Orgulho venezuelano é dissuasão contra invasão

"A votação de domingo não virou o jogo na Venezuela mas deu novo fôlego à resistência contra uma oposição que pretende destruir as conquistas do período Hugo Chávez, restaurar o velho poder da oligarquia  e resgatar as riquezas do país para o controle dos mercados", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "A votação revelou a permanência do orgulho nacional da população venezuelana, hoje o principal fator de dissuasão contra toda hipótese de intervenção estrangeira no país. Meio século depois, o fantasma da fracassada invasão da baía dos Porcos, na alvorada da revolução cubana, assombra os aliados internos e externos de Washington" 

"A votação de domingo não virou o jogo na Venezuela mas deu novo fôlego à resistência contra uma oposição que pretende destruir as conquistas do período Hugo Chávez, restaurar o velho poder da oligarquia  e resgatar as riquezas do país para o controle dos mercados", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "A votação revelou a permanência do orgulho nacional da população venezuelana, hoje o principal fator de dissuasão contra toda hipótese de intervenção estrangeira no país. Meio século depois, o fantasma da fracassada invasão da baía dos Porcos, na alvorada da revolução cubana, assombra os aliados internos e externos de Washington" 
"A votação de domingo não virou o jogo na Venezuela mas deu novo fôlego à resistência contra uma oposição que pretende destruir as conquistas do período Hugo Chávez, restaurar o velho poder da oligarquia  e resgatar as riquezas do país para o controle dos mercados", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "A votação revelou a permanência do orgulho nacional da população venezuelana, hoje o principal fator de dissuasão contra toda hipótese de intervenção estrangeira no país. Meio século depois, o fantasma da fracassada invasão da baía dos Porcos, na alvorada da revolução cubana, assombra os aliados internos e externos de Washington"  (Foto: Paulo Moreira Leite)
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 Para as forças internas e externas que pretendiam, pelo boicote e pela intimidação terrorista, impedir a realização das eleições para a Assembleia Constituinte Venezuelana, a votação de domingo terminou em derrota.

 A participação de 41,3% do eleitorado numa votação polarizada, na qual a simples presença nas cabines eleitorais já implicava numa forma de posicionamento político e até risco de vida, demonstra um fato político de primeira importância.

  A oposição passou o domingo apostando num comparecimento muito menor, menos da metade daquele que se verificou no fim do dia. Divulgou números e projeções precipitadas, numa tentativa óbvia de confundir as coisas e desmoralizar o resultado. Num sintoma percebido por observadores internacionais, o boicote foi mais forte na parte da manhã, mas perdeu o fôlego ao longo do dia, quando era possível verificar um aumento das filas mesmo nos bairros onde a oposição é majoritária.  

 Apesar do imenso desgaste do governo Maduro, a herança do período de Hugo Chávez conserva um grau inegável de legitimidade e reconhecimento popular.  

 O fato da votação não ser obrigatória apenas reforça essa constatação.

  Não é possível alimentar ilusões nem exageros, contudo. É preciso colocar as questões com clareza, evitando analogias indevidas. Em países onde o voto não é obrigatório, costumam ocorrer eleições legislativas com participação de 30% dos eleitores, ou  mesmo 20%. Mas estamos falando em pleitos de rotina em situações onde a democracia encontra-se estabilizada, ao menos no plano das aparências e sugestões -- o que nem de longe é o caso da Venezuela em 2017, vamos combinar.

  A eleição de domingo garantiu  um balão de oxigênio ao governo, emparedado por uma Assembleia Nacional adversária e um Judiciário dividido e rebelde. Mas esse respiro está longe de ter resolvido o impasse político do país.

  A Venezuela caminha para um confronto político de envergadura, que dificilmente irá se resolver pelos meios convencionais, pois envolve forças consolidadas, interesses irreversíveis e poucas possibilidades de acomodação.   

 A eleição para a Constituinte ampliou a musculatura de uma resistência necessária mas não virou o jogo.

 Embora tenha produzido uma herança de medidas políticas desastradas e  indefensáveis, que sem dúvida alimentam a divisão do país e o desalento de vários de antigos seguidores,  nenhum dos erros e tragédias produzidas por Maduro pode ser usado para  esconder  a natureza da oposição a seu governo.

 Não há dúvida que seus adversários  representam um projeto inaceitável de  entrega colonial das principais riquezas do país, começando  pelo petróleo para terminar com a esmagamento da soberania nacional.   

 Do ponto de vista político, o país está diante de uma conspiração que não alimenta nenhum compromisso democrático, de qualquer tipo -- nem com as aparências. Pretende-se -- na melhor das hipóteses -- restaurar o velho pacto das oligarquias que administrou o país, durante décadas, quando chegou a ter pelo menos um presidente da República na lista de agentes pagos pela CIA, até que a erupção do movimento de massas que sustentou Hugo Chávez assinalou uma ruptura de valor histórico.

     Neste momento a derrocada do governo Maduro só interessa às forças comprometidas com o atraso e a exploração da América  do Sul no nível mais selvagem.  Não trará nenhum benefício a uma população que já paga sacrifícios sem conta. E só irá criar novas dificuldades para uma reconstrução necessária.

     O risco de trazer para a região o ambiente de  prolongados conflitos militares de outras partes  do planeta -- Afeganistão, Iraque, Síria -- não pode ser desprezado.

     É bom lembrar que a participação de 41,5% dos eleitores nas eleições é reveladora de um fator político reconhecido. Mostra que uma parcela considerável de venezuelanos não pretende assistir ao desmantelamento de seus país de braços cruzados.

     Este elemento, que podemos definir como orgulho nacional, está presente na maioria da população, em particular das parcelas dos patamares inferiores da pirâmide social, aquelas que desde 1999 deram sustentação a Chávez e, mais tarde, transferiram seu apoio a Maduro, mesmo a contragosto, mesmo em grande decepção.

    É um dado obviamente considerado por todas as forças envolvidas na disputa pelo poder na Venezuela e funciona, na prática, como o principal elemento de dissuasão contra qualquer intervenção estrangeira -- seja capitaneada diretamente por Washington, em estado de semi-paralisia em função de males congênitos da Casa Branca de Donald Trump, seja encenada por testas de ferro em disponibilidade entre os governos vizinhos, sem escrúpulos para desempenhar um papel essencialmente vergonhoso.

     O orgulho nacional venezuelano ajuda a lembrar um das mais ridículas operações do império norte-americano em assuntos internos de outros países -- a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961. Uma operação que pretendia derrubar o governo de Fidel Castro transformou-se em seu contrário e unificou o país contra um bando de mercenários treinados pela CIA. A reação popular à invasão deu nova legitimidade ao regime e permitiu à população enfrentar, nas décadas seguintes, as dores de um bloqueio econômico covarde e injusto, no qual a maior potência do globo impedia um dos menores países do planeta ter acesso ao benefícios produzidos pelo progresso de toda humanidade do século XX.

      A Venezuela de 2017 não é a Cuba de 1961. O mundo não é o mesmo, vivendo hoje sob uma geopolítica imperial sem oposição e sem contrastes.

      Mas o fantasma de um fiasco semelhante àquele de meio século atrás está presente com mais força depois da votação de domingo.  

 

 

 

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