Os inusitados lapsos de silêncio do klan presidencial

Uma coisa é certa: discrição nunca foi o forte do núcleo familiar da pessoa que atualmente ocupa a presidência da República, ao menos desde que seus membros mais conhecidos ganharam popularidade, por quaisquer motivos

Flávio, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro; no detalhe ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega
Flávio, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro; no detalhe ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega (Foto: Reprodução)

Uma coisa é certa: discrição nunca foi o forte do núcleo familiar da pessoa que atualmente ocupa a presidência da República, ao menos desde que seus membros mais conhecidos ganharam popularidade, por quaisquer motivos. 

Pelo contrário: a fanfarronice e a ostentação sempre foram marcas registradas do klan de homens brancos, de bem, em defesa da moral e da família brasileira (a matriarca está calada desde a "Queirozada" e a filha é mantida sob distância regulamentar da mídia). Se o pai é, notoriamente, um divergente do idioma brasileiro, os filhos herdaram a mesma característica mas quase nunca se ausentaram das redes sociais, sempre praticando ofensas e delitos por meio da comunicação eletrônica, quase que diariamente. Declarações, falas, postagens, sempre valeu tudo para se manter o bozismo em evidência.

Contudo, três momentos contundentes envolvolvendo de certa forma a família presidencial brasileira chamam atenção pelo enorme inusitado que provocaram quando o assunto é o cotidiano de El Presidente (ou, se preferirem, o líder supremo do Movimento Neandertal Brasileiro, MNB). Nos três casos, situações de violência extrema similares à pauta permanente do klan.

Março de 2018: a vereadora Marielle Franco é fuzilada em pleno coração da cidade do Rio de Janeiro, ao lado de Anderson Gomes. Marielle era - e é! -, por si só, a antítese do klan. A notícia correu o Brasil e o mundo em poucas horas. Acostumado a celebrar a morte e a consagrar a arminha nas mãos, a família presidencial, acostumada a celebrar mortes e vibrar com a desgraça de adversários, optou por um silêncio de mil cemitérios (sem trocadilhos infames). A quase dois anos do dia do assassinato, até agora pouco ou quase nada se sabe do brutal assassinato, ainda que muitas sejam as pistas, as desconfianças e até mesmo as convicções, não é mesmo Sr. Ministro da Justiça? 

Setembro de 2018:  facada em Juiz de Fora. É difícil imaginar que na comitiva e segurança do candidato, recheada de policiais e torcedores do armamentista, não houvesse uma única pessoa armada que reagisse contra Adélio. É muito difícil, aliás. Mas não aconteceu. Nenhuma reação violenta num cenário abarrotado de apologistas da violência. Dezenas de pessoas que defendem o uso de armas, e provavelmente muitas armadas, mantiveram-se absolutamente serenas diante do risco de morte de seu líder supremo. E mais uma vez o clã, tão acostumado a fazer barulho por nada, se recolheu a um avassalador silêncio. Os filhos, sempre defendendo a morte e o fuzilamento de bandidos (na verdade, de todos os seus opositores), fizeram paisagem de estátua diante do potencial assassino do pai. 

Fevereiro de 2020: o fuzilamento do Capitão Adriano. Homem de milícia, comandante do Escritório do Crime, unha e carne de Fabrício "Rachadinha" Queiroz, diplomado no Rio por intervenção do klan, parceiro de Ronnie Lessa (um dos possíveis assassinos de Marielle), defendido publicamente por Jair B. e Flávio B. quando foi preso em 2005 por suspeita de assassinato, CA virou uma poça de sangue no sítio do vereador Gilsinho de Dedé (PSL) localizado em Esplanada, no interior baiano. Na ocasião da morte, deixou 13 celulares, nenhuma foto que efetivamente o indicasse como morto e, mais uma vez, foi parte de um silêncio inusitado: se Flávio B. empregou a mãe e ex-esposa de Capitão Adriano em seu gabinete, se ele era tão ligado a Queiroz - outro membro moral da família B. -, se o klan tanto o apoiou e o defendeu, porque o silêncio sepulcral literalmente neste momento da morte de alguém tão próximo e, inegavelmente, de confiança dos B.?

Só para lembrar: quando Queiroz deu sumiço pela primeira vez, estava escondido em Rio das Pedras, reduto do Escritório do Crime então comandado por Capitão Adriano. Não é uma incrível coincidência? 

Sem a palavra como sempre no Brasil 2020, o Ministro da Justiça, absolutamente mudo diante de situação tão grave. E mais muda ainda a família mais boquirrota do Brasil, que parece revelar muito mais coisas em seus congressos de mudez do que em seu carnaval de histerias midiáticas. 

Pena que certa parcela da população, ainda entorpecida com a fantasia da democracia bolsonarista, ainda invista seu tempo tentando defender todas as barbaridades acima descritas, num profundo exercício de diáspora da lógica e da realidade. Mas, um dia, a hora da lucidez coletiva há de chegar. Tomara que não seja tarde demais. 

Última forma: cá entre nós, assim, poça de sangue à parte, não custava nada o velório do Capitão Adriano ter o caixão aberto. É que nos últimos tempos a vida brasileira tem sido marcada por cenas de realismo fantástico. Uma pitadinha de prudência cai bem no caso. 

E que a população em geral esteja convocada a refletir sobre tudo o que aí está. A vida real costuma ser bem diferente da que é narrada - ou silenciada - pelo bozotismo. 

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