Onde erramos para permitir o golpe?

Hoje estamos sobre o manto da imposição golpista política-jurídico-midiática. E para nós, agora, tudo começa com o necessário distanciamento, em uma reflexão interna para nos aprofundarmos no questionamento: Por que permitimos o golpe? Onde foi que erramos?

A atual conjuntura nos oportuniza promover o reencontro do tronco com as raízes para salvar a árvore que é o Partido dos Trabalhadores, instrumento para o desenvolvimento e inclusão social, e assim, restabelecer a copa frondosa de proteção dos explorados e oprimidos do Brasil.

Neste artigo não tenho a pretensão de esgotar o assunto sobre o momento em que estamos vivendo, muito menos que este seja fundamentado em receituários teóricos. Aqui me referencio muito mais no que percebo do momento e nos apanhados que encontrei a beira do caminho nestes mais de 30 anos de militância política, somadas às indagações que povoam a minha cabeça.

Para tanto começo perguntando: Estamos preparados para aproveitar a riqueza deste momento? Temos a exata dimensão desta oportunidade? Estamos dispostos a nos percebermos como um corpo orgânico único e de promovermos esse processo sem procurar culpados? Eu preciso crer que sim.

Neste e em outros artigos que poderão vir, vou tentar expressar minhas percepções.

Hoje estamos sobre o manto da imposição golpista política-jurídico-midiática. E para nós, agora, tudo começa com o necessário distanciamento, em uma reflexão interna para nos aprofundarmos no questionamento: Por que permitimos o golpe? Onde foi que erramos?

O momento atual oportunizou a mobilização de setores muito importantes da sociedade brasileira em defesa da democracia.  Mobilizações muito parecidas com as que foram feitas no final dos anos 70 e início dos anos 80 pela defesa da anistia e da reabertura política.

A heterogeneidade da composição daquelas mobilizações não as impediam de expressarem um conteúdo único. Elas expressavam necessidades sentidas, sintetizadas em bandeiras de lutas que compunham aquela conjuntura, que criaram as condições para o surgimento das mais importantes ferramentas de luta dos explorados e oprimidos e de defesa da democracia, dentre elas, o Partido dos Trabalhadores.

Sobre o partido faço uma breve imersão. O PT nasceu patinho feio, taxado de divisionista por setores da esquerda e esnobado por setores dos militares da direita, que não acreditavam que os trabalhadores conseguiriam organizar um partido.

Teimou se viabilizou juridicamente como partido nas eleições de 1982, mesmo com a forte cláusula de barreira imposta pelo regime vigente, mas saiu das eleições com sentimento de derrota e frustrações diante das expectativas projetadas. Como testemunho, transcrevo um paragrafo do Manifesto de Fundação da Articulação dos 113, resultado de um encontro de 113 militantes dos diversos setores envolvidos na construção do PT. O Manifesto começa assim:

Estamos convencidos que o PT vive, hoje, um momento muito difícil, mas não aquela crise que os seus inimigos apregoam”

Só neste pequeno texto percebemos que o pós-eleições de 1982 está muito parecido com o que acontece em 2016, 33 anos depois.

Segue ainda mais um trecho do Manifesto:

Diante disso, resolvemos nos articular para uma intervenção coletiva na vida do nosso partido. Estamos, nesse momento, diante da importante tarefa da renovação das direções partidárias”

Coincidência? Fatalidade? Não sei, talvez seja apenas a história concluindo um ciclo, em forma de círculo, em que o fim encontra o começo, dando origem a um novo começo, em busca de um novo fim. O que eu sei é que o encaminhamento daquele manifesto deu consistência orgânica ao Partido.

Por isso, nos anos seguintes o PT passou a ser caluniado e combatido, com seus militantes taxados de baderneiros e terroristas. Dois exemplos, para ilustrar: Marcha dos Trabalhadores Canavieiros em Guariba-SP, que resultou na tentativa de incriminar o PT após a morte de um trabalhador pela polícia; e, Marcha da Panela Vazia em Brasília, o “panelaço”, onde houve uma quebradeira geral de lojas e carros da polícia incendiados. O Governo Federal, através de seu ministro da Justiça, Paulo Brossard acusou o PT e os movimentos sindicais de serem responsáveis, mas ao final ficou provado que haviam policiais infiltrados para promover a baderna.

Aos poucos, o partido foi conquistando aliados e nas eleições de 1989 firmou uma aliança estratégica com PSB de Arraes (à época, um partido de esquerda) e com o PCdoB e também se aproximou de Leonel Brizola com seu PDT.

Na diversidade o PT cresceu, estribado no programa com viés socialista. À medida que avançávamos, aparentemente,  a conjuntura,  nos exigia mais flexibilidade e o partido passou por upgrade reformista com o programa da revolução democrática, que exprimia um programa de desenvolvimento que ganhou corações e mentes da maioria do povo brasileiro.

Nossa imagem carrancuda foi substituída pela leveza do “Lulinha Paz e Amor”. A esperança venceu o medo. Aos vinte três anos, depois de derrotas doloridas, o PT chegou ao governo do Brasil, numa aliança tática que incluiu setores progressistas do empresariado.

Fizemos um grande governo, o nosso PIB quadruplicou, promovemos inclusão social, distribuição de renda e respeito aos direitos humanos e à diversidade.

O país cresceu. Ganhou respeito internacional e passou a ajudar na construção de uma nova agenda internacional, em especial, no combate à pobreza, à fome e à miséria. Tal fato que mexeu com os interesses da “Via Láctea”, a constelação daqueles que expropriaram o poder do soberano, o povo e se apropriaram do poder, como explica Ken Croswell:

“Não mexa com a Via Láctea. Uma galáxia escura na constelação de Hércules aprendeu essa lição da maneira mais difícil depois de mergulhar em nossa galáxia e se dilacerar por sua atração gravitacional.”

