Os estereótipos nossos de cada dia

Tivemos recentemente um fato ocorrido com o ator Luis Miranda em um restaurante japonês na barra da tijuca, bairro de classe média e alta do Rio de Janeiro. Segundo uma postagem feita por ele mesmo em sua página no facebook, o ator relata que fora confundido com um garçom, mesmo não estando com uma bandeja na mão

Tivemos recentemente um fato ocorrido com o ator Luis Miranda em um restaurante japonês na barra da tijuca, bairro de classe média e alta do Rio de Janeiro. Segundo uma postagem feita por ele mesmo em sua página no facebook, o ator relata que fora confundido com um garçom, mesmo não estando com uma bandeja na mão
Tivemos recentemente um fato ocorrido com o ator Luis Miranda em um restaurante japonês na barra da tijuca, bairro de classe média e alta do Rio de Janeiro. Segundo uma postagem feita por ele mesmo em sua página no facebook, o ator relata que fora confundido com um garçom, mesmo não estando com uma bandeja na mão (Foto: Nêggo Tom)

As vezes tenho a impressão de que falar sobre preconceito é perder tempo com algo que nunca vai mudar. Sim. Porque eu duvido que um racista, por exemplo, seja capaz de mudar o seu modo de pensar e de se julgar superior a alguém, que ele aprendeu na escola da desigualdade social e racial institucionalizada em nossa sociedade, que deve lhe servir pelos séculos e séculos, em função da cor da pele, amém. O que deve mudar radicalmente é a atitude dos grupos que sempre foram vítimas de preconceito, quanto a aceitação do grau de inferioridade que lhes foi imposto quase que de maneira constitucional, por gerações e gerações.

É triste constatar que ainda hoje, em pleno século 21, as mulheres, os pobres, os indígenas, os negros e outros grupos tidos como minorias, ainda sofrem com o estigma social da inferiorização de suas capacidades. As mulheres, por concepção falso moralista, são frágeis, submissas, indefesas e naturalmente suscetíveis aos assédios masculinos do dia a dia. E aquelas que se atrevem a não ser, são vadias e mal amadas. Os pobres naturalmente são mal educados, preguiçosos, pouco asseados e desprovidos de raciocínio. E aqueles que ousam a recusar o estigma, são metidos a besta, subversivos e petulantes porque almejam chegar a um lugar que "capitaneahereditariamente" sempre pertenceu e deve continuar pertencendo aos bem nascidos e afortunados descendentes de s enhores de engenho. Os indígenas historicamente são apenas selvagens que querem ter o direito de viverem nus ao ar livre, praticando a sua pajelança. E aqueles que não são assim, representam um perigo para os indefesos latifundiários e barões das grandes propriedades rurais. 

Já os negros, quando não são vitimistas, são os serviçais e mesmo que não forem, nem uma coisa nem outra, assim eles devem ser vistos. É o padrão determinado por uma parte da nossa sociedade elitista que ainda não perdoou a princesa Isabel por ter assinado a lei áurea. Alguns desses devem lamentar a não existência da possibilidade de impeachment no período monárquico. Certamente teriam planejado um golpe para derrubá-la antes, se soubessem de sua inclinação abolicionista. Marquesas e marqueses bateriam freneticamente suas panelas as margens do Ipiranga exigindo o direito de continuar escravizando seres humanos para o seu benefício pessoal e para o crescimento da economia. É difícil desapegar das coisas quando elas nos favorecem. Assim tamb&e acute;m acontece com os estereótipos. Quem se encaixa no perfil do dominador não abre mão de manter as coisas como estão e ainda se orgulha disso.

Tivemos recentemente um fato ocorrido com o ator Luis Miranda em um restaurante japonês na barra da tijuca, bairro de classe média e alta do Rio de Janeiro. Segundo uma postagem feita por ele mesmo em sua página no facebook, o ator relata que fora confundido com um garçom, mesmo não estando com uma bandeja na mão. Uma cliente do restaurante teria passado por ele, que se dirigia ao banheiro do estabelecimento, e lhe perguntado se havia mesa disponível para duas pessoas. O ator se incomodou com a situação e respondeu: “Sou negro, mas nem por isso sou garçom aqui! Minha camisa parece de garçom, né?” Li algumas opiniões sobre o episódio e evidenciei o óbvio sob a lente dos "comentaristas", principalmente dos que não são negros. O vitimismo de Luis Miranda. Onde já se viu se ofender por ter sido confundido com um garçom, uma profissão tão digna quanto outra qualquer? Isso é complexo de inferioridade. O racismo está na cabeça dele. Puro mi mi mi.

