O único tucano que não perdeu a vergonha na cara

Se Samuel Moreira (PSDB/SP) vier a refletir bem – e parece ser um homem que se permite refletir e que tem coragem –, perceberá que está no partido errado e mudará de legenda

Se Samuel Moreira (PSDB/SP) vier a refletir bem – e parece ser um homem que se permite refletir e que tem coragem –, perceberá que está no partido errado e mudará de legenda
Se Samuel Moreira (PSDB/SP) vier a refletir bem – e parece ser um homem que se permite refletir e que tem coragem –, perceberá que está no partido errado e mudará de legenda (Foto: Eduardo Guimarães)
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O tucano paulista Samuel Moreira da Silva Junior teria tudo para ser apenas mais um componente do dito “baixo clero” da Câmara dos Deputados. Eleito deputado federal no ano passado, foi deputado estadual por dois mandatos – eleito em 2006 e em 2010. Em 2013, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Nascido em fevereiro de 1963 em Governador Valadares (MG), cresceu na cidade paulista de Miracatu, na região do Vale do Ribeira. Engenheiro Civil formado pela Universidade Santa Cecília, em Santos (SP), iniciou a vida profissional na antiga Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista (Sudelpa).

No final dos anos 1980, ingressou na Sabesp, empresa na qual ocupou cargos de gerência e foi superintendente em Registro, também no Vale do Ribeira.

Foi prefeito de Registro por dois mandatos consecutivos (1997 a 2004). Em 2005, convidado pelo então prefeito de São Paulo, José Serra, Samuel Moreira assumiu a Subprefeitura de São Miguel Paulista, bairro da Zona Leste da Capital com cerca de 400 mil habitantes.

O que há de especial com Moreira da Silva Junior? É o seguinte: dos 51 deputados federais do PSDB que analisaram vetos presidenciais nesta semana, 50 votaram a favor de derrubá-los. O único dissidente foi ele, que pediu permissão aos colegas para defender as ideias que eles abandonaram.

“O PSDB não pode se descaracterizar. É possível fazer oposição sem ser irresponsável com as contas públicas”

Anteriormente, Moreira da Silva havia votado a favor do fim do fator previdenciário e de outras pautas-bomba com que PSDB e setores do PMDB têm fustigado o governo Dilma. Porém, atitude recente desse parlamentar revelam que se votou errado e incoerentemente, teve coragem de enfrentar seu partido em peso em prol dos interesses do país.

O tucano justificou sua posição afirmando que é preciso distinguir a oposição à presidente Dilma Rousseff – incluindo a defesa de seu afastamento – e questões que afetam a sustentabilidade das contas públicas do País.

“Impeachment é uma coisa, o futuro da Previdência é outra”

Moreira da Silva dá a entender que poderia até ser favorável ao impeachment de Dilma, mas isso não se confunde com fazer o que o PSDB está fazendo, que é sabotar o Brasil de uma forma escancaradamente desavergonhada, inclusive votando contra medidas das quais o próprio partido foi autor quando governou o país, como o fator previdenciário.

Sobre ter votado em maio a favor do fim do fator previdenciário, o tucano explica que “naquele momento” não sabia que o Orçamento de 2016 seria deficitário, mas que, sabendo disso agora, desta vez decidiu não cometer o mesmo “erro político” de “ser contra só porque é uma proposta do PT”.

Não concordo com as posições políticas desse parlamentar, mas não deixa de ser um alívio ver que ainda há uma réstia de oposição responsável neste país.

Uma fala pública de Moreira da Silva mostra como é possível fazer uma oposição dura, mas mantendo a dignidade e a lealdade e pensando, antes de qualquer coisa, nos interesses do país.

Diz o parlamentar tucano:

“O PSDB tem feito oposição de forma muito dura, muito firme e convicta. Isso é uma coisa. A outra coisa é a sustentabilidade da Previdência Social, das contas do governo. Outro dia fiz um discurso mencionando que, dos gastos do governo, 71% são custeio e mais de 18% é com pessoal, ou seja, quase 90% do Orçamento. É preciso cortar no custeio. Não posso fazer um discurso assim e depois votar numa questão que pode aumentar o custeio da máquina. Fazer oposição, defender o impeachment é uma coisa, e o futuro da Previdência é outra”.

Por fim, é extremamente eloquente que dos 51 deputados tucanos que votaram os vetos de Dilma às “pautas-bomba”, só esse tenha tido o sentido de compromisso com o interesse público ao ponto de divergir dessa maioria esmagadora de seus pares.

Se esse deputado vier a refletir bem – e parece ser um homem que se permite refletir e que tem coragem –, perceberá que está no partido errado e mudará de legenda. Não que vá para um partido de esquerda. Não é essa a questão. A questão é o caráter do partido em que está.

O PSDB está sabotando o país como se não houvesse amanhã. O país vive uma situação dificílima nas contas públicas. Manter os vetos de Dilma a projetos que não só anulariam o ajuste fiscal já obtido como criariam ainda mais despesas era uma obrigação de qualquer parlamentar responsável.

O que o PSDB fez ao votar quase unanimemente para manter esses gastos irresponsáveis mostra que esse partido é uma ameaça à sociedade brasileira. É capaz de provocar um desastre ao país no âmbito de sua luta insana para retomar o poder.

Provavelmente devo discordar de praticamente todas as posições políticas do deputado Samuel Moreira da Silva, mas não posso deixar de louvar um político que deu uma aula de como se deve fazer oposição responsável.

Aliás, quero dizer que julgo oposição imprescindível para uma democracia. Se exercida com responsabilidade e boas intenções, ajuda o próprio governo e representa legitimamente o setor da sociedade que discorda da maioria. Se tivéssemos uma oposição composta só de pessoas como esse deputado tucano, o Brasil já estaria saindo da crise.

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