O rápido, o devagar, e a pandemia

Isto posto, Bolsonaro, menos louco que parece, faz o cálculo baseado no segundo sistema, possivelmente orientado por sua equipe econômica ultraliberal, projetando ganhos políticos no médio prazo ao assumir os prejuízos imediatos como parte do processo

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Há algumas semanas este espaço de discussões propôs que o Brasil entraria no fim deste mês, e durante o transcorrer de maio, no pior momento da pandemia da Covid-19. Tudo ainda indica para o mesmo, com imagens de sepultamentos coletivos já enchendo as primeiras páginas de jornais. Entretanto, paira em certo segmento da opinião pública a ideia de que, se nossos óbitos não estão atingindo os números desastrosos dos países europeus para o mesmo tempo de pandemia, é sinal de que se deve relaxar o isolamento social e pensar na recuperação econômica.

Quando a realidade é muito distinta. O que freia, ainda, a evolução da pandemia no Brasil é o fato de termos começado as medidas preventivas muito cedo, ainda com três semanas do primeiro registro, já beneficiados pelos exemplos que vinham do exterior. Igualmente, a capacidade de dispersão das ações preventivas por todo o país, por meio do poder do Sistema Único de Saúde (SUS) em campanhas de conscientização, atendendo aos princípios da participação popular e da universalidade fixados pela Conferência de Alma-Ata de 1979, a qual também já discutimos aqui.

Ocorre que, no caso de certos gestores públicos brasileiros, em especial do presidente da República e dos governadores e prefeitos que lhe são lacaios, a ideia de que a doença está sobredimensionada parece fruto da insanidade, ignorância, terraplanismo ou como quiserem chamar, quando na verdade ela é o vil cálculo político baseado num dos cânones da economia financeira contemporânea.

Em “Rápido e Devagar”, o economista Daniel Kahneman postulou que a mente humana é regida por dois sistemas, um instintual e outro racional, dos quais um tende a preservar e o outro a calcular. Kahneman, portanto, supostamente prova que o sucesso dos negócios está em romper a crença de que a economia é regida por riscos, argumentando que o medo de arriscar, ou seja, a alegada melhor garantia em preservar, atue como um freio econômico que sai da microeconomia doméstica e chega aos grandes contratos e às compras e vendas de ações. O ideal é, quando e se necessário, assumir e racionalizar eventuais prejuízos no curto prazo, desde que se tenha consciência do processo no curso do tempo.

Não que a obra em si, vencedora do prêmio Nobel de Economia em 2007, seja ruim. Provavelmente, é conhecida e aplicada pelos principais líderes globais. No entanto, sua interpretação mais perversa pode levar a atitudes inescrupulosas e, neste caso, colocar vidas em risco.

O tal primeiro sistema, supostamente neste caso, vê a pandemia como uma ameaça para a humanidade, dada a perda de milhares de vidas humanas num intervalo pequeno de tempo, preenchendo as imagens dos meios de comunicação de uma iconografia tétrica e suscitando a sensação de insegurança. Setores da economia vêem essa perspectiva, portanto, como uma vertente perdedora financeiramente, no bom sentido hiperamericano, em detrimento de um olhar humanista e solidário para a questão. Em sendo assim, o isolamento social seria um desespero irracional, com prejuízos de longo prazo.

O segundo sistema veria a mesma calamidade como uma oportunidade, visto que, abordada de forma supostamente racional (quanto aos negócios), o cálculo é de que os números das mortes são baixos relativos ao contingente populacional, restando ao fim do processo de preservação um prejuízo maior do que os eventuais ganhos se continuar girando a máquina da economia. Trata-se de uma interpretação canhestra, claro, mas que corre à boca dos financistas glutões que se aboletaram nas estruturas de poder no Brasil. Ao fim, calcula-se, aos que restarem da pandemia, que serão absolutíssima maioria na casa 99%, no médio prazo já serão sentidos mais os prejuízos econômicos que as perdas humanas.

A maior parte dos brasileiros, inclusive, sequer conhecerá diretamente uma vítima da doença, o que aguça a sanha dos economistas e empresários, e políticos que com eles calculam seus projetos de poder, contra a única medida preventiva que até o momento tem contido a pandemia no Brasil.

Isto posto, Bolsonaro, menos louco que parece, faz o cálculo baseado no segundo sistema, possivelmente orientado por sua equipe econômica ultraliberal, projetando ganhos políticos no médio prazo ao assumir os prejuízos imediatos como parte do processo. Daí inferir-se não ser impossível que Bolsonaro se fortaleça até meados de 2021, quando puder dizer ao povo brasileiro que, em vão, tentou protegê-lo da debacle econômica. Se ela, aquela altura, estiver mais sentida do que vem sendo a pandemia até agora, ele leva a narrativa. E já restarão apenas um ano e meio para as eleições.

O cálculo é estratégico, baseado em cânones. Bolsonaro não é louco. 

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