O teu casamento vazio se quebrou por amor

O certo é que as relações não se suportam por muito tempo se modeladas por valores de consumo, de concorrência, de ganhos e de perdas, sem a transcendência de uma causa capaz de catapultar os dois para fora e além de cada um, sempre promovendo o retorno ao outro com paixão e saudade

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Querido Luis Benedito

Eu soube de que o teu casamento acabou, meu amigo. Não pontuarei com exclamação após o verbo acabar conjugado no tempo passado. Se o fizesse não escaparia do exercício iníquo do julgamento de ti e de tua ex companheira.

Nego-me ao juízo, este modelo de pedradas sobre os telhados da honra dos outros.

Contudo, soube dos imensos ruídos que pessoas de tua família e, principalmente, de membros familiares da mãe de tuas filhas. E dela, e da ameaças e esperneios dela, notadamente.

Pelo que soube sem nada perguntar e sem me interessar, já que não sou envolvido nem fui chamado para nada, felizmente, pessoas do lado de tua ex parceira se propuseram a te dar coças depois de vereditos furiosos vertidos dos tribunais das lamúrias dela, das filhas de vocês e das pesadas cobranças a um trabalhador sem direitos a atrasar minutos do horário “estipulado” da tua chegada em casa.

Soube de teus sacrifícios para lavar roupas e de cozinhar para familiares e visitantes aos finais de semana e, depois do rompimento, saires de casa deixando todos os bens para a ex esposa e para as filhas,  recusando teu direito à moradia, já que praticamente levantaste a casa de vocês sobre um terreno, construindo do nada o lugar onde todos merecem reclinar cabeças.

Soube da presença ativa de uma jovem que aportou em tua alma. Esta parece renovar teu prazer de viver e de lutar, já que és imensamente envolvido nas questões da emancipação e libertação dos negros e das negras, desde a colonização vítimas de brutais explorações.

Os passarinhos que pousam aqui em minha janela piaram que agora contas com uma companheira de teu mesmo campo de ideias e de lutas, ao contrário da situação anterior em que eras uma espécie de boi de carga, que deveria puxar todos os pesos sem direito a berrar, sem solidariedade, sem consciência e sem participação.

Há anos presto atenção nas relações dos chamados casais. Antes eram somente os ditos heterossexuais, hoje se formam casais também com pessoas do mesmo sexo.

Sinceramente não tenho muita experiência de observação de como se comportam os casais homoafetivos. Só observei num caso mais próximo de mim, o de um casal homossexual numa cidade vizinha. O que vi foram manifestações tão ciumentas, mesquinhas, competitivas e dominadoras como as dos heterossexuais.

Entre os casais há uma espécie de reprodução do modelo econômico e social dominante na nossa sociedade.

Como na sociedade, sempre há alguém nas relações que se alça ou é alçado/a ao posto tirano da dominação em cujo mundo não há racionalidade, inteligência argumentativa nem respeito. Neste caso, então, as brutalidades são como invasões revestidas de violência. Os casais pensam que, pelo fato de serem sócios um do outro, empresários sem CNPJ,  a outra pessoa do par não é entendida como ser emancipado, independente, autônomo, original na sua forma de pensar, ser e agir, até para ser livre no relacionamento saudável, construtivo e solidário.

Envoltos numa pandemia de frieza, culpas e juízos as pessoas da relação buscam até se ampararem nas palavras ritualistas da cerimônia de casamento, inventadas por que nunca casou nem enfrentou as penas de uma sociedade de duas pessoas,  que tende ao fracasso rapidamente.

Amarradas pelos juízos familiares e sociais os casais creem infundadamente nas promessas vazias e cerimonias de festas de casamento, feitas muito mais para as visitas e para a sociedade, já em pleno ímpeto comercial. As promessas do rito de casamento tendem a ser tábuas automáticas de salvação, principalmente a “até que a morte os separe”. Sem reflexão e sem inteligência os casais passam a se suportar, sem prazer e sem respeito, à espera da morte, até que algum evento desnorteie essa tolice.

O fato é que as tensões fazem dos casais lutadores de ringue, num processo entediante e doentio sem fim.

Brigam, se controlam, se patrulham e se desrespeitam. Reproduzem nas relações o ódio ativo na sociedade, dentro de cujo sistema alguém atua sob escravidão, como foi o teu caso, meu amigo. Mas, na grande maioria, quem se humilha e aceita as imposições desumanas copiadas do modelo capitalista inconsciente são as mulheres.

O interessante, e triste, é que na azedume das relações até o rompimento, as pessoas se separam e continuam a tentativa de destruir o outro, caluniando-o covardemente, inclusive usando filhos e filhas como moedas de trocas para as chantagens. Nada mais diabolicamente semelhante ao capitalismo nas suas guerras de concorrência e depredação do outro, torpedeando todas as suas iniciativas, tentando quebrar as asas dos pássaros para que não voem.

Noutras palavras, as pessoas se separam da mesma maneira como sempre viveram uma com a outra: com profundo e destrutivo desrespeito.

Claro, há casos de muita civilidade. Nesse sistema os casais vivem bem até que, se for o caso, se separam com acertos justos, sem usar filhos e patrimônio para destruir o outro.

Nesta perspectiva as pessoas vivem para e na luta por um mundo novo, sem injustiças, sem tiranias e sem dominação. Quando se separam o fazem com a mesma dignidade do respeito ao ser humano da outra pessoa, geralmente alguém com quem comunga de ideias e de práticas que as põem na mesma marcha libertadora.

Logo, as relações são conduzidas não somente por sentimentos, mas por valores morais. Na primeira ordem que descrevi acima a moral competitiva é destrutiva, funcionando como bomba relógio prestes a explodir. Neste último a moral é a fraternidade e o respeito mediado por uma causa maior dos que os dois.

O certo é que as relações não se suportam por muito tempo se modeladas por valores de consumo, de concorrência, de ganhos e de perdas, sem a transcendência de uma causa capaz de catapultar os dois para fora e além de cada um, sempre promovendo o retorno ao outro com paixão e saudade.

De modo, meu amigo Luis Benedito, que parece ser este o modelo que guia a tua vida. Se for este o mesmo da guria que se aprochega de teus pelegos, aí vocês construirão outro processo de relacionamento.

Cuidem-se para não arrastarem para dentro da relação nova os vícios, a doença, histerias e demências da relação anterior.

Abraços críticos e fraternos.

Dom Orvandil.

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