Ogros bolsonitas e a razão kantiana

Bolsonaro, através de seu discurso (des) temperamental boina-verde tupiniquim, é um exemplo factual de como não se deve pensar e agir no domínio de qualquer ética que tenha a razão pura e prática, no sentido kantiano, como seu fundamento moral

Pensar em Política é sobretudo pensar na sua dimensão ética, tanto nos seus aspectospráticos quanto nos seus fundamentos racionais, o que não se vê em nossos representantes políticos atuais, pelo menos aos olhos dos menos exaltados. E o que é mais preocupante ainda, um dos candidatos a presidente da república em outubro de 2018, Sr. Bolsonaro Messias, através de seu discurso (des) temperamental boina-verde tupiniquim, é um exemplo factual de como não se deve pensar e agir no domínio de qualquer ética que tenha a razão pura e prática, no sentido kantiano, como seu fundamento moral.

Esse sujeito candidato foi inventado em uma galeria de espelhos na qual circulam a decrepitude moral e de caráter de seus asseclas, retroalimentando-se naquilo que há de mais primitivo na constituição do psiquismo do homem: a união identificatória entre eles através da projeção interior do ódio, da inveja, da agressividade verbal e de fato, do rancor; uma verdadeira posição subjetiva esquizo-paranoide, alvejando a maioria dos brasileiros diferentes deles, que circulam fora de seu fórum especular, aquilo que pode ser encontrado, lido e estudado na obra da psicanalista austríaca, naturalizada inglesa, Melanie Klein (1882-1960).

Tal bando de ‘ogros’, na impossibilidade de se constituir através da racionalidade dialetizável com a moral prática, sucumbe-se espetacularmente à sua própria morte subjetiva in vitro, destituído que está de uma boa vontade. Grosso modo e sintetizando, seu lema principal e sua postura moral é: ‘destruir os diferentes de nós’. Entretanto, como deveria ser do conhecimento do bando, a tendência das formações patológicas fixadas nos espelhos tendem a destruir a si mesmas na aglomeração de imagens do outro: ‘ou eu ou o outro’; não lhe sendo permitido ‘o eu e o outro’. Portanto, esse clã é hetero e autoagressivo em potencial, apesar da ignorância latente que o conduz juntamente com a ignorância manifesta oportunista de seu líder arcaico. O seu comandante verde sabe muito bem como conduzir o seu rebanho, incitando-o a partir de uma falsa discursividade catártica, ou seja, seu guia esverdeado faz uma ‘hipnose semicoletiva’, como se fosse possível extirpar a diferença na civilização com gritos, tapas, armamentos, injúrias, racismos… Já é de se asseverar: este devaneio ‘ogro’ não pode dar certo a médio prazo!

Não importa se o candidato seja de esquerda, direita, centro ou marginal. O importante, seguindo a ‘orientação moral’ do filósofo Immanuel Kant (1724-1804), logo no primeiro parágrafo de sua instigante, deleitosa e reflexiva ‘Fundamentação da Metafísica dos Costumes’ – Editora Martin Claret Ltda., São Paulo, 2ª reimpressão, 2011, p. 21 – é uma ter boa vontade:

“Nem neste mundo nem fora dele, nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação, a não ser uma só coisa: uma boa vontade. A argúcia do espírito, a capacidade de julgar ou como queiram chamar os talentos do espírito, ou ainda a coragem valorosa, a decisão, a firmeza de propósitos como qualidades do temperamento são, sem dúvida, em certos aspectos, qualidades boas e desejáveis; mas também podem se tornar extremamente más e perniciosas se a vontade que deve usar desses dons naturais, e cuja constituição particular, por isso, se chama caráter, não for boa. O mesmo acontece com os dons da fortuna. O poder, a riqueza, a honra, mesmo a saúde, e todo o bem-estar e contentamento com a sua sorte, sob o nome de felicidade, conferem ânimo que muitas vezes, por isso mesmo, desanda em soberba caso não exista também a boa vontade que corrija a sua influência sobre a alma e, ao mesmo tempo, o princípio complexo da ação”.

