O romance da ditadura brasileira

Celso Marconi Lins, o maior e melhor crítico de cinema do Recife, ídolo da geração que viveu no Recife sob a ditadura, escreve sobre "A mais longa duração da juventude"

Celso Marconi Lins, o maior e melhor crítico de cinema do Recife, ídolo da geração que viveu no Recife sob a ditadura, escreve sobre “A mais longa duração da juventude”. Celso Marconi vai para a altura de seus 89 anos. Ele é uma prova viva da longa duração da juventude narrada no romance. Intelectual lúcido, inquieto, leitor voraz, em permanente luta e interrogação do mundo. Quem duvidar, olhe o que escreve o mais jovem crítico de cinema do Recife.

Os brasileiros te saúdam, Celso Marconi. Viva a tua vida livre!

A MAIS LONGA DURAÇÃO DA JUVENTUDE

Celso Marconi Lina

Terminei minha tarefa de carnaval agora às 23 horas da segunda-feira e estou encantado. Li todo, li as 318 páginas do livro de Urariano Mota, “A mais longa duração da juventude”. A primeira coisa que quero dizer é que Abdias Moura tem que ampliar o seu livro sobre livros que falam do Recife e deverá fazer um novo capítulo inclusive porque – quero dizer – eu que já não gostava mais do Recife voltei a admirá-lo intensamente.

Eu fiquei sabendo com profundidade que durante os anos da ditadura havia organizações bem junto d’agente lutando contra a ditadura. Eu então pensava numa esquerda muito menos ativa e mais burocrática. E mesmo quando aconteceu a traição de Cabo Anselmo e a morte de Soledad Barrett e outros companheiros, mesmo assim senti como se fosse algo no interior.

Urariano não nos contou simplesmente uma estória, mas montou um grande painel – e jogou com duas épocas indo dos anos 1970 até 2016 – que mostrou toda a força de um Recife revolucionário. Embora tudo aconteça de maneira bem alegre. Inclusive naquela época a gente que fazia parte do Tropicalismo tínhamos a ideia de que éramos considerados alienados e com a discussão que está no livro vemos como um dos participantes – Vargas – comenta de forma corretíssima a música e poesia de Caetano.

Esse painel que temos – concordo totalmente – daria um grande filme num estilo como o do italiano Luchino Visconti e no Recife tem vários cineastas que poderiam fazê-lo, mas eu sugeria a Camilo Cavalcante e sugiro a ele que procure Urariano e busque adquirir os direitos autorais, antes de outros.

Embora não conte uma estória, conta várias estórias e várias sequências fortíssimas como a de Vargas desesperado quando sabe da traição de Daniel e a de Joana indo a pé do bar Pérola até um espaço na Imbiribeira com o base e lá se juntarem amasiarem. Pra mim foi uma leitura de certa forma muito íntima, pois minha vida profissional é praticamente toda nesse espaço central e lugares do Recife. Certamente eu convivi com essas pessoas mesmo anonimamente e até tive uma vez na casa do Daniel \ Cabo Anselmo. Eu trabalhava na Guararapes no INPS de manhã e de tarde no Jornal do Commércio e ia muito no bairro do Recife marcar filmes para o Teatro do Parque e ia a bares como a Portuguesa, embora raramente ficava em bar até de manhã.

“A mais longa duração da juventude” além de tudo não é só um romance político, mas um romance muito bem realizado tecnicamente e uma leitura fundamental mesmo para quem gosta de literatura com profundidade.

Olinda 4. 3. 2019

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