O silêncio das panelas

E no êxtase da euforia inebriante, não perceberam que os muitos gritos, panelas e buzinas estavam comemorando a queda de uma presidente sem crime de responsabilidade; passado o carnaval golpista, veio a ressaca da quarta-feira de cinzas, montada numa realidade corruptiva, entranhada nas profundezas de um governo com rumo e diretrizes estabelecidos por interesses

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Em todos os tempos, sempre que se pretendeu avaliar o desempenho de qualquer governo, de qualquer país, foi naturalmente inevitável se falar na evolução da economia, no perfil da política externa, e essencialmente no continente latino americano, na performance das políticas sociais. 

Mas, no Brasil atual, os cidadãos que bateram muita panela foram induzidos/conduzidos a enxergar durante alguns anos só e somente só, as questões éticas. De repente todo o noticiário político da imprensa tupiniquim concentrou todos os holofotes nos delitos e desvios éticos, promovendo intolerância e sentimentos de rancor e ódio, que anestesiaram sensibilidade social, trucidaram senso de justiça, extirparam.a consciência democrática de muitos brasileiros

De mãos dadas, intolerância e sentimentos tangeram muitos brasileiros inteligentes para as ruas, convictos que estavam gritando pela ética na política. Das sacadas dos apartamentos chiques, o barulho revoltado das panelas, na consciência de que estavam erradicando a corrupção no país.

E no êxtase da euforia inebriante, não perceberam que os muitos gritos, panelas e buzinas estavam comemorando a queda de uma presidente sem crime de responsabilidade.

Passado o carnaval golpista, veio a ressaca da quarta-feira de cinzas, montada numa realidade corruptiva, entranhada nas profundezas de um governo com rumo e diretrizes estabelecidos por interesses, sem qualquer harmonia com as ansiedades e necessidades do povo brasileiro.

Embriagados pelo oba-oba do fervor cívico, os paneleiros nunca se incomodaram com as arbitrariedades criminosas do super-juiz, muito menos com as tendenciosidades sem rédeas do procurador-Geral, que investiga vazamentos só de um lado, configurando, sem qualquer inibição, a miopia seletiva da justiça. Não sentiram sequer o odor fétido exalado das delações odebrechtianas, que expuseram os porões infectos de um governo que já nasceu corrupto.

Recentemente, em pronunciamento conjunto com o presidente do Senado, Renan Calheiros e da Câmara federal, Rodrigo Maia, o presidente MT falou com insistência em medidas de combate à corrupção. Os dois parlamentares, como se sabe, carregam nas costas graves denúncias de desvios éticos e o presidente, além de constar nos esgotos da Odebrecht., é auxiliado pelos ministros, “Velhinho” e “Angorá” e apoiado pelos partidos de“Gripado", "Caju" e "Mineirinho".

A grande curiosidade é que, durante todo o pronunciamento, em pleno domingo, não se enxergou nas ruas brasileiras um único resíduo daquele fervor cívico, nem se ouviu um mísero tilintar de panelas.

 

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