O Rio de Janeiro tem jeito

"O Rio tem jeito, tem forcas populares, tem valores democráticos muito difundidos, tem lideranças tradicionais e novas lideranças, tem capacidade de reconstruir uma força de esquerda", diz o sociólogo Emir Sader

Além de Benedita da Silva (PT), o Rio tem outras duas candidaturas do campo progressista: Martha Rocha (PDT) e Renata Souza (PSOL)
Além de Benedita da Silva (PT), o Rio tem outras duas candidaturas do campo progressista: Martha Rocha (PDT) e Renata Souza (PSOL) (Foto: Ederson Casartelli)
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O Rio de Janeiro se encontra numa situação deplorável, do ponto de vista das autoridades públicas e da situação econômica e social em que se encontra. O governador sofre impeachment e seu vice tem acusações de corrupção não menos graves que ele. O prefeito está em processo de impeachment.

Não há autoridade pública acima de qualquer suspeita nem no estado, nem na sua capital, enquanto o povo carioca sofre as consequências de uma série de governos incompetentes e corruptos. Nem continuidade houve entre os governos, quase nenhum terminou seu mandato.

Moreira Franco, Marcelo Alencar, Garotinhos, Sérgio Cabral, Wilson Witzel – todos eles envolvidos em corrupção, vários ainda presos. Benedita da Silva é a única que foi governadora do estado, mas tem uma imagem completamente diferente dos outros, por isso é uma candidata que pode chegar a ganhar as eleições para a prefeitura da capital.

O Rio de Janeiro tinha uma tradição popular de esquerda. O Lula sempre venceu no Rio, a própria Dilma triunfou sobre o Aécio em 2010. Mas essa tradição só teve tradução no governo do Brizola, nunca mais se reproduziu.

Uma cidade que foi, durante tanto tempo, capital do Brasil, produziu uma estrutura social vinculada à administração pública e muito fragmentada, sem peso importante das estruturas produtivas. Os sindicatos e o movimento sindical nunca tiveram o peso que tem em São Paulo. Não há um setor social com peso determinante no conjunto da sociedade. 

O Rio se caracterizou sempre por fortes movimentos sociais, dos negros, das comunidades da periferia, dos jovens, das mulheres, dos artistas, dos intelectuais, dos estudantes, com grande capacidade de mobilização popular. Nestes últimos anos, especialmente desde o golpe contra a Dilma, esses movimentos recuperaram grande vigor. O Rio foi cenário de grandes concentrações populares. 

Esse clima, com a quarentena, não pôde ter continuidade e tampouco se traduz no cenário eleitoral. Crivella era o favorito, tanto por se candidatar à reeleição em uma campanha curta, pela internet, sem concentrações populares, contando com o apoio dos Bolsonaros e dos evangélicos. A campanha de denuncias contra ele, em que a Globo tem um papel central, fez com ele despencasse nas pesquisas, distanciando-se do Paes e em empate técnico com a Marta Rocha e a Bené, com forte tendência de queda. Seria uma grande derrota do Bolsonaro no Rio.

O Paes, comparado com os outros governantes do Rio, tem uma imagem menos ligada à corrupção, fez um mandato razoável como prefeito e se aproveita da queda do Crivella para se reafirmar como novo favorito. Conta com a possibilidade de, em um segundo turno, ter menos rejeição e contar com os votos contra o Crivella.

A esquerda não se apresenta unificada, como parecia que poderia acontecer. Freixo retirou sua pré-candidatura, por ter dificuldade de ser aprovado mesmo dentro do PSOL. O PT propôs uma candidatura unificada da esquerda, mas o Psol lançou uma chapa pura, com candidatos a prefeito e vide, o PDT manteve a candidatura de Marta Rocha e o PSB a apoiou. O PT lançou a Bené, que conta com o apoio do PC do B. Marta Rocha está estacionada nas pesquisas, Bené cresce, mas essa divisão pode impedir que a esquerda chegue ao segundo turno.

Seria uma pena, porque uma candidatura de esquerda no segundo turno mobilizaria muita gente nas ruas, apesar da quarentena. E o Rio tem condições de eleger um prefeito de esquerda e fazer um bom governo, de novo estilo, democrático, apoiado diretamente no conjunto de forcas progressistas que animaram as mobilizações dos últimos tempos no Rio.

O Rio tem jeito, tem forcas populares, tem valores democráticos muito difundidos, tem lideranças tradicionais e novas lideranças, tem capacidade de reconstruir uma força de esquerda. Não deveria perder esta oportunidade de reafirmar que o Rio tem jeito.

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