Os “paraíba” de Bolsonaro - notícia de um preconceito

(Foto: Alan Santos)

O caso, ocaso do presidente, se deu na sexta-feira passada quando foi divulgado um vídeo com a fala sobre "governadores de paraíba", até a citação  do nome do governador Flávio Dino, do Maranhão: "Não tem que ter nada para esse cara".  

Depois, Bolsonaro negou que tenha usado o termo "paraíba" para criticar nordestinos, pois os insultos se dirigiram “apenas” a dois governadores: Flávio Dino (PC do B), do Maranhão, e João Azevedo (PSB), da Paraíba. Mas essa emenda é pior que o soneto. Ainda aqui, nessa aparente restrição, a fala do presidente vai contra a ordem constitucional. Entre outros pontos, determina o artigo terceiro da Constituição Federal:   

“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”

Na verdade, o “paraíba” do caso do presidente é uma expressão insultuosa, que ainda se encontra entre as pessoas menos esclarecidas no Rio de Janeiro,  onde os Bolsonaros moram. Em dúvida, consulte-se o Dicionário Aulete Digital:

“paraíba

6. Pop. Operário da construção civil; PARU; PARAÍBA-DE-OBRA

7. P.ext. Qualquer nordestino, sobretudo o que procura a região sudeste em busca de trabalho; PAU DE ARARA”

Também no Grande Dicionário Houaiss:

“ paraíba  

4 operário não qualificado da construção civil

5 p.ext. designação dada a qualquer nordestino fora de sua região”  

E como prova da realidade viva de que fala o dicionário, lembro a agressão verbal do jogador de futebol Edmundo, no dia em que foi expulso por um juiz  cearense no Rio Grande do Norte:

- Olha, a gente vem na Paraíba, um paraíba apita, só pode prejudicar agente, né?

No vestiário, Edmundo, de cabeça fria, deu a seguinte desculpa ao repórter:  

-   No Rio, todo o mundo que é do Norte, a gente chama de paraíba. Você que é do Rio sabe disso.  

O vídeo com o insulto do jogador aqui   

https://www.youtube.com/watch?v=1DrobSUuNNk   

O que vimos acima é prova de que Bolsonaro usou de preconceito contra todos nordestinos,  no mesmo nível intelectual do ex-jogador do Vasco da Gama.   

Daí que cai por terra o presidente no ocaso falar que se referiu apenas aos paraibanos, como se desse modo o insulto fosse pequeno. Aqui, ele se assemelha a um pistoleiro que negasse ter matado cem pessoas. Para diminuir o crime, o criminoso responderia como tantos outros que já vimos nas páginas policiais: “Cem?! Isso é uma calúnia. Matei apenas trinta...”.  

Ainda nesta semana, em solenidade pública, pois esse presidente é capaz de  se mostrar de pijama e chinelos como um astro pop da decadência, em ato público, diante de câmeras, ele perguntou se o ministro Tarcisio Freitas tinha parentes no Nordeste: "você tem algum parente pau de arara?". Quando o ministro respondeu que tem parentes no Piauí e no Rio Grande do Norte, Bolsonaro respondeu:

- Com esta cabeça aí, tu não nega não.

E foi às gargalhadas, reforçando o estereótipo de que nordestinos têm cabeça-chata, maior que a média da população brasileira. Bolsonaro se exibe debochado como o homem da caricatura que dizia “eu vendi a dinheiro”.  

O presidente exibe um mal que se reproduz até entre nordestinos, contra a fala do português no Brasil. Explico. Envergonhados da fala de “paraíbas”, chega a existir um extermínio dos sotaques regionais até na voz dos repórteres e apresentadores do rádio e televisão do Nordeste. Os falares diversos, certos/errados aos quais o poeta  Manuel Bandeira se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo”, ganham um status de anulação da identidade, em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, coração não é mais córa-ção, virou côra-ção. Olinda, que o prefeito e todos olindenses chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Mas toda a juventude no carnaval contesta, quando canta  “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físico europeu.

O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável “sabedoria”, os comunicadores passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região. O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco.  E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Em resumo: Bolsonaro expressou do modo mais vulgar, criminoso, o que é um preconceito da gente mais ignorante.  É natural que a fala contra “paraíbas”  dê origem   seu definitivo ocaso da presidência do Brasil.

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