Os 15% de arrependidos

"Estava ali, na minha frente, um retrato dos 15% que, segundo apontou a pesquisa Ibope divulgada nesta semana, deixaram de considerar o governo que assumiu há apenas três meses incompletos, 'ótimo ou bom'", conta a jornalista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, ao relatar o episódio de um empresário que não conseguiu mais arcar com os compromissos financeiros assumidos; "Bolsonaro, pela imprensa, dá de ombros para os números da pesquisa, mas as ações do Planalto demonstram não ser bem assim, o cenário entre os seus pares"

Os 15% de arrependidos
Os 15% de arrependidos (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia - Há um ano e meio alugo um espaço para um pequeno empresário. Os pagamentos eram feitos religiosamente. Há dois meses, porém, o dinheiro parou de chegar. Dias desses ele bateu à minha porta. Constrangido, corado e com umas gotas de suor lhe cobrindo a testa, começou a conversa desculpando-se pelo atraso. "As coisas estão muito ruins. Tudo piorou", acrescentou ele, jogando na conta do governo o motivo da inadimplência. E continuou dando uma pitada de politização ao seu discurso:

- A senhora me desculpe, mas estou trocando de ramo. Vim trazer o seu dinheiro só agora. Não sei o que fazer e sinto que isto é só o começo. Eu não sei de que lado a senhora está, mas o país está muito pior – lamentava-se, para reforçar as desculpas pelo atraso do pagamento. Pacientemente eu esperava que ele tirasse, enfim, o dinheiro do bolso, cumprisse o compromisso e se fosse, mas o que o empresário sacou foi uma confissão:

- Eu votei nele. (Entendi que no Bolsonaro, claro). Não sei explicar, hoje, porque votei. Quer dizer, sei sim. Eu não queria mais aquela roubalheira. Estava uma vergonha, a senhora não acha?

- De qual roubalheira estamos falando?

- Daquela turma de antes. Eu fui ficando injuriado. Todo dia a gente ligava a televisão e era só escândalo daquela gente. Abria o celular e tinha uma quantidade de mensagens falando de, mais escândalos. Eles fizeram eu tomar tanta raiva daquela turma que eu votei nele só de raiva. Eu votei com raiva. E repetia a palavra "raiva" com a carga que a palavra tem.

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Não. Eu não concordava e expus para ele os argumentos. E nem precisava, pois estava ali, na minha frente, um retrato dos 15% que, segundo apontou a pesquisa Ibope divulgada nesta semana, deixaram de considerar o governo que assumiu há apenas três meses incompletos, "ótimo ou bom". Em janeiro, 62% afirmavam confiar em Bolsonaro. A taxa caiu para 55% em fevereiro. Agora está em 49%. Um susto, para quem foi eleito com 55,1%... Bolsonaro, pela imprensa, dá de ombros para os números da pesquisa, mas as ações do Planalto demonstram não ser bem assim, o cenário entre os seus pares.

Para atenuar a crise de aceitação os seus "gurus" foram beber na mesma fonte que os conduziu ao poder. Os conceitos de Esteve Bannon - um dos coordenadores da campanha de Trump à presidência - descritos com maestria num livro difundido entre os progressistas interessados em saber "que tiro foi esse", disparado das urnas.

Em "Guerras Híbridas", Andrew Koribko reúne as várias teorias dos estudiosos que fundamentam as ações de Bannon. Um desses conceitos, é o da "criação do caos", usada para derrubar os governos "incômodos". Por aqui esse caos é traduzido em twitters e episódios bombásticos, como a recente prisão do ex-presidente Michel (me recuso a chamá-lo diferente disto).

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"Talvez a inovação mais importante às guerras e a mais relevante para as guerras híbridas seja a teoria do caos", diz o autor, citando Esteve Mann, em sua tese sobre o "caos/construtivo/criativo". "Administrado, ocorre quando há uma tentativa de canalizar essas forças para fins estratégicos. As revoluções coloridas (sem o uso da força – o grifo é meu) encaixam como uma luva nesse princípio, fazendo delas mais eficazes do que as táticas para troca de regime mais antigos e tradicionais."

Em entrevista recente ao site "Tutaméia", o líder do MST, João Pedro Stédile, contou que fez uma comparação entre os números de telefone com Whatsapp nos estados, e concluiu que eles são em menor número no Nordeste, exatamente onde o candidato do PT, Fernando Haddad, foi mais votado. Stédile lembrou que os "robôs do Bannon enviavam 100 milhões de zaps por dia para esses celulares". E expôs sua percepção do eleitorado que despejou votos em um candidato sem "base social real".

Na prática, o que Stédile aponta é a execução, na última eleição, das teorias descritas no livro "Guerras Híbridas", em que uma fonte financeira poderosa entra no país e banca um grupo de "lideranças espontâneas", desconhecidas, emergentes. Essa liderança começa a "formar" os "tenentes" influenciadores e, daí por diante esses "tenentes" saem a campo em busca de multiplicadores movidos pelas ideias advindas desse núcleo.

Para ele, a base de Bolsonaro é composta por militares e seus familiares, a outra turma seria a dos Chicago Boys", dos banqueiros e da turma do ministro Paulo Guedes. O restante, algo em torno de 20%, são os pentecostais - os evangélicos, que por seus valores conservadores ainda não abandonaram o barco. Porém, acredita o líder do MST, o farão em breve, quando sentirem no bolso os efeitos do próprio voto.

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