O “risco Brasil”: reformas em um país marcado para morrer

Como ficará tudo isso visto do futuro próximo? Quando o golpe chegar a cavalo, em 2022 - violência, assassinato, silêncio, aquilo que já existe para boa parte do povo, de modo crescente - onde estará o “risco Brasil”?

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O país está sendo metido em uma guerra civil de um lado só, o que costumeiramente chamamos de golpe militar. Enquanto isso, nossa elite e seus representantes na imprensa deixam clara toda sua irresponsabilidade ao enfatizarem o chamado “risco Brasil”.

Para alguns, a ditadura já começou. Para os que lutam ao lado de quem produz comida, para os camponeses do MST, para as lideranças indígenas assassinadas em seu próprio território, para a periferia sob a mira, agora, não necessariamente das balas, mas do descaso da saúde pública, muito mais eficaz, a repressão ditatorial está em curso.

E que não se esqueça: nossa elite é colonial. Não se trata de abstração, mas de realidade cotidiana. Está em todos os jornais, todos os dias. O Brasil importa armas para clubes de tiro e certa elite financista está discutindo reformas. Passaram, aliás, do uso do termo "custo" para "risco Brasil", intensificando o grau da chantagem como sequestradores que tivessem o país em cativeiro. Há um genocida no poder, e os representantes pagos da elite dizem nos jornais que o núcleo militar torna o governo razoável. A economia parece dar sinais de recuperação.

Quando falamos que temos uma elite de saque, não é conversa: é um fato. Vamos a alguns deles.

Lembro-me do momento em que sairia necessariamente no Jornal Nacional o grampo do Jucá: “com Supremo, com tudo”. Pensei: como seria a matéria? Pois bem. A matéria foi cautelosa, assustada. A emissora já havia se empenhado em colocar Temer no poder e destruir a imagem do Partido dos Trabalhadores. Destruir a imagem em uma época de primazia da imagem. Por exemplo: sempre que aparecia Lula, surgia no referido telejornal tubulações e canos descendo ao subsolo, uma imagem de pesadelo, e deles caíam notas sobre notas de dinheiro. Era um desenho computadorizado, o que eles chamam de “arte”, que se repetia sempre que eram mencionados os nomes das figuras mais importantes do PT. O que aconteceu? Em um bar, ouvi de um senhor, sentado sobre a banqueta e curvado sobre a estufa como um mole ponto de interrogação, que “esses caras roubam tanto que deve ter um cano que leva o dinheiro direto na casa deles”. A imagem havia se fixado nele, como um sonho não resolvido.

No dia em questão, o JN mostrou a reportagem de Jucá. O golpe se delineava. E, então, a mágica: o jornal mostraria a partir dali uma série de reportagens sobre a escassez e a miséria na Venezuela, a falta de papel higiênico, que parece ser para nós um símbolo de instabilidade desesperada, como se a destruição do progresso não trouxesse “o homem é o lobo do homem”, mas um aspecto bestial muito mais simples, menos violento, mas que demonstrasse nossa animalidade em toda sua miséria.

Mas não era só isso. Vejam no dia, recuperem a imagem. O mapa da Venezuela foi esticado ligeiramente, pintado com as cores respectivas de sua bandeira. Assim, fora de proporção, parecia-se ao próprio mapa do Brasil. De um modo articulado, para passar despercebido por nossa consciência, o Jornal Nacional produzia imagens e um sonho que diziam: “Calma. Também não nos apressemos. Afinal, o Brasil pode virar uma Venezuela”.

Essas são as atitudes da elite e de sua tropa de choque. Não é uma abstração, não é uma teoria descolada da realidade. Não estamos especulando, produzindo jargões sociológicos. É um fato, demonstrado tanto lá quanto agora.

Na Folha de São Paulo de segunda-feira de carnaval, 2021, a matéria diz: “Saiba como fugir do ‘risco Brasil’ e diversificar investimentos no exterior”. “Para fugir do do chamado ‘risco Brasil', especialistas aconselham que brasileiros invistam direta ou indiretamente no exterior, ou mesmo mantenham uma conta com reservas lá fora”, diz o artigo. E acrescenta: “Além disso, com a queda dos juros, o Brasil perde vantagens em relação a determinados países, onde os investimentos são menos arriscados ou pagam mais.”

Será preciso dizer mais alguma coisa? Lembrem-se de que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tinha uma conta no paraíso fiscal das Bermudas. E sabemos que, com a flexibilização legal operada por FHC ou com o REFIS de Temer, o que era praxe se tornou mais fácil, mais legal - mais, digamos, operacional.

Pois é isso. Precisamos nos vacinar, porque seremos vítimas, como sempre, de uma avalanche de má-informação. Ouviremos das necessidades de reformas, tributária e fiscal, todos os dias até que, como uma criança mimada, nos façam fazer suas vontades. Até que nos façam sonhar, até que entrem em nossos pesadelos.

Não é uma abstração, é um fato: nossa elite tem uma ganância ilimitada e nos odeia - sejamos pobres, remediados ou classe-média. Não se engane: para eles, somos nós o “risco Brasil”. As leis baseadas nesse “risco” são todas para nós: da tributária à fiscal, à previdenciária, à trabalhista. Não passa pela cabeça deles que o custo alto vem de más rodovias, da ausência de trens, de água encanada, saneamento, de obras públicas e da desigualdade sistêmica. Não passa por suas cabeças que o "risco Brasil" é o risco não metafórico de milicianos no poder e armados. Porque o custo e o risco, para eles, vem exatamente do público, que organizado pode lhes fazer frente.

Enquanto o presidente assassino decreta liberação de armas para seus adeptos; enquanto os militares são lotados à dezena de milhar nos cargos públicos; enquanto se assanha os milicianos, e se prepara o golpe para 2022, já previamente traçado e explicitado, os representantes da elite nos torturam com o macilento e doloroso “risco Brasil”. Pois são eles, em realidade e fora do pesadelo que constroem todos os dias com imagens, são eles o nosso risco. Enquanto um aponta uma arma importada para nossa cabeça, outro justifica a violência, dizendo: “você entende? Preciso fazer uma reforma na sua casa, que ficará perfeita, quando lhe arrancarmos um a um todos os cômodos. Não há goteiras na cozinha em uma casa sem cozinha”.

Como ficará tudo isso visto do futuro próximo? Quando o golpe chegar a cavalo, em 2022 - violência, assassinato, silêncio, aquilo que já existe para boa parte do povo, de modo crescente - onde estará o “risco Brasil”?

Como nós somos o risco, o risco estará controlado. Assim ao menos eles creem. É preciso despertar. Porque, como disse Simone Weil, nada é pior do que morrer verdadeiramente, porém dentro de um sonho.

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