Para Kant, deve-se abdicar das ‘intenções’‘inclinações’ e ‘desejos’ que não se coadunam com a boa vontade racional genuína e relativa a determinados princípios morais aplicáveis a partir de certos imperativos categóricos universaisKant já antevia o desejo inconsciente antes de Sigmund Freud (1856-1939) – que o teorizou –, reconhecendo a força avassaladora das ‘pulsões’ do mundo sensível, da natureza animal que sempre tentou sobrepor-se ao mundo inteligível, à ‘definitiva pedra de toque da verdade[1]: a razão pura, e seu decorrente ‘esclarecimento’ (Aufklärung).

Em Kant, a força instintiva do mundo animal (‘ogro’) deve ser ‘recalcada’ e ‘tratada’, talvez melhor ‘sublimada’ em nome da razão, tarefa impossível para o seu exercício pela maioria dos ‘ogros’, pois, conforme Kant abaixo (pé de página): “pela educação é fácil estabelecer o esclarecimento [Aufklärung] em indivíduos particulares; o que se tem de fazer é começar logo cedo e acostumar os jovens espíritos a essa reflexão. Já esclarecer toda uma época é um processo lento e penoso, uma vez que há muitos obstáculos exteriores que em parte proíbem essa espécie de educação e em parte a dificultam.”

Portanto, não basta conhecimento para o esclarecimento racional reflexivo. E qualquer tentativa de educar a ‘geração ogro’ encontrará dificuldades extremas, haja vista que, em primeiro lugar, a consciência jurídica democrática brasileira, principalmente neste tempo de Estado de Exceção, está contaminada e é permissiva ao dialeto ‘ogrês’; em segundo, porque ao que tudo indica, a boa vontade e a capacidade de uso da razão está proscrita, impossibilitada de ser exercida na horda ‘ogro-bolsonita’.

Enfim, está travada uma batalha entre uma ‘minoria ogro’ subsumida ao primitivismo animal irracional contra, felizmente, uma maioria que, eventualmente, ainda é capaz de se submeter ao crivo da razão.

O final da história que se repete todos já conhecem. Os ‘ogros’ incomodam muito, mas sempre são dizimados. Assim como foram os fascistas e demais bárbaros…

Contra a razão e o esclarecimento não há ‘ogro’ que fique em pé por muito tempo!

Cássio Vilela Prado – 21/07/2018

[1] KANT, Immanuel – Fundamentação da Metafísica dos Costumes – Op. Cit. (no corpo do texto), p. 113:

pensar por si mesmo significa procurar em si (ou seja, em sua própria razão) a suprema pedra de toque da verdade; a máxima que manda pensar por si mesmo é o esclarecimento [Aufklärung]. A ele não pertencem tantas coisas quanto imaginam os que situam o esclarecimento nos conhecimentos. Pois o esclarecimento é antes um princípio negativo no uso da capacidade de conhecer, e muitas vezes quem tem enorme riqueza de conhecimentos revela-se esclarecido ao utilizá-lo. Servir-se de sua própria razão não é outra coisa senão, em tudo aquilo que devemos admitir, perguntar a nós mesmos: achamos possível estabelecer como princípio universal do uso da razão aquele pelo qual admitimos alguma coisa ou também a regra que se segue daquilo que admitimos? Qualquer indivíduo pode realizar esse exame consigo próprio e verá desaparecer imediatamente a superstição e o devaneio, mesmo quando está longe de possuir o conhecimento para refutar um e outro com base em motivos objetivos. Pois serve-se unicamente da máxima da autoconservação da razão. Por isso, pela educação é fácil estabelecer o esclarecimento [Aufklärung] em indivíduos particulares; o que se tem de fazer é começar logo cedo e acostumar os jovens espíritos a essa reflexão. Já esclarecer toda uma época é um processo lento e penoso, uma vez que há muitos obstáculos exteriores que em parte proíbem essa espécie de educação e em parte a dificultam.

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