Eu li a postagem do ator e em nenhum momento ele relata que a sua reação foi em virtude da comparação com um garçom e sim pela maneira como a situação se desenvolveu. Eu também já fui confundido com o segurança em uma festa na qual eu fui cantar. Evidente que se eu não fosse negro a probabilidade dessa confusão acontecer seria bem menor, assim como no caso do ator. Isso é natural em uma sociedade originariamente escravocrata e que faz de tudo para perpetuar os seus valores amorais sob a máscara da tradição e dos bons costumes. Claro que não há nenhum demérito e nenhuma vergonha em ser confundido com um garçom ou com um segurança. Ser preconceituoso e racista é um desvio de caráter gravíssimo e nem por isso os por tadores desse mal se sentem envergonhados. O que incomoda é a estereotipação a qual ainda somos submetidos. É a imagem preconcebida da pessoa e de uma situação na qual ela se encontra. Estereótipos são cruelmente usados para definir e limitar pessoas ou um grupo de pessoas na sociedade e a aceitação desses estereótipos é um fator motivador de preconceito e discriminação.

Ao imaginar que Luis Miranda pudesse ser o garçom do restaurante, a tal cliente recorreu a sua memória afetiva (ou seria desafetiva?) e aos conceitos sociais infundados e internalizados dentro dela e fortalecidos através dos estereótipos criados pela sociedade. Coisas do tipo: todo judeu é pão duro, todo paraíba é porteiro, todo pobre é mal educado, todo cabeleireiro é viado, toda mulher de minissaia que ser estuprada e todo negro é serviçal. O pior disso tudo é que muitas das vezes as vítimas desses estereótipos se sentem obrigadas a participar da distorção da sua própria imagem. Talvez para não parecer antipática ou até mesmo por não ter auto estima suficiente para rechaçar o rótulo. As pessoas que condenaram a atitude do ator Luis Miranda, de colocar os pingo nos "is" e fazer a cliente rever os seus conceitos, esperavam dele a aceitação do estereótipo. O famoso "deixa isso pra lá". Foi só uma bobagem! A compreensão de que é normal fazer esse tipo de confusão, afinal de contas, na visão racista preto é tudo igual e de preferência nivelado por baixo. 

Causaria estranheza se a tal cliente imaginasse que ele pudesse ser o gerente, um dos sócios ou até mesmo o dono do restaurante. Através de um amigo tomei conhecimento do caso de um médico negro que trabalha em um hospital público no Rio de Janeiro, que causa surpresa aos pacientes que chegam para serem atendidos por ele. Alguns pacientes chegam a lhe perguntar a que horas o doutor vai chegar e até funcionários da conservação e limpeza do hospital, inclusive alguns negros, se recusam a chamá-lo de doutor e a lhe oferecer o mesmo tratamento destinado aos médicos de pele clara. Uma prova de que maldade dos estereótipos é absorvida de forma natural pela sociedade, até mesmo por aqueles que são diminuídos por eles. E esses estereótipos sempre foram reforçado s pelo sistema, através da mídia. É o negro cachaceiro representado de forma "pueril" através do personagem Mussum dos Trapalhões. É o negro sem dente imortalizado por Tião Macalé. É a negra barraqueira e quizumbeira, retratada na "criola difícil" personagem da atriz Marina Miranda. É o negro empregado doméstico da teledramaturgia nacional, que mesmo sendo mal tratado pelos patrões, está sempre ali de prontidão para lhes oferecer um chá ou um copo de água nos momentos mais tensos da trama.

Ainda sobre o episódio envolvendo o ator, que estava acompanhado pelas atrizes Dani Calabresa e Fabiana Carla, um bilhete foi deixado para a tal cliente e nele estava escrito: "Não sou garçom, assim como você também não é. Sou cliente assim como você, mas exitem coisas que nos diferem, como por exemplo, o seu preconceito. Não poderia ir embora sem te mandar tomar no ....." Quanto ao conteúdo do bilhete, a única observação que eu faço é que o orifício anal não tem acento no "u", o resto eu assino embaixo, até porque o palavrão ali escrito, é nitidamente uma forma de deboche em resposta a situação. Quem se ofendeu e condenou atitude, que ao que parece nem foi do ator e sim da atriz Dani Calabresa que o acompanh ava, julgando de profundo mal gosto e falta de educação, deve ter avaliado da mesma forma e com o mesmo rigor quando uma multidão de "coxinhas" proferiu a mesma ofensa contra a presidente da república, dentro de um estádio de futebol lotado, para o mundo inteiro ver e ouvir. Ou talvez nem tenham se indignado tanto assim. Afinal, sabemos bem que a indignação da nossa sociedade burguesa é seletiva e que pimenta no furico deles arde, mas no dos outros é refresco.

Viva a resistência!

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