senado representa os Estados igualmente, e a Câmara deveria representar a população. No Brasil, isso não acontece.

A Câmara perde a legitimidade que deveria ter, justamente porque virou um Senado do B. Assim, a criação de dois ou 18 novos Estados torna a representação da população ainda mais desfigurada. Mas, voltando ao tema principal, dinheiro bom, público, que precisa melhorar a sociedade, vai ser desviado para interesses de políticos (e não para interesses políticos). Quem discordar disso, poderia assinar e divulgar o abaixo-assinado contra a criação de novos Estados, que está em http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?page=&sr=541&pi=P2011N9559.

Um abraço,

Renato

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 06/05/2011 as 22:55 – post A reintegração de Delúbio ao PT

Caro Eduardo, um tempo atrás eu conversava com um amigo extremamente decepcionado com os episódios de corrupção no PT. Eu disse a ele: “os demais partidos agem igual ou pior”. Ele me respondeu: “eu não votei neles. Deles, não esperava nem espero nada. Do PT, sim, esperei muito. Votei no PT por 20 anos”, concluiu. Creio que essa é uma questão importante. Mostrar que Azeredo e outros agiram igual ou pior não muda o fato de que o PT sempre pregou a ética, mas quando chegou ao governo a relativizou. Veja, eu acho que o governo Lula foi o melhor que presenciei, apoiei-o etc. etc. Mas, antes que o PT fosse para o governo, ele tinha uma cobrança ética que depois cessou de ter. Lamento muito isso.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 16/07/2011 as 00:09 – post Respuesta al corresponsal de El País en Brasil

Eduardo, sabe quanto eu te respeito. Antes de atacar direto a Folha e demais jornais, vc passou literalmente anos criticando-os de peito aberto. Isso é decência. Antes de atacar em campo aberto, vc tentou mudar, avisou, fez o que pôde. Mas, aqui, eu discordo de vc. Não sei se deveria usar o “mas”, pq justamente faz parte da decência aceitar a discordância de boa fé. El País é um dos melhores jornais do mundo e, se quiser, mais progressistas. Discordo de vc, pq sua explicação é mto economicista. Estive em Barcelona e vi manifestações que vão mto além do desemprego – comentei a respeito no Valor, e copiei em meu blog. Tb discordo de Arias, pq vão mto além da corrupção.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 17/07/2011 as 08:25 – post Um 1968 muito melhorado

Gostei, Eduardo: da sua resposta a mim e sobretudo dessa resposta ao colega: “esperança”. Ficou difícil, depois da experiência soviética, conciliar a supressão da propriedade privada dos meios de produção e a abolição do Estado e de suas funções repressivas (que eram os dois pontos fortes do marxismo, não esqueçamos nunca o segundo!). O fim da propriedade privada, substituído pela estatal, fortaleceu o Estado como repressor. Isso deu errado. E, do lado do capitalismo, embora ele tenha sido mais capaz de se reciclar do que os regimes comunistas, seu caráter predatório ameaça o planeta (embora nem todos concordem com isso, uma vez que há experiências de capitalismo “verde”, que ouvi mencionadas – mas são poucas). Então, o que fazer? Tudo! É preciso repensar política e economia. A palavra “esperança” remete a isso. Um abraço e bom domingo.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 14/08/2011 as 22:27 – post Parla, Dilma!

Caro Eduardo, tem toda a razão. Ela não fala! FHC soube propor uma agenda ao País e falar. Completou sua tarefa. Ao terminar seu mandato, sua agenda estava completa (ou esgotada, se quiser). Lula soube propor uma agenda a uma sociedade mais ampla ainda, pq incluía os pobres, e não completou sua agenda – pela simples razão de que ela é enorme e exige mudanças no País que estamos devendo há séculos… E Dilma? Em princípio, sua agenda dá continuidade à de Lula; resumindo muito: justiça social, sem assustar os mais ricos. Ora, já é difícil não ter uma marca própria, uma grife sua – ainda que pela excelente razão de que essa agenda (pelo menos a parte da justiça social) é a mais nobre que existe. Mas, se ela não fala, como ficamos? O presidente do Brasil tem de ser um grande comunicador. Aliás, talvez todo governante.

Isso me preocupa. A agenda dos colunistas conservadores pouco tem a ver com a opinião popular. Se Dilma não tiver o apoio dos mais pobres, não serão os que detestam Lula que vão constituir sua base de sustentação. Mas, independentemente disso: precisamos saber o que a presidente propõe.

Tenho um palpite. Lula foi audaz e inovou em n coisas. A difícil tarefa de sua sucessora é acertar mil ponteiros. Muita coisa foi feita, que agora precisa ser ajustada. Dilma parece a pessoa ideal para isso. Só que isso não dá popularidade. Criar universidades novas, para falar de minha área, entusiasma. Fazer que os docentes cooperem entre si, produzam cientifica e tecnologicamente, em suma, fazer tudo funcionar dá mais trabalho. É chato. Descontenta, porque exige pitos. Parece que a presidente/a dá pitos. Acho difícil ela agir de outro modo, e acho importante ela organizar o que precisa ser organizado. Mas, e a popularidade – que requer, reitero o que vc disse, fala?

Um abraço, Renato

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Renato Janine Ribeiro

8 aprovados

Enviado em 13/10/2011 as 13:31 – Manifestantes contra a corrupção vêem país pior do que há 10 anos

Caro Eduardo, parabéns pelo trabalho de campo. Mas acho q nao podemos deixar uma importante causa, a da luta contra a corrupção, em mãos da direita. É praticamente tudo o que lhe restou (veja a declaração praticamente vazia de Aécio, domingo, no Estadáo: nenhuma ideia!). Se ela tivesse uma proposta para o Brasil, nao precisava difamar. Agora, há muita gente boa, decente, que viu no PT – até 2003- uma esperança para o Brasil e se decepcionou com uma certa leniência do presidente Lula com os corruptos. Sei que ninguém governa o Brasil sem se aliar com o joio. Sei que os mesmos nomes se aliaram a Collor, FHC e Lula. Portanto, não é uma culpa só do PT nem de Lula. Mas, se não fizermos uma luta clara contra a corrupção, entraremos na mesma Realpolitik que o PT jovem, ingênuo, puro, puritano (chame-se como se quiser), rejeitava. Creio que recuperar essas qualidades, agora com o amadurecimento que o tempo no poder permite, é importante. Isso se chama lutar no campo do adversário. Recusar-se a deixar-lhe bandeiras, como a da luta contra a corrupção, q nao podem ser so deles. Um abraço.

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Renato Janine Ribeiro

Enviado em 21/11/2013 as 23:28 – post O monstro da caixa de comentários

Eduardo, minha solidariedade a vc diante dessa canalhice. Vc denunciou o criminoso à delegacia de crimes virtuais? Pelo que sei, ela funciona. Um abraço!

Do final de 2013 para cá, com a radicalização política do ano eleitoral e, agora, neste ano, pessoas públicas como o professor Renato começaram a se expor menos, como faziam em comentários abertos.

Contudo, acredito que os comentários do professor Renato que consegui encontrar falam bastante sobre sua forma de ver as coisas. Pelo que sei dele, acho que o Brasil tem agora um ministro da Educação à altura do desafio que o cargo impõe.

Boa sorte, professor Renato Janine Ribeiro.

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