Observações do que foram as eleições europeias

França à parte, é importante sentir que, quiçá e se Deus quiser, a onda fascista parece perder um pouco sua velocidade caótica, odienta e destrambelhada

O mister Cambridge Analytica, mesmo bravando que "o projeto de Europa unida morreu no domingo", partiu com pitadas de insatisfação de sua turnê que reuniu o circo de neofascistas do velho continente. No decorrer da semana passada, às vésperas das Européennes, em um congresso que mais parecia o prenúncio do apocalipse, Bannon advogou, ao lado da perigosa (porque muito bem articulada) fascista Le pen, que os partidos nacionalistas têm agora "o potencial para constituir um 'supergrupo' que poderia virar a segunda maior bancada no Parlamento Europeu". Atualmente estes partidos estão divididos em três grupos: ENL (extrema-direita), onde estão a RN e a Liga italiana, o CRE (nacional-conservadores), ao redor do PiS polonês, e o EFDD (várias tendências), que inclui o Partido do Brexit de Nigel Farage. "Isto exigirá senso político porque cada partido é diferente, mas poderiam conseguir. O mais importante é que esta massa crítica permita ter uma minoria de bloqueio", disse.

Apesar do sobressalto causado pela vitória do RN de Le Pen na França - o que de fato é assaz preocupante, dada a conjuntura política mundial -, deve-se reter do escrutínio a estagnação da porcentagem da extrema direita tanto na Europa de maneira geral como na França mais especificamente. O percentual do partido neofascista francês decaiu (a lista de Marine Le Pen recebeu 23,31% dos votos na França no domingo, 0,9 ponto percentual a mais que o partido do presidente Macron. Em 2014, o "Rassemblement National" obteve 24,8% dos votos).

Dos 751 lugares que serão ocupados pelos deputados europeus em Bruxelas, 23,9% serão ocupados pela frente PPE (Partido Popular Europeu), ou seja, pela direita republicana; já a centro-esquerda europeia, aglutinada na coligação S&D (Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu), por sua vez, ocupará 20,4% das cadeiras. A frente que a République en Marche de Macron escolheu para ser representada, a ADLE (Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa) obteve 14% dos votos. Uma grata surpresa foi o crescimento da coligação Verts/ALE (Verdes; Aliança Livre Europeia), que defende as causas ecológicas e climáticas, chegando em terceiro e segundo lugares na França e Alemanha, respectivamente, e conseguindo alavancar um expressivo quarto lugar na Assembleia Legislativa da União Europeia com a 9,2% dos votos.

Portanto, nesse diapasão, é evidente que os 58 lugares (dos 751) que terão o desprazer de acomodar as nádegas racistas, misóginas e anti-imigração da coligação ENL (Europa das Nações e Liberdades) denotam uma certa e bem-vinda inexpressividade da coligação de extrema-direita nessas importantes eleições europeias. Contudo, como bem pontuou Bannon (infelizmente), é preciso esperar a movimentação dos três grupos mais à direita que estarão na Bélgica. Caso consigam se entender e criar uma coalizão no parlamento, eles poderiam, assim, tornar-se uma expressiva bancada na casa. O sinal de alerta, então, poderá ser ligado. De qualquer forma, esperava-se que, com a presença do guru Bannon em solo europeu pouco antes do escrutínio, os neofascistóides do ENL angariariam mais assentos.

Ao analisarmos a situação francesa mais de perto, resta preocupante, pois, a vitória do Partido de Le Pen, embora se constate a estagnação dos votos já supracitada. Logo após estar a par de sua vitória, a organizadora mor do pesadelo europeu foi em rede nacional para ordenar a dissolução da Assembleia Nacional francesa, direcionando seu discurso diretamente a Macron com o argumento de que, como o povo francês optou pelos fascistas do RN para a representá-lo no legislativo europeu, o presidente francês não teria mais maioria na casa dos deputados nacionais. Um horror. Um perigo. Uma afronta. Mas o que esperar desse ser senão autoritarismo, preconceitos mil e inclinações ditatoriais? Fascista não gosta de processos eleitorais democráticos. Se Marine quiser maioria nacional, que procure mais votos nos campos franceses empestados de aposentados reacionários. Espero, porém, que fracasse inexoravelmente.

França à parte, é importante sentir que, quiçá e se Deus quiser, a onda fascista parece perder um pouco sua velocidade caótica, odienta e destrambelhada. Pelo menos essa é a sensação que se tem quando da análise do processo político-eleitoral europeu deste último domingo. Que o mister Cambridge Analytica faça suas malas e recomece a pensar novas fake news, já que as atuais não fizeram tanto efeito no imaginário do velho continente.

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