Outra armação em Itaipu

"Uma grande armação é o “engravidamento” do Conselho de Administração da estatal brasileira por agentes que representam altos interesses do setor privado na área de energia", afirma a jornalista Tereza Cruvinel. "A energia total de Itaipu em 2018 gerou um orçamento de US$ 4,2 bilhões. Como haverá o excedente de 35% da produção total de energia não utilizada pelo Paraguai, é só fazer a conta. No mínimo US 1,5 bilhão em jogo"

(Foto: (Foto: Reuters | Reprodução))

Todo governo descobre seu “grande negócio”, seja a pretexto de financiar o partido e o projeto político, seja simplesmente para enriquecer seus membros. 

Está ficando claro que para o governo Bolsonaro, Energia é o grande negócio.

Embora Jair Bolsonaro tenha descartado a privatização da Eletrobrás na campanha, aí está o ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, confirmando através do jornal Valor Econômico que o governo já optou pela pulverização das ações da estatal, de modo que a União deixe de ter o seu controle acionário. 

Só este já será um grande negócio.

Mas é pela binancional Itaipu que estão passando, neste momento, as jogadas mais importantes para os amigos do governo em relação aos negócios com energia. 

Há outras armações em Foz do Iguaçu, além do escândalo que agita o Paraguai, e deveria estar agitando o Brasil, uma vez que o nome dos Bolsonaro foi usado ostensivamente pelos operadores do acordo secreto que, após descoberto, quase levou ao impeachment do presidente Benítez e ainda ameaça seu mandato.

Uma grande armação é o “engravidamento” do Conselho de Administração da estatal brasileira por agentes que representam altos interesses do setor privado na área de energia. 

Já no governo Bolsonaro foram nomeadas duas figuras que todo mundo no mercado sabe quem são e a quem servem. 

Um deles é Wilson Ferreira Junior, ex-executivo da CPFL e atual presidente da Eletrobras. Mas, embora presida a estatal, ele foi posto por Michel Temer no cargo exatamente para comandar a sua privatização. Ele é tido como o ponta de lança dos interesses privados no setor. Por isso foi mantido no cargo por Bolsonaro.

O outro é Luiz Fernando Vianna, ex-presidente da Copel e ex-diretor geral brasileiro na Itaipu Binacional. Nomeado no início do governo Temer, ele deixou o cargo em maio do ano passado para aceitar uma proposta milionária do setor privado. Foi comandar a Delta Energia, uma das maiores comercializadoras do setor, detentora de um dos maiores fundos de energia do país. 

Wilson e Luiz Fernando são amicíssimos e articularam juntos o ingresso no Conselho da Itaipu porque entendem do negócio. As nomeações só saíram no governo Bolsonaro, com o apadrinhamento do Ministro de Minas e Energia. 

Para isso, pesou muito a relação de Viana com o almirante. 

Eles foram colegas na Marinha durante dois anos, antes de Vianna abandonar a carreira militar para estudar engenharia. Acabaram se reencontrando recentemente, o almirante como ministro das Minas e Energia, Viana como executivo de um grande fundo comercializador de energia. Deu liga.

Vianna falava aos amigos que trabalhava para integrar o Conselho de Itaipu para "acompanhar" a modernização tecnológica da binacional, um negócio estimado em US$ 500 milhões de dólares, e também as negociações do Anexo C do Tratado Binacional de Itaipu. No fundo, este segundo ponto é o que interessa. 

O Anexo C vence em Fevereiro de 2023 e precisa ser renegociado até lá. Trata-se da fixação das regras de comercialização da energia de Itaipu no Brasil e no Paraguai nos anos seguintes. A posição ocupada por eles é estratégica e a crise política no Paraguai expôs esses interesses de forma evidente.

Figuras ligadas à família Bolsonaro, como Alexandre Giordano, representante da empresa Léros e suplente do senador Major Olimpio (PSL), líder do governo no Senado, tentaram se adiantar e garantir vantagens no acordo firmado para a repartição de energia no ano que vem. Como a reação paraguaia foi enorme, e ainda ameaça o presidente Benitez com o impeachment, o acordo secreto gorou. 

Mas as armações para a revisão do Anexo C, que acontecerão durante o mandato de Bolsonaro, seguem a vapor. Trata-se de uma disputa para ver quem vai controlar a revenda do excedente de energia dentro do Brasil. Negócio de gente grande.

Teoricamente, esta energia deveria ser comprada pela Eletrobrás mas a empresa deixará de ser estatal. Sua privatização é condição preliminar para que a revenda caia em mãos privadas. Mas muita coisa terá que ser definida antes de fevereiro de 2023. 

Qual será o papel das comercializadoras? O Paraguai tem direito a 50% da energia de Itaipu é só vem usando em torno de 15% desse total. Hoje, os 35% não utilizados pelo Paraguai vêm para o Brasil a preço de custo - previsto no anexo C. Quanta energia virá a partir de 2023, e a quê custo virá? Estas regras assanham o setor privado. Só para se ter ideia do volume do negócio: A energia total de Itaipu em 2018 gerou um orçamento de US$ 4,2 bilhões. Como haverá o excedente de 35% da produção total de energia não utilizada pelo Paraguai, é só fazer a conta. No mínimo US 1,5 bilhão em jogo.

Tudo isso, naturalmente, passará pelo Conselho de Administração de Itaipu, onde foram instalados dois representantes do setor privado, dos grupos interessados em estabelecer as novas regras, que podem ter como subproduto o encarecimento da energia consumida pelos brasileiros. 

No Paraguai, a explosão da crise em torno do acordo secreto mobilizou a sociedade civil, que agora se lançou contra os "vendepátrias" que atuavam em Itaipu. 

E aqui, eles continuarão em posições de mando, com a bênção do governo e sob os olhos fechados da sociedade?

Prestemos mais atenção aos negócios com energia.

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