Mas então, por que se permitiu o golpe? Porque subestimamos a chamada a “Via Láctea”?

Penso que a atual situação se assemelha. O PT cometeu um grave erro: deixou se enganar pensando que fazia parte do poder (a Via Láctea), que era aceito, mas era apenas tolerado.

É simples, o PT não faz parte da constelação, pois seus compromissos não são com os usurpadores. Pelo contrário, o compromisso do PT é com a emancipação do povo brasileiro, por acreditar que o povo emancipado saberá planejar o seu futuro.

Povo emancipado isso não pode, isso é uma afronta aos senhores da casa grande. É uma ameaça aos seus interesses. Isso é inaceitável. E por isso, agiram virulentamente para desconstruir o príncipe (PT).  O príncipe, ingênuo, pensou que era só entregar alguns anéis que estaria tudo resolvido. Se enganou. Não estava.

É preciso responder quem é PT? PT somos nós dirigentes, mandatários, militantes e filiados. Por isso, é preciso considerar que em algum momento nos acomodamos nas poltronas macias do governo e nas salas com ar condicionado, pensando que éramos poder e nos esquecemos do que nos ensinou o Poeta Pedro Tierra, no poema comemorativo dos nossos 20 anos “Os filhos da Paixão:

Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas.
Projetamos a perigosa imagem do sonho.
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho”

Eles nos toleravam, mas nunca nos aceitaram, é BOM QUE SE REPITA. Isso porque eles compreendiam e compreendem o risco de termos um país soberano, com povo livre.

Subestimamos o nosso inimigo. Agora estamos a perguntar: por que o nosso projeto está sendo rejeitado e as nossas lideranças perseguidas? Por que isso está acontecendo?

O provérbio romano que diz: “A mulher de Cezar não basta ser honesta, tem que parecer honesta” parece nos cair muito bem. Para ser amado é preciso ser bom, belo e forte.

Mas não basta ser bom, é preciso parecer bom. Não soubemos parecer bons.

Como podemos imaginar, só para citar um exemplo, que a cidadã, mãe de família, sem nenhum bem patrimonial, pagadora de aluguel ou, morando de favores, beneficiária do programa Minha Casa Minha Vida, tendo recebido a sua moradia novinha, com o pagamento de apenas 10%( parcelado em 120 meses) do valor total do investimento, que entre construção, infraestrutura e valor do lote soma cerca de R$ 80 mil, não gostar do PT, da Dilma e do Lula. Culpa dela? Não.  Culpa nossa. Pois, em algum momento deixamos de esclarecer a ela que este benefício só se tornou possível porque estávamos sob um governo de forte cunho social e de esquerda e que em governos de direita, isso não aconteceria.

Então, fomos bons, isso é inegável, reparamos injustiças e resgatamos direitos negados secularmente, mas não parecemos bons. Não fizemos a disputa de valores, a disputa dos corações e das mentes do povo.

Ao longo dos nossos primeiros 20 anos, construímos uma bela história, nos apropriamos e a entronizamos em nós, muito particular e egoisticamente, quando devíamos promover a socialização de modo que o povo se apropriasse dela. Agora, o povo não se sente obrigado a defender essa beleza, por que não a sente como dele.

Éramos fortes e não soubemos usar a nossa força, ou nem percebemos a força que tínhamos. Em defesa dos princípios republicanos, abrimos mão dos valores socialistas, ou, pelo menos, não fizemos a disputa de valores.

A princípio, classifico como o mais grave dos nossos erros a não realização de duas reformas fundamentais ainda no primeiro governo do presidente Lula, nos anos 2005 e 2006.

Devíamos ter levado a cabo uma reforma política profunda, para afastarmos de vez o financiamento empresarial das campanhas, instituindo o financiamento público das eleições e uma séria clausula de barreira. A outra, é sobre o marco regulatório dos meios de comunicações, que devíamos ter enfrentado, reformando o sistema brasileiro de comunicações, pluralizando as concessões e impedindo o monopólio, coisa que a Inglaterra fez, rapidamente, após um escândalo um tabloide.

Alguns até podem argumentar que não tínhamos maioria no Congresso para aprovar tais reformas. É verdade, mas tínhamos o povo, que naquele momento iria às ruas aos milhões convocados pelo Presidente Lula. Passou. Agora não temos.

Nesse mesmo período os nossos adversários até tentaram nos afastar do Governo, mas avaliaram não serem capazes de realizarem o intento, devido à força do presidente Lula.

Nós, pelo contrário, subestimamos a nossa força, por isso, não fizemos o enfrentamento que era preciso fazer.

Passados quase quarenta anos, a atual conjuntura é uma mistura, que envolve nuances políticas, culturais, econômicas, sociais e fascistas, dos anos 50, 60, 70 e 80, porém com uma grande diferença, a esquerda ficou por mais de 13 anos no governo e com a possibilidade de ficar mais 7 anos, com a conclusão do mandato da presidenta eleita Dilma Rousseff e a volta do presidente Lula, para, no mínimo, mais 4 anos.

E o fato de termos estado no governo e de termos cometidos alguns erros, dificulta o enfrentamento que o momento está nos exigindo, mas não nos impede de reaquecermos nossos sonhos e seguirmos lutando, porque como disse o Mestre Pepe Mujica: “Derrotados são os que desistem da luta. A guerra não acabou, perdemos uma batalha. A guerra continua”.

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