O ser-do-cuidado

De que valeria a pena sobreviver à morte ou ao desaparecimento das pessoas queridas, se não fosse para cuidar das outras, que ainda estão vivas, precisando de nossos cuidados?

(Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
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A expressão "ser-do-cuidado" foi cunhada a partir da reflexão ética de filósofos como Emanoel Levinas e Martin Buber. No Brasil, tornou-se tornou conhecida através dos trabalhos de Leonardo Boff, que tem um livro intitulado: "Saber cuidar". O ser-do-cuidado se opõe, na visão desses autores, ao ser-do-trabalho. Enquanto este último exprime um princípio masculino e produtivista ou pragmático, o primeiro é de índole feminina e exprime a preocupação do cuidado de uns com os outros e a natureza. O ser do desempenho corresponde à sociedade industrial-fabril moderna. O ser do cuidado, corresponde a uma sociedade pós-industrial. Um exprime o chamado "animal laborens", o operário. O outro, o cidadão ou a cidadã do mundo.

Quando a gente vê uma pessoa que se preocupa em cuidar do outro, em preservar-lhe a vida, o bem-estar, a longevidade, nós localizamos esta pessoa no grupo do ser-do-cuidado, da cidadania planetária, do interesse gratuito pela humanidade. São pessoas gentis, bem-intencionadas que querem contribuir para a "boa vida" de seus amigos, conhecidos, parentes e o mundo em geral.

Eu conheço uma pessoa assim. Muito boa, atenciosa, sempre pronta a cuidar de outras pessoas, sejam ou não da família. Pessoas valiosas, de uma alma de ouro. Não desejam que os outros se autodestruam, por nenhum motivo. Mas há que se considerar porque as pessoas, às vezes, pensam mais nas outras do que em si própria.

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De que valeria a pena sobreviver à morte ou ao desaparecimento das pessoas queridas, se não fosse para cuidar das outras, que ainda estão vivas, precisando de nossos cuidados? - A vida humana neste planeta e nesta época pandêmica e individualista em que nós vivemos, só faz sentido - pelo menos, para mim - se eu puder ajudar aos outros: a família, aos amigos, e à grande maioria dos que sofrem, passam fome, sem emprego, renda, moradia, saúde e educação.

A minha cota de satisfação e realização pessoal (para não falar em vaidade) já está suficientemente atendida, para que eu possa agora em pensar em ajudar as pessoas que eu amo, que eu admiro, que de um jeito ou outro - ainda precisam de mim.

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Esse é o sentido que encontrei para o resto da minha existência

(dedicado a uma amiga preocupada em me cuidar).

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Ps. O ter "Cuidado" (Sorte) foi cunhado por Heidegger em Ser e Tempo para designar um "existencial" do ser-aí (Dasein). O ente que nós mesmos somos, o "ser-aí é cuidado". O cuidado é uma determinação ontológica (portanto, existencial) de nós mesmos: que nos ocupamos com as coisas, nos preocupamos com os outros (seres-aí) e cuidados de nós mesmos. 

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