O último mestre

Para mim, além do que se diz e dirá, restará para sempre a memória de um humor afiado e contundente, um olhar afetuoso para a vida e as gentes, uma inquietude suave e incessante. Antonio Candido foi a única pessoa que eu tratava de ‘senhor’ com prazer e sem solenidade. Foi talvez o último grande senhor deste meu, deste nosso tempo

Para mim, além do que se diz e dirá, restará para sempre a memória de um humor afiado e contundente, um olhar afetuoso para a vida e as gentes, uma inquietude suave e incessante. Antonio Candido foi a única pessoa que eu tratava de ‘senhor’ com prazer e sem solenidade. Foi talvez o último grande senhor deste meu, deste nosso tempo
Para mim, além do que se diz e dirá, restará para sempre a memória de um humor afiado e contundente, um olhar afetuoso para a vida e as gentes, uma inquietude suave e incessante. Antonio Candido foi a única pessoa que eu tratava de ‘senhor’ com prazer e sem solenidade. Foi talvez o último grande senhor deste meu, deste nosso tempo (Foto: Eric Nepomuceno)

(originalmente publicado no Nocaute)

Claro que agora todos dirão, e com toneladas de razão, da importância da sua obra, de como foi talvez o último dos grandes intérpretes desta nação esfarrapada, do seu exemplo mineral de uma dignidade cada vez mais escassa.

E também será muito o que se dirá da sua importância como crítico literário, do seu olhar límpido e certeiro que fez com que fosse um dos descobridores de gente como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa.

E, claro, de seu papel como professor que ajudou a formar gerações de estudiosos de primeiríssimo nível, e de como foram e são essenciais livros como 'Os parceiros do Rio Bonito', 'Literatura e Sociedade' ou 'Formação da Literatura Brasileira', e haverá menções aos prêmios elevadíssimos que foram concedidos a ele, como o Camões, o Machado de Assis, da mesma Academia Brasileira de Letras onde ele jamais quis entrar, ou o Alfonso Reyes, do México, talvez o de maior prestígio na América Latina.

Não faltarão centenas de vozes a destacar sua coerência, sua militância política de uma limpidez insuperável – comparável, talvez, à de outros, mas insuperável sem dúvida – e sua pertinaz defesa da esperança mesmo em momentos de desesperança como o que vivemos hoje neste país esfrangalhado.

Dizem suas filhas que morreu lúcido, e há que se acreditar nisso, pois lúcido foi ele a vida inteira, e dessa lucidez disparou relâmpagos fulgurantes que nos ajudam a entender como somos o que somos.

Por mais que jorrem elogios à sua vida, sua obra e sua trajetória, nunca serão suficientes para descrever quem ele foi. Ele, que só se dizia 'crítico literário', mas foi muito, muito mais. Terá sido o último dos grandes mestres do nosso tempo, o último esmiuçador da trajetória do nosso país, um olhar que existiu em Sérgio Buarque de Hollanda, em Gilberto Freyre, em Caio Prado Junior, em Darcy Ribeiro, em Celso Furtado, enfim, um olhar que já não existe mais.

Dirão tudo isso e muito mais.

Para mim, além do que se diz e dirá, restará para sempre a memória de um humor afiado e contundente, um olhar afetuoso para a vida e as gentes, uma inquietude suave e incessante.

Foi a única pessoa que eu tratava de 'senhor' com prazer e sem solenidade. Foi talvez o último grande senhor deste meu, deste nosso tempo.

* Eric Nepomuceno é jornalista, escritor, foi correspondente internacional e é tradutor, entre outras, da obra de Gabriel García Márquez.

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