Os recados das ruas

E se o Brasil está hoje nessa situação de crise deve-se quase única e exclusivamente a ele, Aécio, que, inconformado com a derrota nas urnas, incendiou o país contra a presidenta Dilma, contando com a cumplicidade da mídia e oposicionistas do tipo maria-vai-com-as-outras

Quatro detalhes expressivos das manifestações de domingo parecem dar a exata dimensão da mobilização, do perfil e do padrão das pessoas que, na visão da "Folha", podem decretar o fim do governo Dilma. Em primeiro lugar, é emblemática a imagem do casal de banqueiros participando da passeata com a babá empurrando o carinho do filho, retratando o nível econômico da esmagadora maioria dos manifestantes, entre os quais ninguém viu negros e pobres (a não ser a babá), conforme, aliás, destacou a cantora Preta Gil. Ficou evidente que os descontentes com o governo Dilma são precisamente os chamados "coxinhas", os mesmos que batem panelas na varanda gourmet de seus apartamentos de luxo e que não admitem dividir o mesmo espaço nas universidades e nos aeroportos com os trabalhadores pobres e negros.

Em segundo lugar, a vaia e os xingamentos ao senador Aécio Neves e ao governador Geraldo Alkmin em meio à passeata revela que, apesar de toda a cobertura e blindagem da mídia, eles não representam as aspirações dos manifestantes ou, melhor dizendo, dos "coxinhas". Isso significa que se eles não conseguem mais nem o apoio desses brasileiros com os quais estão identificados, que teoricamente seriam seus eleitores, obviamente não terão os votos do povão. E mais: apesar da blindagem feita pela mídia, que esconde as delações contra eles, e pelos operadores da Lava-Jato e pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que se fazem de cegos e surdos às denúncias sobre o recebimento de propinas por parte de Aécio, os manifestantes revelaram estar conscientes de que eles não são diferentes dos petistas acusados de corrupção. E, por isso, os chamaram de "corruptos". Diante disso, seria de bom alvitre ficar atento aos recados das ruas.

Não deixa de ser surpreendente, por outro lado, o cinismo do presidente nacional do PSDB quando afirma, em artigo publicado no domingo, que "é impossível ficar insensível ao grito uníssono contra a corrupção e a gestão calamitosa, contra a mentira e a favor do trabalho independente das instituições brasileiras, em defesa da democracia e das conquistas que tanto nos custaram em sacrifício e luta". Quando foi que Aécio se sacrificou na luta em defesa da democracia e das conquistas? Aliás, quando foi mesmo que ele lutou? Todo mundo sabe que quem de fato lutou e se sacrificou pela democracia foram Lula e Dilma. E se o Brasil está hoje nessa situação de crise deve-se quase única e exclusivamente a ele, Aécio, que, inconformado com a derrota nas urnas, incendiou o país contra a presidenta Dilma, contando com a cumplicidade da mídia e oposicionistas do tipo maria-vai-com-as-outras.

Em terceiro lugar, a saudação nazista de muitos manifestantes, durante a passeata, evidencía a índole fascista dos que querem derrubar a presidenta Dilma e impedir o ex-presidente Lula de voltar ao Planalto. Eles não estão preocupados com o combate à corrupção, com os problemas do país e muito menos com a preservação da democracia, mas apenas com a tomada do poder, não importando o preço que a população terá de pagar. Por isso atenderam à convocação da oposição, que tem o mesmo pensamento. Recente pesquisa, aliás, revelou que os excessos cometidos pela Operação Lava-Jato tiveram a aprovação de parte da população, talvez sugestionada pelo apoio incondicional dado pela mídia às ações dos investigadores, o que deve ser motivo de preocupação para aqueles que defendem o Estado Democrático de Direito.

Em quarto lugar, a aclamação ao juiz Sérgio Moro e ao deputado Jair Bolsonaro, durante a mobilização, completa, com a saudação nazista, o perfil do manifestante que saiu às ruas no domingo. Na verdade, eles não representam o povo brasileiro, que deseja e apoia o combate à corrupção, mas não aprova a conotação político-partidária das investigações e muito menos a ausência de isenção nas investigações. Estes jamais aclamariam o magistrado e o parlamentar. De qualquer modo, constatou-se que o juiz Moro foi o grande beneficiário da manifestação, o que deve ter inflado mais ainda o seu ego, ultimamente bastante massageado com a idéia de ser candidato à Presidência da República. Moro, que deslumbrou-se com a fama e não consegue mais ficar longe dos holofotes – chegou a mandar um e-mail à Globo pedindo para que "ouçam a voz das ruas" – deve ter chegado ao êxtase ao ver o seu nome sendo aclamado pela multidão.

É forçoso analisar-se, porém, com realismo e isenção, os possíveis efeitos da manifestação de domingo. Tolo é quem avaliar o peso da passeata, para o impeachment da Presidenta, pelo noticiário da "Folha", para quem Dilma "já caiu". Em primeiro lugar, o volume de manifestantes registrado não representa a vontade da maioria do povo brasileiro, não podendo, portanto, se contrapor aos 54 milhões que votaram em Dilma.

Não tem, também, nenhum significado para a aprovação do impeachment, porque não supre a ausência de crime da Presidenta, fundamental para justificar o seu afastamento. Além disso, seria irônico imaginar que um Congresso recheado de parlamentares sob investigação, acusados da prática de crimes de corrupção, possa votar pelo afastamento de uma Presidenta sem mácula. Que autoridade moral teriam para aprovar o impeachment?

Quanto ao juiz Sérgio Moro, aparentemente o grande vitorioso das manifestações, se ele se empolgar com isso vai terminar como o ministro aposentado Joaquim Barbosa, que deixou o Supremo embalado pelo incenso da mídia, convencido talvez de que chegaria ao Planalto nos braços do povo, e hoje amarga o ostracismo. Assim como ele, Moro só terá o apoio e os salamaleques da mídia enquanto for útil ao seu projeto de retomada do poder para a Direita, representada pelos tucanos. Com o fim da Lava-Jato – certamente um dia ela vai acabar mesmo que a dilatem ao máximo – o magistrado paranaense será desaconselhado pelos próprios políticos que o aplaudem hoje a nem pensar em candidatura e, ao mesmo tempo, será esquecido pela mídia. Afinal, a essa altura ele não terá mais nenhuma utilidade para os que desejam o poder.

Conclusão: aparentemente a única consequência da manifestação de domingo será a possibilidade de aprovação do semiparlamentarismo, projeto já em apreciação no Senado, com a manutenção da presidenta Dilma em seu cargo e a eleição de um primeiro ministro para administrar o país. A partir daí, a briga será em torno da escolha do nome para ocupar o novo cargo. Mas isso é outra história...

 

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