Obscuridade contagiante

O governo de Jair Bolsonaro, desde o início, nos gestos de mandar bala e nos apoiadores de quem se cercou, inoculou-se do vírus, mais peçonhento do que o da Convid-19

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Na modernidade ocidental, alguns historiadores, numa leitura apressada do período, consideraram a Idade Média como uma fase de trevas. Tratava-se de um erro, porque, na verdade, então se preparava a explosão de conhecimento que se manifestaria em seguida, no Renascimento. O lado sombrio em que se festejava a morte convivia, segundo Jules Michelet, com festas religiosas nas quais a alegria se expandia e contaminava as almas. Além disso, no auge do Renascimento, os militantes das Parcas também não deixaram de existir. Toda vez que alguém gritava “Abaixo a vida!” e ”Viva a morte!” lá se exibiam eles, os da escola de Tânatos, afeitos às perseguições, aos massacres e à repressão aos inimigos. Talvez por isso, o desejo de eliminar e retirar da cena política deu lugar aos regimes republicanos, com as Revoluções Americana e Francesa.

Cumpre reconhecer, no entanto, o caráter contagioso contido nesses intervalos em que a adesão à vida cede lugar à morte. A luz contagia. Frente a ela, queremos mais, como os banhistas, na praia, em dias de sol. Mas fenômeno semelhante se verifica na possibilidade das “noites eternas”, quando a magia do silêncio toma lugar nos espíritos a ponto de sufocar. 

O governo de Jair Bolsonaro, desde o início, nos gestos de mandar bala e nos apoiadores de quem se cercou, inoculou-se do vírus, mais peçonhento do que o da Convid-19. Na campanha eleitoral, associou-se ao líder de direita norte-americano que inventara uma forma de utilizar as mídias sociais para chegar à pessoa e difamar, manipular e fabricar adeptos contra os adversários. Agora se sabe que o mesmo Steve Bannon, com bons resultados de sua estratégia na Hungria, na Polônia, nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil, literalmente, roubou nos projetos em que investiu. Na cadeia, pagou fiança de cinco milhões de dólares por uma liberdade provisória. São as trevas contagiantes. Logo descerão outras.

No episódio da menina de 10 anos que se descobriu estuprada pelo tio ao longo de quatro anos – e engravidou, tivemos novamente a escuridão. Uma assessora da ocupante da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, conhecida pela agressividade, Sara Winter, veio a público para caluniar a vítima, não obstante cercada de carinho e solidariedade no ambiente feminino. Segundo a imprensa, estava a serviço, como assessora, da Ministra Damares Alves, porta-voz do lobby antiaborto não importam as circunstâncias. 

Mas o governo não se detém. Por incrível que pareça, conta com apoio de parcelas da mídia, a despeito de dissidências em relação a medidas tomadas, sobretudo no âmbito do comportamento do Presidente e de suas esquisitices. Na organização da proposta de orçamento remetida ao Congresso, não se hesitou em sacrificar a Saúde e a Educação para favorece as Forças Armadas, que viram crescer as suas perspectivas de recursos. A defesa da morte precisa de poder bélico. Convém sacrificar valores e condutas morais, se quisermos lhes proporcionar conforto. Nossos vizinhos que se acautelem.

Na Justiça... Bem, para que ir tão longe? O Supremo já se alinhou contra a “lista do Mendonça” e seu índex de pessoas “antifascistas”. E não há espaço para arrolar o conjunto dos apelos à morte. Eles se acham diante dos olhos, à disposição dos vampiros e dos fascistas que tanto saboreiam as taças de sangue.

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