Os discursos da vitória

Não foi um discurso num local próprio, cercado por sua militância, discurso que tem sempre um pouco de desabafo, discurso improvisado e cheio de emoção. Nada disso. Primeiro que foi na sua casa. Segundo que não foi um discurso, foram três

Os discursos da vitória
Os discursos da vitória (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes/Pool)

Reinicio aqui um novo ciclo de textos. Os anteriores viviam o clima de expectativa, desejo, do que permanecia em aberto. Por isso mesmo eram menos analíticos e cheios de esperança. A última pesquisa Vox Populi, feita na véspera das eleições, dando empate cravado, e com o histórico positivo do primeiro turno - na ocasião, foi a pesquisa que mais acertou comparada com Ibope e Datafolha -, me levou a acreditar definitivamente na virada. Se no início do segundo turno eu já acreditava, e a diferença era bem significativa, de sábado pra domingo então fui dormir certo de que no dia seguinte seria a festa da democracia.

Não foi. O real é o real. As pessoas até hoje não entendem quando eu digo que o cu é o que há de mais real: nem utopia, nem distopia. O real apenas. Subtraído de valores morais. O real bruto, abrupto, mesmo que muitas vezes possa parecer sandice.

E o mito fez os seus discursos de agradecimento. Começa aí o estranhamento. Não foi um discurso num local próprio, cercado por sua militância, discurso que tem sempre um pouco de desabafo, discurso improvisado e cheio de emoção. Nada disso. Primeiro que foi na sua casa. Segundo que não foi um discurso, foram três.

O primeiro discurso, por ser o primeiro, já carrega uma certa prioridade em relação aos demais. Acompanhado sempre da futura primeira dama e do tradutor de libras, o mito dirigiu-se primeiramente para o seu público da internet. E abriu com o evangelho joão 8:32 : "conheceis a verdade e a verdade vos libertarás". Verdade aqui tem um sentido de transparência: "o povo tem o direito de saber o que acontece no país". Em seguida, cutuca a mídia, ou boa parte dela, acusando-a de colocá-lo várias vezes numa situação vexatória. A metáfora militar também não poderia faltar: seus eleitores são comparados a um grande exército que sabia pra onde o Brasil marchava e clamava por mudanças. Coloca o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo de esquerda num mesmo saco - não havia mais como flertar com todos esses segmentos, segundo o mito. E elege quatro termos significantes: /Deus/, /Constituição/, /grandes líderes mundiais/, /boa assessoria técnica e profissional isenta de indicações políticas/. Por fim, informa que tem condições de governabilidade em função dos contatos com parlamentares nos últimos anos que e seus compromissos serão cumpridos.

O segundo discurso, não é bem um discurso, ainda que, no sentido de Bakhtin, seja um discurso e tanto. E quem o faz não é o mito, é Magno Malta, derrotado nas últimas eleições, mas com uma pasta garantida no futuro governo. Elemento de ligação com pentecostais, é o segundo discurso na ordem de importância. Esse discurso-oração de agradecimento, no entanto, dá margem a um comentário introdutório por parte de Magno Malta: "os tentáculos da esquerda jamais seriam arrancados sem a mão de Deus". A seguir, fecha os olhos e se dirige a Deus. Se no primeiro discurso, o mito se dirigia a seu séquito de seguidores na internet, no segundo discurso Magno Malta se dirige a Deus. E para tanto, fecha os olhos e todos se dão as mãos. Fala em família, pais, nossas crianças. Fala em "desfazer minas que foram colocadas". Fala novamente em "nossas crianças", escolas, famílias. E fala em autoridade: "quem unge autoridade é Deus e o Senhor ungiu Jair Bolsonaro". Agradece a evangélicos, espíritas, católicos. Acrescenta que somos um país majoritariamente cristão. E solta o bordão final: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

O terceiro discurso sugere ser o menos importante. E não é à toa que vem por último. Discurso lido. Discurso oficial da vitória. E provavelmente não escrito pelo mito. Nesse caso, ele é um mero porta-voz. "Defender a constituição, a democracia e a liberdade, não é a promessa de um partido, mas um juramento a Deus". E continuando nessa mesma linha: "o que se celebra não é a vitória de um partido, mas a liberdade de um país" (em vários momentos se dá a impressão que a ideia de partido é a ideia menos importante). E a partir daí vai se desfilando uma sucessão de imagens,  sugerindo um discurso previamente  pensado em seus mínimos detalhes: será um governo constitucional e democrático, com a liberdade de se fazer escolhas e ser respeitado por elas (um país para todos); o governo reduzirá sua estrutura e burocracia, cortando desperdícios e privilégios, além de permitir que o empreendedor tenha mais liberdade; seguindo a ideia de federação, os recursos do governo federal irão para os estados e municípios - "precisamos de mais Brasil e menos Brasília"; reformas para um novo futuro - este não será um governo de resposta apenas às necessidades imediatas; o desígnio dos brasileiros de hoje e do futuro é a prosperidade; direito de propriedade como um dos pilares do estado democrático de direito; emprego, renda e equilíbrio fiscal; juros mais baixos, mais investimentos, déficit primário eliminado e crescimento dos empregos - "governaremos com os olhos nas futuras gerações e não na próxima eleição"; não mais relações internacionais com viés ideológico - "O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. E por fim, "nesse projeto que construímos cabem todos aqueles que tem o mesmo objetivo que o nosso".

Certamente esse último tópico, em contradição com um dos primeiros que dizia ser um governo para todos, ilumina a própria estruturação dos discursos: o primeiro foi para os que o seguem na internet; o segundo, para os pentecostais; e o terceiro para o grande público, onde é explicado com clareza todo o projeto neoliberal, cuja autoria é desconhecida já que se dispersa por várias forças que o apóiam. A diferença entre os três discursos é a nova configuração do poder: tecnologia, tradição e neoliberalismo.

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